Larry Tee
O mentor do electroclash americano em entrevista exclusiva para o rraurl.com
02.09.03 04:45
O que esperar do cara que disse "se eu consigo colocar uma drag queen no top 40, tudo é possível"? Nativo de Atlanta mas filho adotivo de Nova Iorque, Larry Tee é o responsável pelo batismo do movimento Electroclash, nome inicialmente usado para o seu festival, que acabou adquirindo status de cena. Guia duas noites no clube Luxx, no Brooklyn - a Mutants e a Berliniamsburg, além do selo Mogul Electro. Exercendo mil e tantas utilidades, Larry também lançou as meninas do W.I.T (Whatever it takes).
Assume gostar de pop e critica ferozmente o formato (segundo ele) estático do techno e da house, pelo menos em termos de atitude. Participou intensamente da cena club kids, retratada no filme Party Monster. Esse é o cara que promoveu a mais recente revolução na vida noturna de Nova Iorque - e que se apresenta dia 4 desse mês no Ampgalaxy (São Paulo), dia 5 no terraço do Shopping Center Light (também São Paulo) e dia 6 no Dama de Ferro (Rio de Janeiro).
Qual a diferença entre o que a cena noturna de Nova Iorque é hoje e o que era antes do Electroclash?
A principal diferença é que agora os clubes de Nova Iorque têm toda uma nova gama de música que pode ser experimentada, já que há muitas influências provenientes do techno, da house e do rap. Eu acho que a energia está bem mais divertida, o que é estranho, já que toda essa mudança ocorreu após o desastre de 11 de setembro.
Qual foi a cena mais engraçada que você já presenciou no Luxx?
Uma vez a Naomi Campbell chegou com uns caras super estilosos. Daí eu toquei Supermodel Incorporated, que tem um trecho assim: "walk that ass down the runway and get paid" (algo como "leve esta bunda para a passarela e seja paga"). Ela levantou com tudo e chamou o povo dela para ir embora.
Você defende que o Electroclash tem uma postura política. Pode esclarecer que postura é essa?
Eu acho que o electroclash tem a postura mais política de todos os estilos alternativos e eletrônicos. Me deixa explicar: há uma forte voz feminina, o que estava ausente na música eletrônica e alternativa mais recente. A Peaches fala de forma bem clara sobre política sexual feminina, Chicks on Speed são bastante sonoras no que diz respeito a companhias que vendem nossos países, o Adult discute apatia e a Miss Kittin tira sarro da cultura das celebridades. Eles passam essa mensagem e ao mesmo tempo mantém um glamour e o apelo de estrelas do rock. Esses artistas não se parecem com estrelas da Disney, o que é bastante democrático. É uma inteligência desencanada, portanto tem frescor. Também não discrimina gay ou hetero, branco ou negro.
Qual a diferença entre dançar electro em Nova Iorque, Londres e Berlim?
A vida noturna de Nova Iorque, Berlim e Londres não poderia ser mais diferente, mas também não é como algumas pessoas pensam. A de Londres é a mais vibrante agora, já que a maioria das festas que rolam lá tem uma estética punk eletrônica. Eles se montam e participam da noite com muito entusiasmo, e agora estão começando a produzir alguns artistas realmente ótimos. Nova Iorque é uma cidade complicada no momento, por causa das circunstâncias políticas. Você não pode fumar nos clubes, você não pode dançar sem licença, além da noite ser muito cara. O Brooklyn é atualmente o centro da vida noturna bacana de Nova Iorque, porque o governo não se importa com o que acontece por lá, e é por isso que faço minhas festas lá. Em Berlim eu realmente nunca me diverti muito, mas reitero que tem muitos produtores excelentes trabalhando lá, então eu respeito demais a cidade. Também não saí tanto por lá. Luxx em Nova Iorque, Nag Nag Nag em Londres e Cookies em Berlim: meus favoritos.
Quais são as melhores coisas para se lembrar dos anos oitenta?
