O boom das pistas alternativas na cena open-air
faça login para votar!
Enviar esse texto
login para votar!
social bookmarks
Digg
Mugg
del.icio.us
O boom das pistas alternativas na cena open-air
Leitora analisa inserção de novas sonoridades no roteiro psicodélico
25.03.08 16:50
Uma grande transformação está acontecendo na estrutura das raves e festivais de música eletrônica do Brasil: há algum tempo outras estéticas sonoras de BPMs mais baixos vêm ganhando espaço e respeito nas festas open-air que, antes, não abriam concessões para outros estilos eletrônicos. Cada vez mais vemos - e ouvimos - grandes artistas do techno, minimal, house ou electro em ação. E mais do que isso: até importantes e conhecidos artistas do psychedelic trance estão migrando para estas outras sonoridades: Gabe, Marcello VOR, Du Serena, Dahan, Sada e Teko, só para citar alguns nomes, têm projetos e/ou DJ sets paralelos. Uma boa parte do público também já vai às festas rave apenas em busca destes estilos, e a tendência é que a idéia ganhe mais e mais força.

Há até algum tempo atrás realmente não havia a necessidade para tal abertura no universo trance. Como é sabido, o gênero tem origens bem distintas e uma cultura psicodélica própria. Eram longas horas ou dias de imersão em uma só linha de som, rápida e atmosférica; a trilha sonora perfeita para uma intensa experiência, para entrar mesmo em transe, como o próprio nome auto-explica.

Quem estava lá, por volta de 1998, nas íntimas festas que fizeram a semente psicodélica brotar, são as pessoas que hoje produzem e fazem a festa acontecer. São os próprios donos das festas, DJs, VJs, decoradores, donos de lojas de roupas e alimentação, palestrantes, produtores; pessoas que naquela época se encantaram com a celebração a céu aberto e tiveram a vontade de contribuir positivamente para fazer esta cena crescer - e como cresceu! Ao longo destes curtos anos do desenvolvimento da cultura Trance no Brasil, muitos aspectos se transformaram no caminho: o público mudou, a intenção de celebrar, os locais, até a legislação mudou, menos… a música.

SOM ESTACIONADO?
O psy-trance parou no tempo, nos timbres e manobras, sequências e efeitos, e permaneceu como está há muitos anos - desde por volta de 98, quando um cru e original goa trance sofreu transformações na cadência, passou a ser chamado de psychedelic e sim, se padronizou. Responsabilidade dos produtores, que não reinventaram o estilo e caíram na fórmula que funciona. Para quem está na pista há alguns anos, é muito clara a percepção desta estagnação estética. O trance é uma trilha sonora que, para quem tem um entendimento sonoro mais amadurecido, tornou-se demasiado previsível e já não faz mais tanto sentido.

Assim, essa frente oldschool profundamente envolvida com o universo trance desde os primórdios da espécie, teve uma necessidade natural de sair em busca de novas sonoridades que causassem novas sensações, danças, insights… novas estéticas, para a história se reciclar e seguir forte.

Flow & Zeo
Flow & Zeo
O primeiro estilo a virar a curva para o outro lado foi o progressive trance. Alguns DJs pioneiros foram os responsáveis por esta primeira bifurcação no Brasil: Bob, Pedro Turra, Tati Sanches, Matera, Cláudio Brio, Flow & Zeo e Daniel Avellar foram os que, já entre 2001 e 2002, difundiram os sons com as batidas menos aceleradas, menos elementos e mais grooves. Desta matemática subtrativa - menos é mais - as variações foram se conectando, e em torno de 2005 outros estilos com a mesma pegada ganharam espaço definitivo nas festas e festivais open-air: techno, minimal, house e electro chegaram com intensidade nas pistas - que muitos ainda confundem erroneamente e chamam simplesmente de "progressivo".

Em suma, assim se deu a abertura e fusão de múltiplos estilos eletrônicos nas festas e festivais trance no Brasil. Esta transformação tornou a cena muito mais completa e interessante, por difundir possibilidades estéticas sonoras que vão muito além de qualquer definição. Da mesma forma que o trance entrou para os clubes, o som dos clubes ecoou para o meio do mato. A boa música não precisa de paradigmas e deve ser apreciada sem barreiras físicas ou mentais. Viva a atitude eclética!

LIMITAÇÃO DE ESPAÇOS
Chill-out do Boom Festival
Chill-out do Boom Festival
Mas claro que dividir o tempo da festa entre psy em um determinado horário e baixar os BPMs em outro gerou muita controvérsia. Por um lado, o público fiel ao psy não aceitou o momento da transição e abandonou a pista. Do outro, aqueles que apreciam música sem rótulos e buscam os outros ares eletrônicos.

Naturalmente a dualidade cresceu, e logo veio a solução para a harmonia entre estilos cada vez mais diferentes voltar a existir na mesma festa: criar um espaço para cada. Só assim, todos ficariam à vontade para apreciar o som que lhes caísse melhor num determinado humor e estado de espírito.

Atualmente, neste ano de 2008, vivemos o próximo grande passo na mutação das festas open-air. A idéia da fusão de estilos numa mesma festa sentiu a necessidade de crescer e… se emancipar.

Surge então a pista Alternativa, um espaço de celebração autônomo, um dancefloor paralelo que propõe a livre interação entre todos os estilos eletrônicos de BPMs mais baixos - essencialmente o quarteto techno, minimal, house e electro.

