Cinco perguntas: Marcha da Maconha
Marcha em Recife: apenas 100 pessoas?
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Cinco perguntas: Marcha da Maconha
Falamos com Raoni Teixeira, do evento pró-Cannabis mais falado dos últimos anos
06.05.08 18:25
Nesse último fim de semana quem tentou expressar a sua simpatia pela maconha e a problemática da legalização da santa Cannabis viveu um conturbado e histórico momento: a Marcha da Maconha 2008, que aconteceria em cerca de quinze capitais pelo país, foi vetada pelas justiças estaduais em nove capitais (Cuiabá, Curitiba, Brasília, Belo Horizonte, Fortaleza, João Pessoa, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo).

Foi um duro baque na organização do evento, principalmente com as proibições em SP e no Rio, cidade que é a sede do movimento e de onde surgiram as primeiras manifestações pró-maconha em 2002, inspiradas pelo movimento americano Cures Not War. Quem trouxe a idéia foi uma portuguesa, que de maneira caseira criou pôsteres e cartazes para a caminhada que saiu da praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema. Não é muito diferente do esquema de hoje, apenas maior. Em 2002 foram cerca de 200 pessoas, ano passado o número já passava de 500 militantes e esse ano a marcha de Recife, uma das que aconteceram junto com Vitória e Porto Alegre, reuniu 3000 pessoas segundo Raoni Teixeira, do staff da Marcha. Mas as autoridades pernambucanas tentaram minimizar o movimento dizendo que apenas cem pessoas participaram do movimento.

Falamos com Raoni sobre as origens da parada e essa conturbada edição 2008, além de um papo sobre a erva em geral.

Qual o maior objetivo da Marcha da Maconha?

A regulamentação da maconha. Não só legalizar, mas regulamentar outra política que não seja de repressão, que se crie uma cultura de tolerância em que a maconha possa ser comercializada para acabar com a venda pelos traficantes. É legalizar nos moldes que cigarros, álcool e remédios com ou sem receita são vendidos normalmente pelo país.

Todo mundo sabe que essa política de repressão ao tráfico existente hoje reflete sempre nos pobres, nas camadas mais humildes da sociedade. E a ligação direta da maconha com isso vem do tempo da escravidão, pois ela só foi proibida após a libertação dos escravos. Era uma coisa dos africanos, eles que fumavam a maconha por aqui e tentou-se na época acabar com esse costume.

"As primeiras caravelas que chegaram ao Brasil eram compostas de fibra de cânhamo, a constituição dos Estados Unidos foi escrita em papel de cânhamo"
Temos que lembrar também da importância econômica e de saúde da maconha. Não é só fumar um baseado, da fibra do cânhamo se extrai papel, tecido, cosméticos, medicamentos e até reflorestamento. As primeiras caravelas que chegaram ao Brasil eram compostas de fibra de cânhamo, a constituição dos Estados Unidos foi escrita em papel de cânhamo, enfim, só temos a ganhar com a legalização da erva.

Um grupo de amigos do Canadá que esteve aqui recentemente falou que o Brasil está muito para trás. Que estamos vivendo hoje o que o Canadá passou lá em 1992. Lá a droga não é 100% legalizada, mas há tolerância e ela é usada para fins medicinais.

Quais são os principais países ou sociedades que seriam bons moldes para uma nova visão sobre a maconha aqui no Brasil?

Olha, claro que a Holanda na Europa, as aqui perto mesmo a Argentina e o Chile são países que estão muito a frente com a cultura da Cannabis. Lá eles têm revistas periódicas, uma cultura e informação muito maiores. O cultivo caseiro é muito maior e o usuário não vive o que se passa aqui no Brasil - ter que se arriscar numa boca de fumo e ser esculachado pelo bandido e pela polícia. Como eu já disse, temos que criar não só políticas, mas também uma cultura de tolerância na sociedade. Nossa luta é para isso, tolerância e uso da maconha em vários sentidos.

