Autechre - Quaristice
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ficha técnica
Nota: 2 / 5
Ano: 2008
Selo: Warp
Estilos: IDM, experimental
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Autechre - Quaristice
Rob Brown e Sean Booth fazem refletir sobre razão de ser da eletrônica experimental
17.03.08 13:30
Desde 1989 o selo WARP tem alimentado ravers cansados, nerds convictos, posers desocupados, eruditos de boutique e uma gorda legião de não-rotuláveis com projetos estranhos e experimentais, parindo geralmente abordagens extraordinárias do techno, do electro, do ambient e do breakbeat.

Por essas quase duas décadas, o selo fez dançar com o bleep techno do LFO e do Sweet Exorcist, desestabilizou alicerces do hip hop com Prefuse 73 e Antipop Consortium e balançou pressupostos do rock com Maxïmo Park, Battles e Grizzly Bear. Ainda mais notavelmente, viu sua trajetória se confundir com a própria história da música eletrônica experimental. Seus paradigmas como selo têm débito principal com as ambiências e antiestruturalismos de gente como Richard D. James - o mestre Aphex Twin -, em peças como "On", "Didgeridoo" e "Analog Bubblebath", o Squarepusher de "My Red Hot Car" e "Big Loada" e, nosso objeto de estudo da vez, a dupla inglesa Autechre.

TRAJETÓRIA
O Autechre marcou território nessa trinca central de fantásticos da WARP graças a seus álbuns Amber (1994) e Tri Repetae (1995). Consagrando momentos como "Eutow" e "Nil", eles tornaram as harmonias intrincadas e herméticas da assim-chamada "eletrônica inteligente" um tanto mais digeríveis graças a eventuais picos de suavidade melódica. Em um momento em que tantos clubbers com baixas taxas de serotonina se questionavam sobre se a eletrônica poderia transcender a pista de dança e o hedonismo 4x4, o Autechre ajudou a inaugurar a uma filosofia sobre o futuro da música que encontra paralelos em autores como Gilles Deleuze e Jacques Derrida. O descentramento, o desequilíbrio e o não-imediatismo da linguagem, temas tão recorrentes na fortuna crítica do pensamento contemporâneo, foram traduzidos em Rob Brown e Sean Booth no apontamento das possibilidades complexas dos softwares de produção, da impossibilidade de rótulos e de ritmos duros de acompanhar.

Fundamentado nesse senso de não-regularidade, o Autechre tem aplicado matemática pura ou improvisação deliberadamente incoerente para fazer bailar neurônios. E após três anos sem colocar álbum na praça, os moços apresentam Quaristice. Desde Amber e Tri Repetae, fãs do Autechre têm visto a dupla colaborar com a canonização das vias experimentais da eletrônica. Acompanharam Brown e Booth virarem "artisticamente relevantes" e merecem julgamento mesmo no âmbito do jornalismo cultural popular. Alguns deles, decerto, celebraram também a eletrônica experimental que abraçou mais vocais, recursos análogos e acústicos, cores e heranças culturais; que acelerou junto com a tecnologia e que, principalmente, aprendeu a dar risada de si mesma.

Que o Autechre quer é sabotar nosso senso direção rítmica? Déjà vu. Quaristice, nono álbum da dupla, é anacrônico e clichê dentro do contexto WARP. Paradoxalmente, o que o salva de ser quase tão descartável quanto um back-to-back entre Benny Benassi e David Guetta é justamente o que o impede de importar: seu revivalismo. Pode até servir como abalo sísmico e tapa na cara de quem nunca ouviu Autechre. Mas que iniciados ainda engolem uma eletrônica experimental cuja razão de ser é defender as bases de uma visão permanente, que não se permite ser auto-irônica ou musicalmente prostituta? Se você, como eu, pensa que vanguarda que se repete é nada além que lingüiça falaciosa, vai ter problemas em justificar a existência do álbum.

A ÓBVIA CARTILHA DA DESCONSTRUÇÃO
São vinte faixas de cerca de três ou quatro minutos cada, durações bastante curtas se falamos de Autechre. Se você procura por alguma coesão ou intencionalidade, provavelmente não vai encontrar, seja ouvindo as peças randomicamente ou em seqüência. Tudo bem, pois na cartilha da eletrônica experimental do Autechre, início, meio e fim não devem ser perceptíveis, bem como qualquer ritmo vagamente dançante deve ser interrompido. Nesse sentido, Quaristice cumpre o papel óbvio. Texturas ásperas, sintetizadores distorcidos e não-ritmos são onipresentes. A fantasmagórica "Altibzz" abre o disco e consegue ser uma das mais eficientes, provavelmente por se ater a nuances aquático-atmosféricas. A maioria do que segue são rascunhos monotemáticos que carecem de planejamento e clareza conceitual. Era esta mesmo a intenção deliberada? Quer o Autechre desprezar a necessidade de se produzir um grande álbum em tempos de arraigada efemeridade e descartabilidade musical? Risos.

NO BRASIL...
O Autechre foi anunciado atração do TIM Festival 2005 ao lado de Vincent Gallo, um curioso combo Warp no evento. Por problemas pessoais eles cancelaram a vinda, sendo substituídos por Jamie Lidell, soulman que tocou para poucos no mesmo horário dos badalados Strokes. Mas o live marcou a memória (e a cintura) dos presentes. Jamie lança seu segundo álbum via Warp, Jim, mês que vem.
As linhas condutoras das faixas seguintes são a imprevisão e a porra-louquice, uma interpretação em álbum do que Brown e Booth fazem ao vivo. Além de "Altbizz", poucas faixas escapam à regra da provável irrelevância: a ode ao Aphex Twin nas excêntricas "chenc9" e "Simmm", manifestos sônicos contra a sanidade que vão fazer parecer que seu MP3 player pifou. Ainda, a temperamental "Notwo" é seqüela de "Amber" e agrada razoavelmente como um dub submarino. O que segue são zumbidos, nervosismo sônico e nonsense: algo que teria, talvez, algum impacto no contexto da eletrônica experimental em 1998. Hoje, é uma seleção ilustremente desinteressante legitimada pela tradição do Autechre.

É inútil esperar por uma nova "Gantz Graf" ou "Basscadet". Ao ouvir "Quaristice", ensaie uma convincente cara de paisagem e se questione qual o limite entre improvisações geniais e incoerência preguiçosa. Tente pescar, nesse sumário do passado do Autechre, pistas sobre novos caminhos para a eletrônica experimental. Porém, para melhor contemplar o duelo entre lirismo e bagunça que fez a história da dupla, vasculhe o catálogo antigo da WARP. E não esqueça: eletrônica experimental não precisa de tradição. Precisa de crise identitária incessante. Se há alguém de inteligente nessa história, é aquele que agüenta o tranco. Qual a graça em ver um trem descarrilando quando você já prevê o acidente?
MP3
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Autechre - Altibzz (mp3)

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Autechre - The Plc (mp3)

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Autechre - Simmm (mp3)

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Autechre - chenc9 (mp3)

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Autechre - Notwo (mp3)


Jamille Pinheiro
Jamille Pinheiro
Várias vezes.