Grupo é destaque do festival espanhol Sónar com seu R&B repaginado
14.03.08 19:30
Não é à toa que o festival espanhol Sónar desse ano tem como um de seus temas o "fator feminino" na música. Façamos um rápido recorte para a cena musical sueca, já que os artistas apresentados por esse radar vêm de lá: Nos últimos tempos o pequeno território escandinavo apresentou ao mundo as composições metalingüísticas de Lykke Li, os remixes de vocação ítalo-disco de Sally Saphiro e o pop resfriado de Robyn. Como se não bastasse tanta vocação feminina, uma das novidades mais interessantes no campo eletro-acústico vindas do norte europeu é o Little Dragon, grupo liderado por uma mulher.
Afora a nacionalidade, esse quarteto formado em Gotemburgo tem pouco em comum com os exemplos citados acima. A voz de sua vocalista, Yukimi Nagano, não é virginal como a de Lykke, a as bases instrumentais não são sintéticas como as de Sally ou as de Robyn. Em comum, porém, o Little Dragon compartilha com essas outras artistas a abordagem excêntrica de gêneros musicais bem conhecidos pelo público como o folk, a disco ou, nesse caso, o R&B (rhythm and blues).
A nipo-sueca Yukimi Nagano
A formação do grupo inclui, além de Yukimi, os instrumentistas Erik Bodin (na bateria), Fredrick Källgren (no baixo) e Hakan Wirenstrand (nos teclados). Antes de se reunir com os outros integrantes, Nagano também emprestava sua voz ao grupo de future jazz Koop, e foi aí que ganhou visibilidade como cantora. Ao lado de Erik, ela participa também da banda que acompanha os shows do compositor José Gonzalez - cujo selo lançou, no começo do ano, o álbum homônimo de estréia do Little Dragon.
PERVERTENDO A FÓRMULA Amigos desde os tempos de colégio, os quatro cozinham uma mistura de jazz e blues com sintetizadores desafinados. Se uma primeira ouvida dá a impressão de que a banda segue a atual linha neo-soul britânica, é só prestar atenção nas bizarras sutilezas que aos poucos vão despontando para chegar a uma conclusão contrária: samples tocadas no reverso e dissonâncias ocasionais dividem espaço com a bateria jazzista de Erik e os sintetizadores excêntricos de Hakan.
O maior hit do Little Dragon é "Twice". A faixa abre o debut com um clima arrastado e melancólico, mas os versos cantados por Yukimi têm efeito poderoso até sobre os corações mais gelados. Tanto é que nem Ellen Allien, dama do techno alemão, resistiu e incluiu a música em sua compilação Boogy Bytes, a ser lançada pelo BPitch Control em breve. O clipe também é especialmente bonito, e vale ser conferido.
Vídeo de "Twice"
As outras faixas, ao contrário de "Twice", seguem mais ritmadas e têm uma dose maior de otimismo. Dessas, os destaques são "Turn Left", "Recommendation" e a bela "Constant Surprise" com seu refrão catchy. Ainda que a diferença do Little Dragon esteja na abordagem inusual do R&B, é difícil não ouvir às músicas do álbum sem lembrar das novas divas do soul britânico como a jovem Adele ou das raízes do gênero, formadas em meados do século passado. (A tempo, Erykah Badu deve ser mencionada nesse rol, já que seu nome volta aos holofotes com seu quinto álbum, o fresquíssimo "New Amerykah Part One (4th World War)", lançado mês passado)
Voltando ao começo do texto, também não é à toa que o Little Dragon é um dos destaques da próxima edição do Sónar espanhol. Além do latente "fator feminino", impregnado na forte personalidade de Yukimi Nagano, os suecos têm de sobra o hibridismo apregoado pelo festival na escalação desse ano, e desenvoltura suficiente para experimentar até mesmo em gêneros tão estabelecidos em nossa cultura musical como o jazz e o R&B.