Raoni detido por cinco horas por apologia ao crime (sem camisa, dir)
Raoni detido por cinco horas por apologia ao crime (sem camisa, dir)
O que aconteceu esse ano que levou a todas essas proibições? Um aumento proposital na divulgação, apoios de nomes conhecidos da sociedade...?

A gente vem trabalhando desde o fim do ano passado nessas marchas. Fizemos camisetas, levantamos fundos com isso para panfletos e divulgação. Foram mais de 230 mil panfletos distribuídos por todo o país, fora a divulgação de imprensa centrada no Rio e em São Paulo.
Tivemos alguns apoios, (o deputado estadual carioca) Carlos Minc estaria presente no Rio, a Soninha apoiou, o Tito Santa Cruz (do Detonautas) ia escrever um artigo no Globo, e o B-Negão do Planet Hemp ia tocar na marcha do Rio também. A gente busca apoio nas classes artística e jornalística, que usam e/ou têm uma visão mais aberta do tema.

Mas o principal medo das autoridades era que baseados fossem acesos nas passeatas, ou eles simplesmente não entenderam do que se tratava o movimento?

Na verdade há um grupo da Igreja Católica reacionário, com aquela visão distorcida da desculpa de que a maconha é a porta de entrada para outras drogas. O que é uma bobagem, o cigarro e a bebida que se vendem e restaurantes são portas de entrada para o mundo das drogas.

É ignorância e uma visão reta, tapada. Foi uma deputada do Rio ligada a esse grupo que começou a organizar isso no Rio, dizendo que as drogas destroem a família, etc. As pessoas só assustam e não informam, participamos do (programa) Debate MTV essa semana e um major da polícia falou uns absurdos do tipo "a Marcha da Maconha quer ajudar o tráfico". Mas como, se o que nós justamente queremos é acabar com o tráfico!

"Temos que criar não só políticas, mas também uma cultura de tolerância na sociedade"
Vocês acreditam que um dia a maconha será, enfim, legalizada?

Olha, vai demorar mas vai acontecer. Com calma, fazendo um trabalho sério, dá certo. A gente não quer fumar em todo lugar, sabemos também que, em termos de saúde, qualquer fumaça dentro do pulmão faz mal sim.

Mas queremos é que a repressão acabe, que haja uma cultura de tolerância. Esse ano foi a primeira vez que conseguimos esse debate em nível nacional. Mas foi ruim também porque estou respondendo processo por apologia ao crime; pessoas foram presas. Conseguiram calar uma parcela da sociedade que só queria se expressar.

Fotos: Josivan Rodrigues

Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola (jadegola @ rraurl.com)
it's like the 60s, with no hope
comentários
Márcio Motor
Márcio Motor (26.05.08)
0AprovadoQueima
Esse papo todo só me dá vontade de fechar outro.. Ow meu Deus! Me ajude!
(...)
Papel de pão! Vamos!
Dani Zero
Dani Zero (12.05.08)
0AprovadoQueima
Tirar o direito de protestar contra a vigência de qualquer lei é matar o regime democrático. É subtrair-lhe o sentido, traduzindo-se em ato imperial, impróprio ao estado democrático.
Retrocedemos à uma censura ditatorial e ninguém está se dando conta disso...
:(
"O engraçado é que absolver corruptos não é considerado apologia ao crime." [2]
certamente..
O triste é ver que ainda tem gente que apoia atitudes que nos lembra anos de censura. Concordo com o colega que disse "IGREJA FDP".
Gustavo
Gustavo (07.05.08)
3AprovadoQueima
Parabéns ao Raoni por dar a cara a tapa. Como em quase tudo, o Brasil está atrasado também nesta questão. Não fumo, mas sou a favor do debate e da liberdade de expressão. A legalização total das drogas não é possível porque os traficantes já estão muito poderosos (dinheiro, armas e influência). Talvez fosse viável há uns 20 anos, e talvez ainda seja um dia. O engraçado é que absolver corruptos não é considerado apologia ao crime.
proximos