2007/08 foram anos determinantes para o desenvolvimento destas zonas autônomas temporárias. A festa Xxxperience já montou a pistinha algumas vezes, o Boom Festival de Portugal também, mas é o festival Universo Paralello que realmente quebrou os parâmetros e ergueu, pelo segundo ano consecutivo, uma pista Alternativa viva e sólida, que provou o desenvolvimento pleno da idéia.

Nesta última edição do Universo Paralello a pista Alternativa foi uma realização memorável, determinante para a solidificação do espaço como uma segunda pista real e independente, à altura da pista principal - ainda não em tamanho e calibre do sound system, mas certamente pela apreciação do público.

UNIVERSO PARALELLO
É importante contextualizar: não há no planeta um lugar tão belo e especial para uma festa desta dimensão. Nas areias brancas da paradisíaca praia de Pratigi, litoral sul da Bahia, o Universo Paralello toma a forma de uma verdadeira cidade auto-sustentável fora do tempo. Aproximadamente 10 mil pessoas, entre público e staff, vivem a experiência única de interagir neste cenário durante sete dias, sempre na virada do ano. O mar, o clima, gente de todo o mundo, coqueiros, estrelas, arte pura, música transcedental, atmosfera forte... liberdade total.

Naqueles dias intensos de ação no barco pirata foi clara a percepção coletiva: tomamos a consciência do quanto estamos unidos e engajados no conceito total da pista Alternativa. Todos trocavam idéias, impressões, discutiam com entusiasmo sobre a importância do que estava acontecendo ali, e a conclusão foi tirada com o entusiasmo: o universo paralelo do Festival foi a pista Alternativa. O espaço alcançou uma real autonomia no universo Trance.

Universo Paralello
Universo Paralello
É visível a evolução do festival, ano após ano: nesta edição viu-se uma estrutura como nunca antes, realmente ampla e impressionante. Nesta edição número 8 o UP tomou a vanguarda e mostrou um festival realmente total e eclético, com cinco ambientes de música que também firmaram a expansão sonora do festival: além da grande pista principal voltada a todas as vertentes do trance, um chill-out de beleza gritante com DJs e bandas dos vários estilos de downtempo (dub, trip-hop, nujazz, funk, IDM, experimental, entre muitos outros); o Palco Paralello para bandas de vários estilos não necessariamente eletrônicos (rock, jazz, MPB, música folclórica); a pista Goa, montada em meio a um pântano que recriou a atmosfera da cidade indiana onde tudo começou com o goa trance, e claro, o dancefloor alternativo.

A pista Alternativa é uma iniciativa que representa com força a frente oldschool da geração eletrônica nacional e ganha cada vez mais influência nas festas eletrônicas open-air; a atitude que daqui brotou já dá sinais de boa influência. Diversos festivais trance ao redor do globo também estão na iminência de hastear a bandeira pirata, como o importante Boom Festival, que acontecerá em agosto deste ano em Portugal.

SELOS
Eis outro fator que prova o total amadurecimento da atitude slow BPM dentro da cena Trance: as próprias labels. Merecem reconhecimento pelo pioneirismo e representatividade no cenário open-air a Butter Music, de Brasília, e a Tropical Beats, baseada em São Paulo e Rio de Janeiro. Estas crews nacionais engajadas essencialmente no desenvolvimento dos estilos minimalistas chegam com força, e mostraram no Universo Paralello para o mundo ao que vieram: transformar e impulsionar o movimento dos sons eletrônicos originais, grooves, de extremo bom gosto e qualidade.

A cena trance brasileira está imersa no caos, mas ainda longe de cessar. A bela história da psicodelia contemporânea segue apenas no processo criativo, reciclando-se e transformando-se em todos os sentidos, em busca de novos caminhos para seguir em ascensão, viva e engajada na pura celebração da vida. A emancipação da pista Alternativa, o surgimento de ótimos produtores nacionais e a força dos selos minimalistas são claros reflexos desta mutação. Estamos na plenitude de um movimento eletrônico paralelo, que segue para o alto e avante.

Marina Faé
Marina Faé
Marina Faé
comentários
Paula Simioni
Paula Simioni(29.03.08)
0AprovadoQueima
Ótimo texto, concordo sobre a diversidade de estilos e sons que tem pra gente curtir... mas vale lembrar de Nelson Rodrigues, essa parte sobre "a pista alternativa" do festival Universo Paralello não é unanimidade... tem muita gente por aí que continua frequentando fielmente o trance desde o início, continua indo em festas menores mas não menos psicodélicas até hoje e que achou a pista GOA o universo paralello do festival, um presente da organização aos carentes do trance de qualidade hehehe e não falo só por mim...
jonas
jonas(29.03.08)
0AprovadoQueima
PSYCHADELIC TRANCE = TRANSCEDER
renato paiva
renato paiva(28.03.08)
0AprovadoQueima
viva a mistura, veja o flyer que esta na rua de sp com um liquidificador...eletrofusion!!!
jonas
jonas(28.03.08)
0AprovadoQueima
Aqui em SC em Balneario Camboriu, as festas que rolavam em 2004, 2005 mais ou menos, sempre havia uma pista alternativa.
+ a muitos estilos por aí que seguem a mesma linha até hoje, inovar na minha opinião é criar um "novo estilo"
Com certeza o caminho da música é inovar.


se esta é a tendência... ela é ótima! a diversificação nos une! cena para todas as vertentes.
 
[1] 2 3 4 5
 proximos