Entre a metade e o final da década de 90 a música eletrônica deixou de ser exclusividade de redutos específicos para começar a ganhar um espaço maior junto ao grande público brasileiro. Foi neste período que, Leonardo Arlant, então DJ residente do clube Rave (Curitiba), topou a idéia de unir aos seus sets os sons percussivos de Rodrigo Paciornik, algo até então inédito no país.
Dez anos depois, o sucesso da parceria foi tão grande que falar de Leozinho ou de Paciornik individualmente pode soar até estranho a alguns ouvidos. A dupla aproveitou a ocasião do aniversário de trabalho em conjunto e programou uma turnê que teve início na semana passada no clube catarinense Warung, onde são residentes, e já passou na última sexta pela cidade natal de ambos, em evento do clube Pacha no Castelo do Batel.
De lá, DJ e percussionista partem para apresentações em Los Angeles e Las Vegas, e até o fim do ano comemoram em diversas cidades brasileiras, passando por Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Abaixo, as cinco perguntas do
rraurl para Leozinho e Paciornik:
Uma década de carreira para uma dupla é um feito considerável, especialmente se tratando de música eletrônica brasileira. Qual seria a receita para não "desgastar" a relação? A idéia é continuar por mais dez anos se apresentando juntos?Leozinho: Acho que o motivo pelo qual dá certo é o respeito que cada um tem pelo o que o outro faz, sem cobranças, com liberdade. Cobrança sempre gera briga, e nossa parceria é um negócio bem desencanado, respeitamos muito o espaço de cada um!
Paciornik: Respeito um pelo outro acima de tudo. Além de sermos como irmãos, nos respeitamos tanto a ponto de nunca termos sequer discutido em dez anos de carreira. E, vendo coisas como vimos no Warung na última apresentação, com pessoas carregando outras nas costas pela areia só para chegar na nossa festa, isso me dá ânimo para tocar mais dez anos numa boa.
(N. do A.: nesta noite, em virtude das fortes chuvas, o acesso principal ao Warung ficou prejudicado, e parte do público chegou ao clube pela praia).Há dez anos a música eletrônica tinha contornos de novidade no país, com muito menos gente trabalhando no meio do que nos dias de hoje. Vocês sentiram alguma mudança pela quantidade maior de "concorrência", ou o fato de estar há mais tempo na estrada acaba sendo positivo?Leozinho: Com relação ao número de
gigs, graças a Deus nunca fomos afetados, pelo contrário: aumentam as datas a cada ano. Mas em compensação o trabalho em si está mais difícil sim. Na época do vinil era mais difícil ter acesso aos discos e aos lançamentos, mas era muito comum cada DJ ter discos exclusivos, era mais fácil criar uma identidade própria. Hoje o trabalho de pesquisa é muito maior, exige muito mais para que eu possa fazer um set mais elaborado.
Paciornik: O fato de termos começado há mais tempo ajuda, com certeza, mas hoje realmente a concorrência é maior, até no meu caso que não sou DJ. Mas no final das contas isso é bom, afinal aumenta a nossa própria cobrança e nos faz ir atrás de coisas novas.
O projeto Life is a Loop deu uma visibilidade maior ao trabalho de vocês, mas ao mesmo tempo dividiu muito as opiniões do público que acompanhava o trabalho individual de cada um. Como vocês fazem para balancear as duas trajetórias, já que elas apresentam características bem distintas? Paciornik: O Life is a Loop foi como tudo na nossa carreira: começou despretensioso, e de repente virou uma coisa grande. Mas acho importante ter claro que a idéia dentro do Life is a Loop é outra, é de um show que não envolve só música, mas também a parte visual e muitas outras coisas. As músicas ali são só hits mesmo, a única intenção é botar todo mundo para dançar, e quando eu toco sozinho sempre são sets muito diferentes do que fazemos no projeto.
Paciornik: Esse projeto gerou toda uma polêmica, mas ao mesmo tempo nunca tivemos uma festa que não estivesse cheia, o que para nós significa que de alguma maneira funcionou. Queremos apresentar coisas diferentes em termos de show, interagir ao máximo com as pessoas, fazer com que elas se sintam parte dele.
O som que vocês fazem sempre foi orientado por uma proposta despretensiosa, baseado muito mais na diversão do que em algo mais conceitual, o que faz com que algumas pessoas rotulem o som de vocês como "pop". Isto chega a incomodar ou não?Leozinho: A verdade é que eu nunca quis informar um público específico, nunca tive essa intenção. Não era uma pessoa do meio musical ou da noite, pelo contrário, escutava The Doors e pegava onda antes de tocar (risos) para se ter uma idéia. Entrei na música eletrônica como muitas pessoas entram, por pura diversão. Desde que comecei sempre quis me divertir, mas é claro que mudei muito, hoje pesquiso muito mais, acredito que como DJ eu evoluí bastante desde o começo da carreira.
Paciornik: Ser chamado de pop não incomoda não, de maneira alguma. Informamos da nossa maneira, divertindo as pessoas, e se nos últimos anos deu certo, pretendemos continuar assim.
Percebe-se um certo saudosismo da parte de vocês, e pelo que se viu na apresentação do Warung, a idéia de comemorar os dez anos de carreira passa por rever faixas que são consideradas clássicas. Quais seriam as músicas que vocês consideram atemporais?Leozinho: Tenho a impressão de que as produções antigas eram mais bem trabalhadas. Claro que hoje em dia é fantástico que todos têm acesso às ferramentas de produção, mas tem muita coisa parecida. Faixas que me marcaram muito são "Yeke Yeke", da Mory Kante (remix do Hardfloor), "Samba Magic" do Basement Jaxx, e "Three Drives", do Greece 2000.
Paciornik: Não é exatamente saudosismo, mas se estamos comemorando dez anos de carreira, nada mais natural do que contar esta história através das músicas! Na nossa apresentação no Warung vi pessoas se abraçando, e até chorando na pista, quando tocamos músicas mais clássicas, e isso, pra mim, é o maior presente!
Pelo jeito os 10 anos de aniversario da carreira da dupla Curitibana vao ser muito bem comemorados na "LA-la-land"!!!