Barulheira, hip hop franco-americano, electro criativo e a certeza de ser o mais fodão
30.05.08 18:30
Maximal is a feeling, mais do que um gênero em si. Parafrasear o quote mais famoso da música eletrônica ajuda a entender tal sonoridade e seus respectivos gurus, que têm na patota francesa da Ed Banger Records seus principais nomes.
Busy P., SebAstian, Justice, Uffie e cia. estão de volta para mais uma compilação anual - a terceira - do que o selo pretende como música e pretende como artistas. O resultado é maximal barulhento entrecortado por momentos de ótimas ilustrações sonoras e muito egos transbordando de testosterona causada pelo sucesso. Tal dominação mundial dessa panelinha ganha agora um arriscado adendo: o hip hop.
Sim, já no começo do CD o patrão Busy P. escala o rapper MURS em "To Protect and Entertain". Numa base vulcanizada de electro agressividade pela batida bem marcada, é narrada a amargura hipster de proteger e entreter na ponte-aérea "Paris to Los Angeles, au revoir motherfuckers, you can suck my dick", como ele assinala bem. A agressividade latente no Ed Rec Vol. III é gratuita porque é desnecessária. Pedro Winter, não precisa contratar ninguém para nos mandar chupar picas, já sabemos como vocês são fodões.
E a Uffie? A bibelô-rapper mais odiada dos últimos anos volta convincente pela ótima base de Vitalic letárgico (que provavelmente seu mino Feadz criou). Dá até para esquecer a falação
We are friends
"eu fico bêbada, eu tenho drogas"... Queria mesmo é ver Uffie rebolar a anca de verdade como as minas do Spank Rock, que é convidado do CD justamente na (ótima) faixa de Feadz, "Back it Up".
Também soa exagerado SebAstian, que deixa o electro motorizado de lado em "Dog", metaleira tão berrada que ainda será necessário algum tempo para se entender o efeito disso numa pista de dança. É diferente do electro-metal do Justice, melódico, que nessa compilação traz "Stress" (polêmica da vez) num autoremix tenso. É trilha de filme gore, a batida ritmando os passos da mocinha que foge do monstro assassino.
Gaspard Augé e Xavier de Rosnay confirmam mais uma vez que são de longe os filhos mais pródigos da casa, bons picotadores que são de si mesmos. Uma técnica que, se potencializado numa carreira de dez anos e alguns outros discos, virará o Justice sound. Daft Punk, lembra? O gerentão é o mesmo.
CALMARIA NECESSÁRIA Pessoas de humor sensível podem ficar tranqüilas: tantas camadas de hormônios adolescentes somem aos poucos, do psy-electro "Decalcomania" (So Me) até o rap francês de "Find Me In The World" (DSL), mais sofisticado, adjetivo que cabe numa comparação EUA/França.
Mr. Oizo, experiente, dá algum charme adulto e vintage a tanta criançada descontrolada. Sua já tradicional "Intro" apresentando a compilação (que no Vol. II é a melhor faixa do disco, sério) agora se chama "Yves" e é um electro-ambient, coerência de um artista que cria trilhas cinematográficas. Em "Minuteman's Pulse", saxofones da indelével house francesa casam bem com gotas de disco music picotadas pelo break. É o maximal leve, que não agride ninguém e não precisa gritar para ser bem ouvido.
Outro mounsier a atentar é Mr. Flash e sua "Over the Top", cinéfila também, Los Angeles nos anos 80, no melhor estilo Kavinsky. E Mehdi fecha a velha-guarda Ed Banger com a épica "Pocket Piano", faixa que lembra os conterrâneos do Nôze, encerrou seu set no Coachella 2008 e poderia ser space disco se não tivesse base quebrada. Ouça:
DJ Mehdi - Pocket Piano
Fato é que a turma Ed Banger é uma patota que não se agüenta de orgulho, certa de que é responsável por ditar o caminho de certas (sub)cenas, de artistas e sons. O que eles não sabem é que esse grande mérito lhe é dado pelo público, que aprova a mistureba de sonoridades, estilos e personalidades. Rumar para uma arrogância gangsta e yuppie bem ao estilo dos americanos (mercado a qual eles estão abrindo as pernas e a alma) só vai acelerar a efemeridade desse hype. Au revoir, motherfuckers!