Radio Slave mostra o que é capaz de fazer fora das pistas de dança
23.04.08 17:30
A trajetória do produtor Matthew Edwards é digna de uma história de dupla personalidade. Dono do selo Rekids - plataforma para artistas como Toby Tobias e Luke Solomon -, ele é mais conhecido pela sua alcunha Radio Slave, antiga parceria com Serge Santiago. Essa é a faceta bate-estaca de Edwards, que fez sucesso em pistas de dança desde seus primeiros lançamentos em 2006. Mas a coisa não pára por aí.
O projeto Radio Slave é techno no sentido mais tradicional do termo - mecânico, futurista e com uma queda por sonoridades sombrias. Mas apesar de não ser mais novidade na praça - com essa assinatura já saíram coletâneas e discos pela Eskimo e pela Ministry of Sound -, Matthew embarcou em um novo projeto que deve mexer com as atenções nos próximos meses, o Quiet Village.
ESCRAVOS DA QUIETUDE A empreitada é uma parceria com Joel Martin e já dava sinais de vida há algum tempo. Alguns remixes para artistas como Gorillaz e François K haviam emergido anteriormente, além de algumas raridades lançadas pela Whatever We Want em vinis de escala diminuta. A diferença agora é que há um álbum inteiro a caminho. Silent Movie sai oficialmente no dia treze de maio pelo Studio K7! (casa da série DJ-Kicks) e já vazou na rede.
Capa do álbum
Quem acha que vai encontrar nesse debut muita música de pista pode se preparar para quebrar a cara. O álbum reúne doze faixas de música lo-fi, surf psicodélico e retalhos desacelerados extraídos de antigos filmes europeus. Tudo está reunido em uma trama abafada, com cheiro de mofo, que serve de trilha sonora em viagens por praias ensolaradas de passados remotos.
Atração recém-anunciada do festival espanhol Sónar (na edição de Barcelona), o Quiet Village faz seu caminho por blogs e publicações especializadas justamente pela sonoridade única. Matthew e Joel conceberam um projeto que fica no meio do caminho entre os edits de um Pilooski (outro que estará no Sónar em junho e que acaba de passar pelo Brasil) e as seletas Sci-Fi Lo-Fi da gravadora escocesa Soma.
CABE ATÉ TIM MAIA Entre os destaques do álbum estão Free Rider, um delicioso passeio etéreo por samples gravadas em péssima qualidade, e Circus of Horror. Essa última se desenvolve com uma guitarra seca, bateria de rock setentista e backin vocals saídos de alguma série televisiva dos anos 80. Mas no fim não há impressão de que aquilo que se ouve é um boneco de retalhos temporais, mas um conjunto bem amarrado, melodioso e de arranjos complexos.
A abertura do álbum, com "Victoria's Secret", não poderia ser mais nostálgica. A música começa com violinos, gaivotas cantando e barulho do mar. Com muita força de abstração, dá até para imaginar como encaixaria ali o vozeirão de Tim Maia cantando "Azul da Cor do Mar".
Quiet Village não é o único projeto paralelo de Matthew Edwards, mas prova como o ecletismo pode ser saudável para uma carreira. Em meio a samples devoradas por traças e muita bagagem resgatada em abismos mnemônicos, Edwards e Joel mostram que para se manter relevante e atrativo não basta apelar para futurologia, mas simplesmente continuar original.