Duo de Bristol dá novo sentido ao noise injetando melodia e batuques tribais à fórmula
24.04.08 17:10
Um dos fundamentos que professores de música costumam ensinar a criancinhas no pré-primário é a diferença entre ruído e melodia. Tia Ester dizia que uma coisa era ouvir o canto de pássaros, que agrada o ouvido e desce macio. Outra, totalmente oposta, era o barulho provocado por uma enceradeira, perturbador de qualquer paz de espírito. Mas a tia ensinava tudo isso sem nunca ter ouvido o som do Fuck Buttons, dupla vinda de Bristol que lançou no mês passado seu álbum de estréia, Street Horrrsing.
O disco saiu pela ATP - gravadora cujo festival homônimo tem a curadoria do Portishead - e sucedeu apenas um EP, do ano passado. Apesar da escassez de lançamentos, o Fuck Buttons está na ativa desde 2004, quando os colegas Andrew Hung e Benjamin John Power se reuniram para produzir um misto de eletrônica progressiva com percussão tribal e muito ruído.
PSICODELIA INDUSTRIAL Rotular o duo simplesmente como noise seria um erro. Apesar de se aproximar de expoentes do gênero, como o japonês Merzbow, pelo processo de produção essencialmente analógico (eles usam teclados sintetizadores antigos e equipamento de segunda mão), há profundas diferenças de sonoridade. Para começar, as músicas de Street Horrrsing se distorcem progressivamente, e dificilmente mergulham no caos sonoro sem aviso. Há também o elemento percussivo das faixas, que torna a experiência mais dançante e amigável aos ouvidos.
Mas o que faz do Fuck Buttons um projeto singular é o modo com que Andrew e John constroem seus híbridos de melodia e barulho. Apesar de não ser raro ouvir os arranjos se tornarem massas ininteligíveis de ruído (como nos primeiros minutos de "Okay, Let's Talk About Magic"), as rajadas de sintetizador acabam por fazer algum sentido harmônico. O resultado, somado a gritos metalizados e vozes cheias de eco, levam o ouvinte a um transe de psicodelia industrial.
O maior hit da dupla, "Bright Tomorrow", é um bom ponto de partida para entender do que se trata o som do Fuck Buttons. São quase oito minutos de música em que elementos vão sendo adicionados ao poucos até que, lá pela metade da curva ascendente, finalmente irrompe uma tempestade de freqüências desajustadas. Mas nem aí a melodia se perde totalmente, e mesmo por baixo de toda a violência sônica é possível escutar o sintetizador infantil que compõe a principal frase melódica da faixa.
Vídeo de "Bright Tomorrow".
Outros destaques de Street Horrrsing são "Ribs Out", uma marcha de batidas aborígines incrementada por vozes sinistras, e a faixa de abertura, "Sweet Love for Planet Earth" - outra demonstração da capacidade que a dupla tem em mesclar timbres macios e agradáveis com verdadeiros raladores de tímpano.
Como são todas contínuas, as músicas do primeiro álbum do Fuck Buttons funcionam melhor como um conjunto. Em outras palavras, esse é um daqueles discos que para ser bem aproveitado é preciso parar, escutar e embarcar na viagem. E de preferência, fazer tudo isso em um lugar bem isolado para não incomodar nenhum vizinho nem ser taxado de estranho.