O som dos bailes funk ainda assusta muitas pessoas. Talvez a falta de visão dos produtores originais que se limitavam a infinitas e exaustantes repetições de samples tenha criado esse repúdio ou, numa teoria mais simples ainda, puro preconceito ao som do gueto nacional. No entanto, essas duas teorias não se aplicam a um movimento em grande ascensão conhecido como neo-funk, onde uma levada nova de produtores (nacionais e internacionais) conseguem dar sobrevida aos tambores apostando na junção de estilos (considerados) mais nobres.
De Porto Alegre, talvez o lugar menos provável para a criação de funk, surge Fredi "Chernobyl" Endres. Quer dizer, essas idéias de misturar funk com outra coisa, no caso rock, não é nenhuma novidade para o produtor. Em 1995, sua banda Comunidade Nin-Jitsu já o fazia, com o mesmo despreparo e impertinência dos curitibanos do Bonde do Rolê. Fato, que aproximou Chernobyl do então trio assim que ele ouviu as demos do descontraído projeto e acabou gravando, produzindo e mixando as demos e grande parte do álbum de estréia dos brasileiros na gravadora Domino.
Desde então, já tocou ao lado de Justice, Simian Mobile Disco, Beastie Boys, Iggy Pop e muitos outros em grandes festivais ao redor do mundo. No Brasil, compilou as faixas para a coletânea "Neo Funk" lançada pela major Som Livre que tentava explicar o que de nova tem nessa cena - os exemplos foram dados através de músicas do Montage, Impostora e do próprio Bonde.
Nessas últimas semanas, sua última mixtape rodou os maiores blogs internacionais e alcançou até agora mais de onze mil downloads (sem contar streams). Chernobyl prepara-se então para lançar o próximo álbum da Comunidade Nin-Jitsu e se firma como produtor ao lado dos gringos Diplo e Sinden.
Apesar do funk ser uma novidade fora do Brasil, aqui ele já é um movimento bem definido, e limitado se levar em consideração o original que é feito nos morros. A Comunidade, o De Falla foram os pioneiros a misturar o rock com os tambores, mas até isso já virou lugar comum. Qual você acha que será a próxima mistura a revitalizar o estilo? Pra onde o funk pode expandir? Acho que o futuro é isso que eu chamo de Neo Funk, produções que entram na vibe do electro, batem na pista como música eletrônica, fogem das métricas convencionais de rimas do funkarioca e pesam como o rock. Essa maneira de produzir/tocar fez com que o povo japonês e o povo sueco se identificassem muito com o pancadão na minha última tour. O tamborzão é uma batida 100% brasileira, veio do miami-bass que se fundiu com o balanço carioca, as novas misturas ampliarão os horizontes pra galera que produz e toca aqui. Por enquanto, está mais fácil para os gringos aceitarem a mistura do que os brasileiros, porque no Brasil tem gente preconceituosa que ainda não sabe que o pancadão chama-se "baile-funk" no exterior e é tido e respeitado como o uma ramificação do electro criada no terceiro mundo, ou como uma espécie de hip-hop doido com Indie rock.
Qual foi sua inspiração para produzir o álbum de estréia do Bonde do Rolê? Eles tinham semanas de vida, ouvi o MySpace deles (uma demo tosca) e acreditei na despretensão sonora com fusão de estilos. O BDR me lembrou a Comunidade Nin-Jitsu quando ainda não tínhamos contas pra pagar no fim do mês, antes de virarmos "adultos". Me ofereci pra produzir de graça, só pelas passagens aéreas, me mandei pra Curitiba e montei um home-studio no apê dos caras. Pintei na jogada pela minha experiência, eu precisava fazer o som soar profissional, mesmo tendo uma vibe trash.
O que aconteceu é que o mundo inteiro aceitou, entrou na viagem. Todas misturas que o Bonde fez eu já havia feito na vida, isso ajudou muito os caras, eu sou familiarizado com o pancadão e suas ramificações. Diplo entrou na jogada quando tudo já estava pronto, até mixado, só tendo o trabalho de prensar e divulgar pelo selo dele.
Depois disso, o grupo me chamou para produzir o segundo álbum, o primeiro em CD:
With Lasers (Domino Records), no qual sou responsável por oito faixas e toquei todos instrumentos, não usamos samples.
