Justice derrete cérebros. Junto com Simian e Chromeo, boas opções ao titio Roger Waters
O último dia do Coachella quebrou tudo. Se faltou algo de intenso ou maluco em qualquer momento dos dois primeitos dias - a gente achou o púlbico americano calminho demais - tudo foi compensado no domingo, especialmente nos últimos shows da tenda eletrônica Sahara.
ATRAÇÃO: PLANETA ÁGUA
Chegamos super cedo, de novo, procurando os ventiladores de água do Do Lab para refrescar a cabeça - o espaço, cheio de luzes coloridas de noite, durante o dia ganha DJ sets de todos os estilos e muita gente descansando debaixo de torneiras ventiladas, perfeitas para hidratar, dançar ou descansar, sempre entre paredes que imitam pétalas de flores gigantes.
Foi por volta das 14h que o ator/diretor
Sean Penn subiu à tenda Gobi para recrutar cruzados para uma viagem até Nova Orleans. Comunicando locais de inscricão para ônibus que sairiam na manhã de segunda, Penn, crítico mordaz do governo Bush, falou durante cerca de 30 minutos sobre a guerra no Iraque e a responsabilidade do povo norte-americano frente a atual situação do país - mesmo em festa, ninguém parece esquecer que a poderosa América se encontra sob grave recessão. Irônico, perguntou ao público quem havia visto a apresentação do Prince na noite anterior, quem havia gostado, para na sequência lembrar a todos que "durante aquela maravilhosa celebração havia civis morrendo e populações assassinadas" em outras partes do mundo. "Não deveríamos todos poder sentir as boas sensações de um show de rock?" Então chamou todos a embarcar em uma viagem de ônibus até Nova Orleans, parando em cidades diversas, acompanhando artistas e ativistas, para mostrar que, apesar de festa, existe gente na América do Norte que se importa com os outros.
Discurso também no dub poetry de
Linton Kwesi Johnson, que mais do que espaçamentos e reverberações da música jamaicana, refletiu sobre relações entre raça e linguagem. "Eu fico perturbado com o que chamam de 'limpeza étnica', porque isso supõe uma 'poluição étnica', uma 'pureza de raça'. O mau uso da linguagem é algo que levou a humanidade ao holocausto", disse, acusando uma desumanização da linguagem corrente nos dias de hoje.
O planeta também foi lembrado durante o show do
Perry Farrel agitador do Lollapalooza e vocalista do Jane's Addiction. O telão mergulhava por diferentes pontos de um gigantesco Google Map: pirâmides, oceanos, palácios , cidades e desertos. O lead singer do extinto Jane's Adciton parece que é um veterano do Coachella e se sente fácil parte da galera. E é assim que ele estava no palco, cantando a plenos pulmões acompanhado de um guitarrista, uma backing vocal e uma bateria eletrônica que o próprio usava para soltar as bases. "Been Caught Stealing", provavelmente a música mais famosa do Jane's no Brasil, ganhou versão super eletrônica, desacelerada e diferente.
I'm From Barcelona

SUECOS, CIGANOS E PARISMomento gracinha foi o show da big band indie
I'm from Barcelona, suecos que chegaram ao som de ABBA e cheio de balões e confetes coloridos para uma considerável audiência no Mojave. Cantarolaram em clima de tarantella nórdica hits como "Treehouse" e "We're From Barcelona" e no final desceram ao palco para abraçar, dançar e começar um trenzinho que foi parar fora da tenda.
MAIS COUNTRY QUE SOUL
A sub-Amy Winehouse Duffy fez um show fofo, nada mais. A voz dela realmente impressiona, mas, descontando a excelente Mercy" (executada com maestria tanto pela jovem cantora quanto por sua banda de apoio) a falta de presença de palco, o sotaque caipirão americano e a seqüência de baladinhas amenas no calor do deserto convenceram apenas os fãs mais afoitos e o público, digamos, mais velho.
Outra boa bagunça rolou com os insanos nova-yorquinos do
Gogol Bordelo. Grata mistura de punk rock com música, hmm, cigana, foi perfeito para a quantidade de freaks que enchia o gramado do Coachella Stage no fim da tarde - danças circulares, vinho tinto morno bebido no gargalo, etnias diversas e transes coletivos, em músicas poderosas. O vocalista Eugene Hutz dança, pula, grita e ocupa o palco todo como um Iggy Pop dos Balcãs. Fecharam o palco com "Baro Foro", música que tem normalmente cerca de nove minutos, mas no show ganhou mais de vinte. Dizem que em breve no Brasil...
