Selo Studio !K7, mesmo das séries DJ-Kicks, cumpre bem a difícil missão de resumir uma das trajetórias mais férteis da música eletrônica
Carl Craig, C2, Paperclip People, Innerzone Orchestra, Psyche, BFC, Shop, 69. Construir uma carreira ao redor de
tantas alcunhas é uma antiga tradição de Detroit. Incialmente fruto de uma necessidade, como explicou Kevin Saunderson ao revelar que os pseudônimos serviam para dar a impressão aos europeus de que a farta produtividade da Motor City nos anos 80 era resultado natural de uma "cena" bem mais ampla de talentos do que somente ele, Derrick, Eddie e Juan. Mas no caso de Carl, essa necessidade é conceitual e atende às demandas de seu impulso criativo. Cada projeto possui uma finalidade, um objetivo estético bem definido e que lhe provê o espaço de manobra necessário para suas piruetas rítimicas e cambalhotas melódicas.
Pertencente à segunda onda de produtores da cidade que revolucionam a música eletrônica por duas décadas, Carl é inequivocamente tido como um dos mais produtivos e inovadores de todos. Ele é um daqueles raros talentos cuja carreira não possui muitos momentos de inflexão ou episódios de baixa produtividade, nem sequer uma virada brusca ou erro de cáculo que tenha alienado seus fiéis admiradores em prol de uma nova audiência, configurando um
continuum sólido. O que não quer dizer, de forma alguma, que ele não se reinvente a cada novo release ou remix.
Dessa forma, resumir uma amostra representativa de tal percurso é tarefa das mais complexas. Felizmente, este
Sessions é mais uma prova da habilidade da Studio !K7 em capturar momentos relevantes e construir algo que faça jus a seu objeto, seja por seu próprio trabalho ou pela variedade de artistas cuja confiança ele conquistou para deixarem fuçar, repicar, analisar, desmontar, reconstruir e recriar suas obras. Pois, sejamos sinceros, não existe produtor algum neste gigantesco universo da eletrônica que tenha conseguido agrupar tantos e tão diversos nomes sob seu portfólio como este alquimista de Detroit.
CARL E A PEDRA FILOSOFALComecemos então pela faceta de remixer, priorizada na primeira sessão. De cara já nós é servida a sublime "Busted Trees" do Directions, que ele recria numa simplicidade grandiosa de Detroit, com strings de alçar a alma às alturas, na trilha da escola de Mad Mike e Derrick May; "Like A Child", dos canadeneses Junior Boys, se insinua com graça e tem sutileza na construção progressiva pela qual ele já se tornou célebre; em "Poor People Must Work" do Rhythm & Sound, projeto dos pioneiros alemães do dub minimalista, ele perverte regras ao montar delays estranhos em desenhos pouco convencionais, dando a impressão de um
skip no vocal e transformando o hipnotismo da original em algo mais acentuado e direto; do começo da carreira de Carl temos "Help Myself" (do maestro deep house Chez Damier), clássico que evidenciava seus traços de produção, como a transição prolongada das repetições, em que o loop sustenta o tema principal para serem cobertos por um dos acordes de pianos mais saborosos da história da house.
Carl em São Paulo (2007)

Na sequência, "Tides" da dupla alemã Beanfield, pioneiros da mistureba jazzística da Compost, provendo à seleção um momento épico em que a economia rítimica e os vocais evidenciados abrem caminho para uma enxurrada harmônica; adiante temos o trabalho de reelaboração e simplificação operado em "Falling Up", do militante conterrâneo Theo Parrish, reconhecida em pistas pelo mundo afora por sua insistência temática e adensamento tonal que resultam em furor onde quer que sejam ouvidos, uma fórmula que ele mesmo digere e repete com sucesso em "Kill 100" do Xpress2; "Revelee" da dupla Delia Gonzales & Gavin Russom (curiosamente não incluso no lançamento digital) é um dos pontos mais altos de sua produção recente, em que ele consegue embalar-nos delicadamente com nada mais que um arpejo ácido e uma base enxuta; "The Melody" do italiano Francesco Tristano, famoso por fazer ousadas versões acústicas de clássicos da eletrônica como "Strings Of Life", é a maior prova de como Carl se supera quando precisa lidar com instrumentos desta natureza e reprocessá-los para criar uma atmosfera completamente nova; e, finalizando, o envolvente remix para "In The Trees" do Faze Action, aqui em versão exclusiva na qual ele trabalha hamonias difíceis entre a aspereza de
stabs sintéticos e a organicidade dos cellos originais, criando uma peça de beleza e força únicas.
