No selo de Mike Paradinas, uma década que parece que foi ontem. Ou amanhã…
Se pensarmos na música eletrônica como uma escola do ensino médio, com cada gênero distribuído por salas e cada selo como uma das inevitáveis panelinhas, a Planet Mu seria aquela turminha de
outsiders. Um grupinho de garotos meio rebeldes da terceira série, não tão popular pela maneira como se vestem e tampouco entre as menininhas, mas respeitados (ou temidos) por sua atitude, ousadia e originalidade.
Claro que outros selos conquistaram um prestígio similar, entre eles a Warp, sendo seu correspondente mais cool e bem-vestido, e a Rephlex, como um paralelo mais nerd e arrojado. Entretanto, é a panelinha de
Mike Paradinas (ex-integrante de ambos os círculos) que construiu sua identidade musical em torno das apostas dos mais variados integrantes.
Completando agora uma década de existência bem distribuída em duzentos releases, o selo atinge um momento novo de maturidade em que reafirma seu sólido compromisso com a vanguarda eletrônica. Miissão que se espraia por uma mixórdia de artistas tão díspares como o psicótico picotador de breaks canadense
Venetian Snares e as elaboradas incursões ácidas de
Libby Floyd (fora as experimentações do próprio Paradinas).
Contudo, nos últimos anos, o selo procurou reafirmar tal compromisso de maneira menos tresloucadamente eclética e procurou nortear sua orientação estetica pelo frescor de novos movimentos, como a florescente frente do
dubstep britânico. Uma manobra bem ousada e que implica uma séria aposta em um gênero que ainda não alcançou a produtividade plena que suas potencialidades encerram, mas cuja energia e crescente popularidade apontam um futuro promissor.
Boxcutter

PLANETA EXCÊNTRICOOriginalmente a Planet Mu foi concebida por Mike como parte de seu contrato com a Virgin em meados dos noventa, um escoadouro de sua singular e esquizofrênica criatividade, cujas responsabilidades comerciais ele assumiu após descobrir que tal música era algo dificilmente vendável por uma major.
Assim, encabeçando seu próprio projeto de divulgação, o já renomado criador do µ-Ziq (pronuncia-se "muzic" pela fonética da letra grega) inicialmente procurou se cercar de talentos, como os colegas de pirações Speedy J, Richard James e Luke Vibert, além de apadrinhar uma nova geração de mentes inquietas. O
roster do selo acabou por se tornar um mostruário de artistas exóticos ao redor do propósito comum de resistência à ditadura das batidas retas e facilmente dançáveis. O que, conseqüentemente, lhe garantiu um lugar privilegiado em meio às voláteis preferências do exigente público agrupado sob o paradoxal manto da IDM (intelligent dance music).
Mas foi a partir de 2004 que a Planet Mu começou a enveredar pelas pedregosas trilhas do gênero que se destacava como o novo motor da musicalidade breakbeat, então a mais nova tendência na música urbana londrina. Apostando em artistas recém-chegados e novatos, o selo passou a concentrar seus esforços primeiramente nas já consolidadas cenas de breakcore, UK garage e grime, investindo em novatos como Shitmat,
dDamage ou Mark One e seu
Virus Syndicate, e até mesmo dando nova evidência a já esquecidas lendas do Hardcore e do Jungle como Bizzy B e Remarc.
Durante os anos subseqüentes, a Mu consolidou-se como a principal divulgadora das obras de
mavericks de todos os gêneros cujo projeto fosse algo próximo de violência subsônica somada a frenéticas edições de beats, mas também oferecendo espaço a tudo aquilo que tangenciasse o tipo de experimentalismo ao qual Paradinas sempre se vinculou. Entretanto, se o selo vem trazendo tanta novidade já há algum tempo, qual o diferencial que o faz destacar-se entre a infinidade de outras iniciativas, até mesmo mais recentes, que se arriscam na mesma medida ou até mais neste musicalmente conturbado fim de década? Creio que a resposta pode ser encontrada naquilo que faz de uma empreitada dessas o que ela realmente é: seu catálogo.
Libby Floyd

ROTAÇÃO E TRANSLAÇÃOEsta guinada à esquerda em direção à efervescente cena da música popular urbana que ganha força na cultura jovem britânica, culminou com a caracterização da Planet Mu como uma das gravadoras mais empenhadas na proliferação do dubstep, algo evidenciado de maneira irrefutável na composição de seus lançamentos nos últimos meses. Desde a primeira compilação que explicitou a aliança entre o selo e a promotora do gênero nas rádios britânicas, a sofisticada
Mary Anne Hobbs, em 2006, até a comemorativa do ducentésimo release, é notório o alinhamento da gravadora.
Expoentes da nova onda como
Boxcutter, Benga,
Distance e
Vex'd, encontraram abrigo seguro sob as asas da Planet Mu, enquanto outros já estabelecidos como
Neil Landstrumm,
Milanese e até mesmo o pioneiro
Meat Beat Manifesto, juntaram-se às joviais fileiras para inaugurar um novo no ciclo em suas carreiras.
Uma tendência claramente denotada em 2007, um ano inigualavelmente profícuo para o selo, por álbuns como
Glyphic, que trouxe novos horizontes de elaboração a um gênero até então marcado por um simplismo sincero, mas deveras ingênuo, que pode ser conferido em "Degenerate", por exemplo; "Restaurant Of Assassins", que mostrou o ponto exato de convergência entre o techno e a vanguarda da quebradeira naquilo que usualmente leva o apelido de Wonky; "Chicago, Detroit, Redruth", em que Luke Vibert leva adiante seu intento de recuperar idéias antigas e amalgamá-las em faixas totalmente coerentes e contemporâneas, fazendo um tributo bem mais propício que qualquer voga de prefixo "new" ou "neo" ao espírito do hardcore; sem mencionar os inúmeros singles e EPs - entre os quais se conta até um dos mais recentes queridinhos do Drum & Bass:
Breakage - que estofaram seu catálogo com diversidade e inovação sem paralelos.
Benga

Felizmente, 2008 guarda ainda mais surpresas e avanços, se guiarmos-nos pela produtividade já insinuada nestes primeiros meses. Barry Lynn se despe do disfarce de Boxcutter e lança uma coleção de batidas esparsas e levadas abstratas em
Balancing Lakes; Libby Floyd inicia uma promissora carreira autônoma sob o pseudônimo The Doubtful Guest, com uma mistura de pH bem baixo em
Acid Sauna; o lituano Few Nolder nos traz um groove tão encardido quanto comportado, mas deliciosamente fraturado em
No Mo; enquanto o veterano Jack Dangers retorna com um misto raro de violência e elegância em
Lonely Soldier que somente duas décadas de experimentos com samples e basslines podem tornar possível e coerente.
Então, qual será o segredo desse ritmo tão acentuado de lançamentos em torno de um eixo estável que lhe propicie uma identidade tão reconhecidamente poderosa? A resposta pode ser resumida a apenas uma palavra: consistência. Afinal de contas, ao passearmos por uma coleção de propostas tão diversificadas constatamos que o elemento que agrupa microcosmos tão diversos como a Planet Um é justamente o fato de terem um cerne tão disperso e instável, de difícil mapeamento por parte da mídia, porém aglutinado por um sólido compromisso com a criatividade.
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