MELÓDICOS E PROGRESSIVOSO dia foi da tendona Sahara desde cedo, quando
Dimitri from Paris trouxe um pouco de garbo e elegância para o Coacha: cocktail disco, house music calma, mas sem cair para o deep, tendo espaço para um curioso exagero hip hop e pérolas do pop antigo como "Ain't No Mountain High Enough", bem mixada no misterioso mixer-caixote de Dimitri - mas que durou demais e fez com que a pista perdesse a mão.
Na seqüência impressionou a expectativa e ânsia do público pelo jovem canadense
Deadmau5, que chegou vestido com uma bizarra máscara de rato vermelho e foi mais de electro-house animado do que progressivão linear, inserindo um hit ou outro no meio, como Klaxons e Daft Punk (esses talvez os mais celebrados por DJs no evento todo). É o tipo de atração perfeita para tendas de festivais, um Hernan Cattaneo com mais tutano.
Monsieur Dimitri from Paris

Ainda mais celebrado foi o live do
Booka Shade, que choveu seus hits como eles gostam: público desvairado, ali na mão. "Body Language" e "In White Rooms", que encerrou lindamente a tenda. Não deu para ouvir muito do disco novo, já que tivemos que nos dividir entre Booka, Gogol e os britânicos do
Does It Offend You, Yeah? - esses fizeram a terceira parte da "Síndrome do iPod no Coachella 2008": a nova banda que está no iPod não necessariamente vai fazer um bom show (convidados anteriores: MGMT e Cut Copy). A atitude rocker garantiu o arroz-com-feijão da audiência lotando, mas os vocalistas se desencontravam e exageraram na ironia. "Yes, pulem como se fossemos rockstars!" gritou um dele, mais de uma vez.
SIA
Ah, que delícia as possibilidades de um festival. É igual criança solta na doceria e os rápidos momentos são o que fazem tudo ser gostoso. No show da cantora Sia, australiana, antiga colaboradora de Zero 7 e Basement Jaxx que é cantora solo desde 2000. No fim do ano passado ela lançou a pegajosamente deliciosa canção "Buttons" e explodiu um pouco. Aí no Coachella a gente passa em frente ao palco bem na hora que ela ia cantar essa música. Vemos, tiramos fotos e vamos embora, porque em seguida ela começou uma balada junto com uma criança... Já tinha dado.
Um parênteses nessa história do DIOYY, porque estavámos sedentos por bom rock inglês no festival: o show do
Love and Rockets, da turma de Daniel Ash (Bauhaus), que antes do show de Roger Waters levou ao palco externo menor uma boa amostra do pós-punk cru, um meio termo mais viajandão e de guitarras distorcidíssimas entre Joy Division e Gang of Four.
LADO BEM LUMINOSO DA LUAO grande palco é certamente o melhor do festival - você pode estar tanto na área VIP (atenção patrocinadores e produtores de festivais no Brasil: localizada AO LADO do palco, deixando o público de verdade chegar o mais perto possível dos artistas) quanto das áreas de alimentação de bebidas. E foi lá que rolou o show do
Roger Waters. Muito anos 2000 que estavámos, não ficamos para conferir
in loco a apresentação do titio psicodélico e, heresia?, vazamos para o show do Simian Mobile Disco que começava no Sahara no mesmo momento. Pelas fotos de nossos novos amigos, pelos comentários do pessoal no fórum do Coachella e pelos artigos nos jornais locais na manhã de segunda, Roger Waters, som e luz, foi um dos grandes nomes do Coachella 2008.
Sentimos o sistema de som super surround, com direito a risadas sinistras vindo detrás do seu pescoço, pirâmide e prisma em 3D, set de backing vocals poderosos e, o mais importante, um público gigantesco honestamente afoito para a apresentação. No começo do show, ainda mostrando cenas de whisky e cigarro enquanto tocava a versão de "My Funny Valentine" do Stan Getz para uma platéia de, vamos lá, algo em torno de 30 mil pessoas. No final, com a lua pela metade como um grande balão amarelo no céu e o seu "dark side" mostrado em telão na imensidão do quente deserto californiano, o "efeito catarse" foi certo. A ponto a ponto de ser considerado "o melhor show de todas as edições do festival". Duvidar, quem há de? Concordar é outra história...
CLUB RAP!!!
A-Trak e Kid Sister legitimaram o club rapcomo destaque do Coachella. O DJ irmão de Dave 1 (Chromeo) e parceiro de Kanye West soltava de maximais a hits dos anos 90 com bmores e techno. Cuts, scratches e interações amigáveis com o público abriram as vezes para Kid Sister e seu vozeirão rouco embalar fanfarras rappers com cara de live PA, dando um novo vigor para o combalido e bombado rap americano.