Quais são os pontos altos dessa geração conhecida como neo funk? MIXTAPE: NEO-BAILE FUNK MIX
Intro ("O controle total das galeras")
Yellow Funky Bricks (Arctic Monkeys vs Chernobyl)
RQM - Misspacman (Chernobyl mix)
Le Night Dominator - The Touch (Chernobyl mix)
Ela Tá Na Festa - Turbo Trio & Chernobyl
XR 2 - M.I.A
The Ricota Countdown - DJ Chernobyl vs Europe feat. BDR
Tamborzuda- Sinden & Count Monte Cristal
New Feminism (Chernobyl & Mixhell feat. Canessinha do Pikachu)
Push It - Salt ‘N' Pepa
Erotic Perfect City - George Clinton Vs Princess Superstar
Chuva Nas Calcinha - Cnj vs A-Trak
Office Boy - Bonde do Role (Shir Khan)
A La La - CSS
Je voux te voir - Disco D
Cubicle in chatuba (DJ Missill, Edu K e Mc Duda)
Gatas Gatas Gatas - Edu K (Chernobyl mix)
Mais Metal (AC/DC vs Bonde do Role vs Comunidade nin-jitsu)
Pipoca - Mc Colibri (Diplo remix)
Wicked Game - Giant Drag vs DJ Chernobyl
We Are Your Biba Friends - Justice/Simian vs Deize Tigrona
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O ponto alto é o background roqueiro e eletrônico que gera uma mistura interessante. A nova geração se criou ouvindo Nirvana, Snoop Dogg, etc...isso faz com que suas composições fiquem completamente diferentes (não necessariamente melhores) das dos DJs tradicionais do Rio.
Quais são os produtores nacionais de funk mais criativos? O DJ Batata, que faz as bases da Tati Quebra Barraco, é um cara muito bom, revoluciona com samples inusitados. O Sany Pitbull é um monstro, um fenômeno tocando ao vivo com seu sampler. DJ Duda (ex-Bonde do Tigrão) também produz e toca muito bem, tem muita parada miami-bass no que ele faz.
Baltimore é uma influência sua? E o Miami Bass surgido nos anos 90? Baltimore não me influenciou em nada. Gosto, acho que "é da turma". O miami-bass é uma paixão desde 1986 com 2 Live Crew, nos anos 90 eu ouvia muito as compilações
So So Def Bass All Stars, "My boo" do Ghostown DJs é um hino.
Quais as melhores faixas de gringos de baile funk? "Tamborzuda" do Sinden & Count Monte Cristal e "Je Voux Te Voir" da Yelle num remix do Disco D. Na verdade o Sinden é o gringo que melhor capta a vibe baile-funk, sem dúvida.
Qual a principal diferença de influências para o DJ Chernobyl e o Chernobyl da Comunidade Nin-Jistu? Na verdade as influências são as mesmas, por isso tudo que faço, seja com quem for, consiste em misturas de funk com rock, electro, etc... Ando trabalhando bastante como produtor e isso contribuiu muito para o novo cd da Comunidade (
Atividade na Laje). Outra coisa que acontece é que quase sempre executo guitarras, baixos e sintetizadores nas faixas que produzo.
Na banda tenho que ser mais democrático e tenho que respeitar que existem instrumentos a serem executados. Já como DJ/produtor, não tenho elementos obrigatórios nas criações, mas tenho a obrigação de fazer uma música "dançante". A maior diferença está mesmo no fato de que toco guitarra na Comunidade, daí o "wanna be Jimi Hendrix" que omito nos meus pancadões sai pra fora.
Qual você considera os melhores remixes de funk para músicas completamente inesperadas? No meu último set estão alguns: "Wicked Game" - Giant Drag vs Dj Chernobyl, "We Are Your Biba Friends" - Justice/Simian vs Deize Tigrona, "Yellow Funky Bricks" - Arctic Monekys vs Chernobyl e Vanessinha Pikachu), "Cubicle" - Rinocerose (Chernobyl Mix).
Qual funk você gostaria de ter feito? Pela viceralidade inatingível e criatividade, "Chatuba de Mesquita"; pela produção musical, "Mirante", da Tati QB.
Quais seus produtores de funk favoritos? Sany Pittbull, DJ Edgar, DJ Batata e DJ Duda.
Como você discoteca (Ableton, CD ou outro)? Uso CDJ e, dependendo do clima, dou uns berros numas bases, canto. Já levei até guitarra pra discotecar, o LIVE P.A. sempre é uma diversão mas precisa entrar no momento certo.
http://rraurl.uol.com.br/podcasts/frisson/141/Frisson_Plays_Chernobyl_Brothers