Bom, eu amava o Kraftwerk, New Order, DAF, Planet Rock, Hip Hop Bee Bop, Depeche Mode, The Smiths, industrial do começo, Jesus and Mary Chain, Prince, Jimmy Jam e Terry Lewis, The B-52s, Din Daa Daa, Run DMC, Nitzer Ebb e TOm TOm Club.
Estamos acostumados a pensar no Electroclash como uma cultura punk, o que deveria incluir uma filosofia iconoclasta. Ao mesmo tempo, os produtores/DJs usualmente referidos como Electroclash são uns dos mais hypados. Isso não é contraditório?
O Electroclash, como festival, foi formulado para ser um tributo a artistas que trouxeram a energia do punk, o glamour do rock e a voz de uma nova geração para novas e sensuais batidas eletrônicas. Há dois anos isso todo era bem underground, mas a imprensa, que precisa escrever sobre coisas novas, curtiu a personalidade e o estilo desses artistas. Eu não acho que existam tantos artistas crescendo em uma razão tão firme e constante no techno, na house e na música alternativa em geral quanto há no electroclash. As estrelas desses gêneros estão há dez anos na ativa e não estão evoluindo tão rápido quanto a garotada precisa. O electroclash também vai chegar a um ponto, daqui a alguns anos, em que vai precisar de novas estrelas. Isso não é contraditório, é só evolução. Lembra de quando o new wave e o punk pareciam muito radicais e underground? É um ciclo.
Você fez um remix para o t.A.T.u que chegou ao topo de várias paradas. O que você acha dessa idéia de homossexualismo feminino como moda?
Lesbianismo como modinha? Sim, eu também acho que o t.A.T.u é uma coisa meio artificial, mas engraçado que as pessoas depois respondem a esse beijo da Madonna e da Britney Spears como novidade. Vai passar. Eu realmente acho que ainda há muitas maneiras de se falar da política sexual dos gays e do preconceito. Eu não acho que o t.A.T.u seja a resposta para o problema, até porque elas são hetero.
Já que talvez alguns brasileiros estejam se programando pra conferir o festival Electroclash desse ano, você pode dar uma idéia do que vai rolar?
O festival desse ano rola de 13 a 16 de novembro em Nova Iorque. Nós estamos mudando o nome esse ano, então podemos incluir artistas que não se identificam com o electroclash, mas também vamos apresentar artistas que têm o vibe do electroclash. O nome vai ser Outsider music festival. Até agora, confirmamos The Fat Truckers, WIT, LFO, Freezepop e the Troublemakers. Nossa meta é levar artistas novos todo ano.
O que é tão legal na música eletrônica baseada em performance?
Acho que o Electroclash pegou nos Estados Unidos porque os americanos se identificam com personalidades e políticas individuais. Eu mesmo fui criado em meio à música eletrônica de artistas como Grace Jones, Gary Newman, Donna Summer e Debby Harry. A maioria das estrelas do techno e da house não é muito sensual ou misteriosa. Eu não me importo com o que eles têm a dizer, a não ser no que diz respeito a equipamento eletrônico. As letras recentes de house music parecem canto de periquito: higher, higher, higher etc. Medo da escuridão que os discos de trance anunciam. Credo... Ultimamente nós estamos tendo problemas suficientes para nos preocuparmos em Nova Iorque, não precisamos de música vazia, sem palavras, sem alma.
O que espera dessa vinda ao Brasil?
Eu estive no Brasil em 1994, e me diverti bastante com a vida noturna. Eu não lembro muito da cidade, já que na época era viciado em drogas. Eu estou limpo há 5 anos com a ajuda dos Narcóticos Anônimos e ansioso para fazer um turismo sério dessa vez.
O que você está aprontando para o Mogul Electro?
O Mogul Electro está para lançar o Electroclash vol. 2, ainda a tempo para o festival, e tem todas as faixas recentes que eu tenho mais curtido. Vai do electro punk ao electro disco, e tem importantes músicas com temas políticos. Além disso, estou fazendo um novo álbum com as meninas do W.I.T. O Vince Clarke e o Mark Bell (LFO) também colaboraram com as meninas, e o resultado é espetacular!
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