Abertura do festival teve shows de Midnight Juggernauts, Cut/Copy e Vampire Weekend
Começou ontem a maratona de shows do Coachella Valley Music and Arts Festival, mais conhecido como Coachella, ou Coacha para os íntimos. Do meio-dia à meia-noite foram 33 atrações em dois palcos (um principal e outro
outdoor) e três tendas (
Gobi - a menor;
Mojave - média;
Sahara - imensa, para a eletrônica), sob um sol insalubre de tão escaldante que bateu fácil nos 40ºC - mais a sensação térmica do tempo seco do deserto Californiano.
A maratona teve início cedo para nós, acampados do outro lado da rua do Empire Polo Fields, gigantesco campo de pólo que abriga o festival e toda sua estrutura. Quem abriu as atividades foi o francês
Mehdi e seu liquidificador que teve as classudas"Everybody Dance" (Chic), "You Belong" (Hercules and Love Affair) e "French Kiss" (Lil Louis) misturadas, assim como maximal nervoso, bmore gordo e o techno-padrão de uma tenda de música eletrônica de festival.
O começo

A miscelânea ultra-elástica do crew Ed Banger, presente em peso por aqui esse ano, seguiu com o chefão
Busy P. e o misterioso
SebastiAn, que animou o pós-almoço de uma vasta juventude new raver, ornamentada da cabeça aos pés de roupas coloridas e camisetas do So Me, ouviram o figura todo de preto e cigarro permanente abrir uma porteira de hits que foi da óbvia "D.A.N.C.E." até "Cream", sucesso que é garantia de bombação do Federicho Frachi. Adicionando ao caldeirão remixes de Klaxons e Uffie num baixo arregaçante de tinindo, fazendo a turminha do Justice garantir seu bom-momento com fritação máxima logo cedo, mas infelizmente sem surpreender na previsível sonoridade da sua patota.
Lá no
Outdoor Theatre rolou rockão californiano com o
Les Savy Fav e seu vocalista ruivo bem porcão, espirrando suor e gritaria pelo gramado.
Jens Lekman mostrou outro mundo musical com sua banda de educadas garotas suecas e folk-pop-rock doce, cheio de estórias, violinos e trompetinhos alegres, a sonoridade que ilustra bem as delícias de passear por Estocolmo. Jens e sua trupe aloirada exalam carisma pela despretensão aliada à competência sonora, quase um nerdismo que Beavis & Butt-Head detonariam se vissem o clipe na MTV.
Com um pouco mais de tempero, os australianos do
Architecture in Helsinki saciaram junto com Jens a fome por indierock orquestrado - "Debbie" foi hit certo, conhecido por alguns, apelo imediato para quem ali estava e não conhecia. Foi uma boa abertura para o moderno safári rock do
Vampire Weekend, que animou na mesma tenda mas sem criar a catarse que o hype previa, o público era bem disputado até com o próprio
Do Lab, uma abençoada área de decoração hippie que jorrava água em sua pista gramada. Ouvimos dubstep, house e d'n'b por ali, com DJs locais e relativas estrelas como Adam Freeland com convidados.
OS BONS CANGURUSDeu para entender bem a potência musical australiana com a trupe kangooroo que invadiu o primeiro dia do Coachella. O
Midnight Juggernauts foi atração logo cedo da entupida tenda clubber Sahara, mostrando uma tímida atitude rocker para um saraivada de guitarras duelando com seus synths 80s característicos. Se a pose punk-skinny - tudo preto, nome da banda em tipologia Iron Maiden na batera - impunha algum respeito até, a fanfarra com o público se deu mesmo no synthzão dos hits "45 and Rising" e "Shadows", ponto-alto do Sahara com sua atmosfera espacial.
Dan Whitford do Cut Copy
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Lá no Gobi, a tendinha menor e com fundo aberto, o
Cut Copy, talvez os australianos mais esperados do dia para muitos (inclusive a gente), lotaram o espaço com seu synth-pop correto e dançante sem exageros, só na pontinha do pé. Foi o típico show
ok, que até passa batido pela expectativa gerada após um bom disco como o
In Ghost Colours.
Todos os hits estavam lá, "Lights & Music", "So Haunted", "Nobody Lost, Nobody Found" e as já clássicas "Time Stand Still", "Future" e "Saturdays", do disco de estréia.
Mesmo com a banda corretíssima - impressionante o apuro vocal de Dan Whitford, e os backing-vocals e efeitos de synth e pedais cronometradíssimos, mas fica a prova de como Tim Goldsworthy (DFA - atual guru da banda), é um dos grandes Midas do pop atual. Desde a amostra juvenil do Van She no Nokia do ano passado, é claro como essas novas bandas de rock dançante da Austrália tem apelo e competência, mas ainda é necessário um amadurecimento ao vivo. O Cut Copy parecia quase burocrático de tão acanhado, e o público ali estava babando para explodir em catarse. Mas isso não depende só da galera na pista, fato.
A CHATA, O GORDO NERD E AS CRIANÇAS NEGRASA vizinhança de três tendas do fundo do festival é o espaço mais agradável, confortável e prático. Deu pra ver o neo-The Cure de imenso poder
cool dos jovens
Black Kids, tomar uma cerveja e seguir para a abarrotada bagunça punk-IDM do
Dan Deacon. O nerdão de Baltimore fez brincadeiras de linguagem corporal com a multidão que se empurrava para ficar ao seu lado e soltou sua barulheira meio Sigue Sigue Sputnik após pedir para o povo repetir algumas vezes "
Matrix 3 is actually a good movie" (Matrix 3 na verdade é um bom filme). Coisas do humor americano.
Alison, a chata.