CRIAÇÃO COMPULSIVA OU COMPULSÃO CRIATIVA?Mas o Carl autor é a faceta que nos agraciou com muitas das músicas de maior originalidade nos últimos tempos. E a coleção de faixas aqui selecionada procura tornar mais acessíveis um punhado de trabalhos essenciais lançados através dos pseudônimos de maior proeminência. A incansável "Throw" vem em versão um pouco distinta da original, e junto com "Clear And Present" e "Oscillator" nos oferecem uma trinca dos melhores momentos de seu projeto Paperclip People,
bleepy e
tracky como só ele consegue ser.
DESIGNER MUSIC V1
Por mais abrangente que Sessions possa ser, é impossível montar um registro integral dos melhores momentos de um talento imprevisível como o de Carl Craig. Por isso, Designer Music V1 (2000), outra compilação de seus trabalhos como remixer, é tão essencial quanto Sessions para se obter uma noção profunda de sua inventividade como remixers. Obras fundamentais como seus versões para "Out Of The Storm" (Incognito), "Picadillo 7" (Johnny Blas), "Problèmes D'Amour" (Alexander Robotnick), "Moskow Diskow" (Telex) e "Moment of Truth" (Brian Transeau) fazem o complemento necessário a algumas ausências dignas de nota.
Talento singular levado a um nível mais abstrato e experimental com o 69, aqui representado por uma faixa exclusiva, "Pyschobeat", e a memorável "Rushed", em que ele aproveita de maneira sagaz a levada de "Hypnotic Tango" do My Mine. Já com o mais recente projeto Trés Demented, essas habilidades são levadas a outro nível de sofisticação, aqui denotado por propostas como "Demented (Or Just Crazy)" e "Brainfreeze", ambas causadoras de histeria em massa. Em suma, são grooves espertos com graves brutos, irresistíveis em sua simplicidade. De lambuja temos "From Beyond", de seu antigo Psyche, um leve frenesi rítmico sob ambiências sedosas, de uma época em que ela ainda buscava seu próprio caminho à medida que se distanciava do resto.
CARL CRAIG, HIMSELFAgora, quando ele assina com o próprio nome, a coisa ganha uma profundidade ainda maior, como pode ser constatado tanto nos dois álbuns que já lançou até o momento:
More Songs About Food And Revolutionary Art (referência oculta às suas influências na homenagem aos Talking Heads no titulo) e
Landcruising, que ele definia como uma "trilha sonora para se fazer um filme sobre". Como também nas faixas raras ou exclusivas que constam deste
Sessions.
Tanto que até a aparição de uma obra do quilate de "Bug In The Bassbin", de Carl como Innerzone Orchestra, parece algo excessiva, se não fosse tão essencial em seu uso erudito de breaks e elementos jazzísticos na composição daquilo que se tornou um dos pilares de sua reputação como inovador.
Assim, "Sandstorms" é uma aula para qualquer discípulo que ouse invocar o nome do minimalismo para definir seu trabalho, um exemplo singular de concatenação de partículas básicas para atingir um composto tão simples como efetivo; "Angel" se destaca por ser uma definição sucinta da beleza da deep house; já "Futurelovetheme" é um fabuloso momento à parte, com uma progressão lenta e cuidadosa de revezamento entre a base e os belíssimos temas desenhados pelo synth principal, num andamento cuja intensidade reside na própria estruturação da faixa, conformando um épico de inegável sensualidade.
Sessions cumpre bem a missão a que se propõe: um registro bem completo de uma trajetória das mais férteis na música eletrônica. Louvável em sua intenção e impecável em sua execução. Talvez apenas a profusão meio exagerada de versões e repertórios distintos não seja muito justa - seu magnífico remix étnico-sintético de "Angola", da Cesária Évora, só aparece no CD promocional -, até o release oficial tem duas versões em que faixas se revezam, sem contar o formato digital. Seja Carl Craig um artista de muitas faces, artífice de diversos gêneros e artesão de inúmeros métodos, aqui todas estas qualidades estão bem representadas, o que faz o adjetivo indispensável ser um eufemismo para essa coletânea.