Muito se fala sobre o novo electro francês nos últimos anos. Aqui no
rraurl.com tocamos bastante no assunto, discorremos sobre suas raízes no hip-hop e o desenrolar do gênero pelas vias do novo rap produzido no país. Mas não foi apenas esse tipo de música que a periferia parisiense rendeu à música eletrônica nessa década. Dos guetos da cidade, de onde saíram artistas como Para One e DJ Mehdi, está surgindo uma nova leva de produtores de house que pouco têm a ver com o sentido tradicional que o país imprimiu ao termo durante a década de 90.
Desses novos nomes, o
dOP é um exemplo. Formado pelos produtores e músicos Jonathan Illel, Clement Zemtsov e Damien Vandesande, esse trio se destaca entre os grandes nomes da cena eletrônica francesa por abordar a house através de uma perspectiva multicultural. Mas ao invés de buscar inspiração em regionalismos europeus, eles foram até os confins do continente africano para trazer o diferencial de sua música.
PERCEPÇÕES MÚLTIPLASAtualmente a sigla que dá nome ao projeto significa "Difference of Perception", ou "Diferença de Percepção", mas seus integrantes avisam que esse sentido pode mudar. Amigos desde a infância, os três se conheceram quando tinham apenas cinco anos e cresceram na mesma vizinhança. "Formamos nossa primeira banda quando tínhamos 13 e fazíamos covers nas ruas", contou o trio em entrevista ao
rraurl.com.

O envolvimento com a cultura africana também começou cedo. "O bairro em que crescemos era uma parte da África em Paris. Então foi normal quando finalmente fomos para lá com
alguns amigos. Passamos um ano no lado oeste do continente e fizemos diferentes tipos de música, como hip hop, doso'n goni, Ivory Coast, etc".
Há cerca de um ano e de volta à França, eles começaram a aplicar essa bagagem polifônica à produção de dance music. Foi nessa época que fizeram seu primeiro remix para o conterrâneo Nôze, e desde então não pararam mais.
"Não usamos nenhum sample em nossas faixas. Tocamos e gravamos tudo. E algumas vezes temos convidados como
Sibiri Samake em ‘Foly'". Sibiri é uma mistura de músico e autoridade na sociedade de Mali, e segundo os dOP "representa um lado muito místico da África". Ele empresta seus vocais sobre a batucada frenética do trio, que ao invés de usar bumbos e chimbais remanescentes de Chicago, aposta em tambores ritualísticos para compor seus arranjos.
NOVIDADES NA CASA"Certamente há uma nova cena house na França. Nos sentimos próximos a artistas como
Nôze,
Seuil e
Sety. E musicalmente também somos similares a artistas como o
Krause Duo,
Treplec, Ian Simmons e os
Wighnomy Bros.", diz o trio. Apesar da super-exposição do electro no país, eles fazem questão de salientar que há espaço para todos e pediram para que fosse anexada a essa matéria uma
música cuja letra fala sobre como o mundo é composto por diversas cores, estilos e influências plurais.

Além das faixas já lançadas e disponíveis no MySpace do grupo, eles possuem uma série de discos que devem pipocar pelos selos europeus nos próximos meses. Os dois primeiros da fila são "The Arrmaberokay", pela
1x1 e com participação do pessoal do Krassel e um novo EP pela
Eklo.
Se você achava que house na França é sinônimo eterno de vocoders e bases filtradas, confira o som do dOP e de seus comparsas. Se o passeio musical for demais para ouvidos magoados com a world music, ao menos será um bom motivo para conhecer mais sobre culturas distantes e passear pelo website da National Geographic.
PS.: Os dOP pediram que déssemos espaço para duas mensagens: "Raí, por favor, volte para Paris. E brasileiros, sempre lembrem de Zinedine Zidane.