E a Dona
Goldfrapp, hein? Que papelão. Foi o único show que atrasou na rígida agenda do Coachella. E depois de 20 minutos de espera, ela entrou toda blasé em seda rosa, dando chiliques com o técnico de som, "fuck" pra lá e dedo do meio pra lá, seu retorno parecia baixo. Mas a voz estava afinadíssima, Alison realmente solta pelas cordas vocais aquele agudo dos discos, e em tempos do sonífero folk de
Seventh Tree. Pelo menos ela fez o bom favor de tocar faixas de
Supernature e até "Utopia", do saudoso álbum de estréia
Felt Mountain. Parecendo acanhada com o tamanho do festival, comentou o cheiro de "ganja" no ar e ainda, enquanto dava piti, levou uma bolada meio que sem graça do povo. Bem-feito Alison, sua chata.
BLACK IS BEAUTIFUL E O RAP CLUBBERI believe in Santogold!

A música que vai na cabeça daqui pra amanhã e o show preferido do dia: Santi White, a
Santogold, a plenos pulmões em "Creator". É delicioso ver um artista a um passo de despontar, como acontece com White no momento - disco recém-lançado (homônimo, já vazado na rede), show concorridíssimo no Coachella, produção de primeira, das dançarinas ao DJ que toca as bases para ela soltar a voz. E que voz! Metálica, grave, aguda, suave, histérica. "I believe in Santogold"!
Sharon Jones não pode ficar sem menção. A soul sister é tão elétrica quanto James Brown em seus melhores momentos e tem a voz de uma Tina Turner com o peso de um Aretha Franklin. O show poderia estar deslocado entre o Datarock e o Black Lips, mas os Dap Kings, com seu naipe de metais afiadérrimo e a companhia de uma platéia completamente interessada, ganhou a noite. Jones canta a plenos pulmões, dança, provoca, chama gente da platéia, em uma amostra rápida do que é um show de soul music - cinqüenta minutos não são suficientes e a diva com sua a banda saiu do palco ovacionada.
O dia foi brilhante para a música negra no festival. A dupla britânica
Dan Le Sac vs Scroobius Pip militou um hip hop conceitual, ironizando o rap "
american rubish" em bases gordas e desaceleradas de um break acinturadíssimo. O MC Scroobius parece um árabe maluco, cantarolando discursos um pouco à la Eminem. O
Diplo levou abaixo um Sahara morno com uma tal
Sandra Collins, espécie de Mary Zander local e o
Spank Rock não veio, estava doente, mas suas gostosonas backing vocals e seus DJs fizeram as vezes num set
nasty, como eles diriam, de um hip hop que parece saído de um híbrido bmore/house/timbaland. As garotas tinham ventilador no rosto e berraram dancinhas e palavrões a mil, verdadeiras
pussycats.
AFX: JUST A BANDAphex Twin

Richard Aphex Twin James apareceu. Tocou sentado, de cabelo curto e cara fechada, imerso em caixas imensas de retornos. Tocou um house meio estranho, na linha Robert Owens, e em seguida soltou sua saraivada pós-db de breaks construídos em matemáticas milhares de camadas e espacialidades. Um som que requer concentração e subjetividade máxima para compreender, mas que foi devidamente aclamado por um público insano, principalmente ali na fila do gargarejo.
Jack Johnson, headliner de hoje do Main Stage, ninguém sabe, ninguém viu, tanto faz. (Pô,
Racounters também, foi mal e
The Verve ouvimos do camping a passagem de som de "Bitter Sweet Symphony", já vale). Então, quem fechou foi o velho de guerra
Fatboy Slim, num Sahara lotado.
Foi um inesquecível encerramento do Mr. Norman Cook: as projeções eram incríveis, ele estava discreto e inspirado para tocar, e não para macaquear como faz em carnavais brasileiros. De "Higher State of Consciousness" (Josh Wink) à sua adorada house music de vocais pop, Fatboy deu um show nesse clima mesmo, sem medo de ser feliz e repicotando no meio hits como "Right Here, Right Now" e "Fucking in Heaven". No final, catarse com o cabido hino "Thou Shalt Always Kill", do Dan Le Sac e Scroobius da mesma tarde, dizendo "Radiohead - just a band / Pixies - just a band / The Smiths - just a band / Arctic Monkeys - just a band / Thou shalt not make some noise for Detroit / Thou shalt think for yourselves."
Fatboy

O
statement foi perfeito, principalmente vindo de um DJ que sabe que a música - pop, baba, comercial, hype - no fundo é só música. E que os valores deveriam se resumir à própria música, à liberdade de pensar em si e tocar o que quiser. Resumiu bem o espírito do dia no Coachella, do pop-hype morno do Cut Copy aos negões do rap
freestlye. Fatboy encerrou lá pelas 00h30 com "Love is In The Air". Lindo.