Cantora londrina surge para o mundo com Kanye West e o single "American Boy"
02.04.08 22:10
É quase uma febre a busca incessante por novas Amy Winehouses. Quem tiver o melhor gogó e o produtor do momento, tem a chance de ocupar os 15 minutos da fama da soul music em 2008, época em que o gênero volta com tudo na música negra como um bom contraponto ao cansaço gangsta e ególatra do hip hop.
Outro contraponto que surge agora é a cantora londrina Estelle e seu single #1 nas atuais paradas britânicas, "American Boy", feito numa deliciosa parceria com Kanye West, ainda o negão do momento. É uma novidade no atual hype de cantoras branquelas brincando de ser Aretha Franklin, caso da galesa Duffy e das inglesas Lily Allen e Adele, como já dito acima, bombadas pós ou junto com Amy.
Fato que Fanta Estelle Swaray, 28 anos, filha de pai senegalês e mão caribenha, se diferencia por ser negra. Do inegável potencial da voz da raça-mãe até o networking sócio-racial na música - seu fresquíssimo segundo álbum, Shine foi produzido por um time de produtores poderosos: will.i.am, Wyclef Jean, Kanye West, John Legend e Supa Dups. Mark Ronson e Cee-Lo também dão as caras no disco.
Estelle e Kanye
SIM, É UMA QUESTÃO RACIAL Esse aspecto que cheira a segregação foi corroborado pela própria cantora, numa recente entrevista polêmica ao jornal inglês The Guardian: "Como negra, eu me sinto assim: ‘vocês estão dizendo PRA MIM que isso é MINHA música? Foda-se! Eles ficam tentando dizer na mídia o que a música soul é e a gente SABE o que soul music é, então parem de tentar nos ferrar! Assim você está tirando um sarro de cada pessoa negra do país!", disse Estelle, ao comentar o sucesso de Adele e Duffy. "Eu não as odeio, mas fico pensando porque diabos não há uma única pessoa negra na mídia cantando soul."
Tudo isso sem medir palavras e já despachando a réplica de que não é certo trazer a questão racial. "Parem com isso, não somos estúpidos", pré-responde. Ironicamente, "American Boy" já chega a sua segunda semana no primeiro lugar de singles substituindo Duffy no ranking.
Tal questão delicada é fundamentada pelo fatídico papel da mídia em, você sabe, rotular exageradamente, mas também representa um desejo geral de - soul music ou não - boas vozes femininas.
Ainda na entrevista, Estelle definiu o que é soul pra ela. "É algo que não se explica. Está nas letras, na melodia, no beat". Negro ou não, o sentimento é o mesmo para Estelles, Amys, Adelles e Duffies nessa pretensa rivalidade que lembra os bons tempos de Aretha Franklin versus Dusty Springfield.
1967: Aretha vs Dusty
AMÉRICA "American Boy" é a síntese dos últimos anos de Estelle, que passou meio batida na sua estréia em 2004, com The 18th Day, época do heya! onipresente do Outkast, já um pré-molde do (ops!) hip soul atual.
A música, carregada de ironia britânica, retrata num dueto/disputa com Kanye West as delícias de viver entre Londres e NYC. ("Can we get away this weekend / Take me to Broadway / Let's go shopping baby then we'll go to a Café / Let's go on the subway / Take me to your hood"). A letra reflete o espírito deslumbrex de Estelle ao chegar aos EUA, terra que ela foi tentar a sorte há quatro anos. Como bem frisa a matéria do Guardian, Estelle não teria desbancado Duffy se tivesse ido para Nova York. Foi lá que ela caiu nas graças do badalado produtor John Legend, que a lançou. De novo, a ironia.
O vídeo e a música "American Boy" são simpáticos, uma mistura pop de Des'ree com raiozinhos Daft Punk. Mas o Daft dos tempos de, claro, Kanye West. Veja o vídeo.
American Boy
SHINE E A SOUL MUSIC QUE É POP "American Boy" é produzida por will.i.am, o mais pop dos mega-produtores negros, e a tal soul que Estelle tanto defende, no fundo é uma grande miscelânea de ritmos negros e imigrantes que miram não o status de diva-mor do gogó afiado, mas sim as paradas do pop.
2007: Estelle vs Adele vs Duffy
Como boa britânica, tome então uma saravaida de influências reggaeiras. Caso do baixo neo-Maxi Priest dançante de "Magnificient", produzida por ele, Mark Ronson, e "Come Over", que lembra o reggae enlatado de Lily "MySpace" Allen.
O hip hop é bem representado nas faixas produzidas pelo ex-Fugees Wyclef Jean, "No Substitute Love" e "So Much Out the Way". Quando estas soam mais sofisticadas lembram Jill Scott, já quando vão para o gueto, são inegáveis cópias de Lauryn Hill.
Um detalhe sobre o hip hop. Não sei se é impressão deste que escreve, mas a black music soa cada vez mais produzida nos moldes da música eletrônica como nós conhecemos, aquela das pistas. Sinais desses tempos de Kanye West e Daft Punk no Grammy?
CUIDADO COM O OVERPLAY Quem leva o troféu soul ninguém sabe, e não é a cor de pele que vai decidir. Estelle convence pela voz macia, pelo estilo e pelo rosto exótico e atraente. Além do bom networking e um single com potencial bombástica, coisa que Duffy e Adele ainda não conseguiram, na real.
Mas é pop, então se você esquecer Shine rolando no iTunes, pode dar um pouco no saco, porque Fanta Estelle tem boa voz, mas precisa aprender com a branquela Amy Winehouse a saber trabalhar mais as nuances e variações vocais.
A estréia de Estelle no estrelato vem com single número 1, show no Glastonbury, turnê com Wyclef Jean e uma nova boa voz para inflar ainda mais o girl power na música atual. Então que dona Fanta seje bem vinda!
Potencial pra explodir, mais do que a Amy, pq esta não toca em Mix e 89 FM da vida, mantendo uma aura alternativa que essa Estelle não tem. O apelo comercial é gritante e vai cair bem para aqueles que dizem "só gosto de BRACK" - geralmente a molecadinha, publico dessas rádios.
http://dubstrong.blogspot.com/2008/04/estelle.html
Discao.