QUEM FOI O MELHOR?Existem também discordâncias sobre quem fez um melhor live: Simian Mobile Disco ou Justice? Esse foi o Coachella da Ed Banger e é impressionante ver como a estética maximal é popular por essas bandas. Mas você pode imaginar como é a apresentação de duos tão marcados pelo exagero como Simian Mobile Disco, Chromeo e Justice, no país que é campeão no quesito "maior e melhor" em um festival de proporções épicas como o Coachella? O comportado público californiano finalmente perdeu a compostura nos três shows, berrando os pulmões para fora, socando o ar e pulando o mais alto possível durante algumas horas seguidas. Fosse no Brasil, em apresentação dessas proporções e com a dramaticidade que o nosso público coloca pra fora, acho que teria gente tendo ataque cardíaco.
O
Simian tascou hits como "It's the Beat" e "Hustler" de um jeito meio electro, meio techno, com o beat 4x4 que identifica a sonoridade única da dupla James e James. Eles mexiam nas faixas e no ânimo do público, completamente rockstars numa aparelheagem vertical que os colocavam frente a frente, como num duelo. Foi bem diferente da atitude acessível que mostraram em DJ set no Skol Beats 2007.
Chro-me-ô, ôôÔ!

Respiro rápido para começar o
Chromeo, bem mais calmo, mas igualmente animado. A dupla canadense abusa do vocoder, das piadinhas com o West Coast, falam com o público e mandam ver o electrofunk com "Tenderoni", "Call me Up" (ponto alto!) e "Bonafide Loving". Temos certeza que vão fazer bonito no Motomix logo mais, ainda mais com o corajoso encerramento mela-cueca com a romântica "100%" - Brian Ferry deveria processar os caras por plágio! Mas Dave 1, o vocalista legitima a influência explícita na atitude, no estilão (o cara deve ter uns 2 metros) e na voz rock, sexy e sensual como a canastrice masculina do Chromeo exige.
DAS CATACUMBAS DO INFERNO...Mas era hora de abrir alas para - orgão dramático entrando-
Justice. A Goldenvoice, organizadora do Coachella, deu um jeito de deixar o duo francês para o final, de forma que, somado ao o show do Roger Waters, as pessoas pudessem ter o melhor de dois mundos - a experiência de rock psicodélico definitiva e o apocalipse eletrônica dos anos 00.
A impressão, bem no meio da tenda, era de que umas 20 mil pessoas entraram numa mesma inimaginável apoteose de som e luz, uma onda de energia que fazia punhos serem erguidos como num show de metal pós-moderno para berrar "KILL, KILL, KILL, KILL". A música, após tanta falação pode parecer manjada, mas no palco-jazigo de amplificadores e cruz imponente, soava como o alarme do fim dos tempos, a justiça divina, pesada a ponto de despertar os instintos mais primitivos da coletividade. Tanto é que ao final de "Stress", a mais pesada do disco deles, um dos Justices agitou uma toalha branca e abaixou o volume horrivelmente alto e o estrobo epilético, pedindo calma e soltando não lembramos qual das "Phantom", das mais "calmas" do
Cross.
Claro, cruzes foram levantadas por ali, dedos e braços foram cruzados, mas sem empolgação exagerada. A experiência sonora e visual lultra luminosa, no caso) foi mais intensa do que a celebração por si só. "D.A.N.C.E" veio desacelerada, quase deformada, "DVNO" e "New Jack" serviram para mostrar entre tanto peso uma síntese house da coisa toda (Daft Punk?) e "The Party" nos tirou do buraco negro.
"DAFT PUNK WITH BALLS"Apesar do clima rockão, o som é puramente eletrônico, feito por quem ouviu muito Daft Punk na vida). "Motorcycle techno" como alguém bem locão contou em inglês na pista, mas que em alguns momentos pode ser o show do Vitalic sem freios e ladeira abaixo. Fala-se tanto em rock no Justice, da atitude extremista, do jeitão metaleiro (hello, Mixhell?), mas isso é tudo uma questão de estética. Nos momentos mais intensos tentar inserir uma imagética
horror movie soaria ofensa ao sintetismo do techno. Mas no Justice não, o show tem a intensidade de um culto satânico. Se a coisa um dia cresce e fica grande, um lunático saca uma arma e abre um tiroteio no meio do palco.

E o sublime da coisa toda foi o final cataclismático, Gaspard Augé e Xavier de Rosnay parados por minutos, robôs humanos nada impessoais como seus padrastos do Daft Punk, mais viscerais e, que seja, menos revolucionários, mas donos de uma apresentação musical que faz com que o
statement "just a band" sentido no Coachella não seja mais aplicável.
Se eles ficarão para a posteridade não sabemos, mas o show foi o mais intenso e talvez o único que tenha superado as nossas exageradas expectativas de um Coachella. Agora anseamos, com nossos instintos mais primitivos, que curadorias acordem e tragam eles ainda em 2008 para o Brasil.
Foi um fim de semana e tanto.
Foto da home e colaborações in loco: DaniJoe e Brian Keringer