"Meus pais não estavam realmente cientes de que música seria o meu lance. Eu discotecava à noite e estudava durante o dia. Então tudo parecia legal. Mas quando eu interrompi meus estudos, logo antes do exame final - já que eu não tinha tempo suficiente para estudar - eles ficaram chocados.
20 anos após começar sua carreira de DJ, o produtor Martin Eyerer, baseado em Stuttgart, continua no topo do jogo conduzindo seu supercool selo de electro-tech Kling Klong e lançando uma série de remixes e produções que o tornaram um dos DJs da Alemanha mais conhecidos internacionalmente. Prestes também a lançar seu álbum de estréia
Word Of Mouth, ele percorreu um longo caminho desde que saiu da universidade, apesar de ser o primeiro a admitir que seus pais lhe bancaram enquanto se dedicava à música em tempo integral.
"A primeira vez que dei uma entrevista para a TV foi o momento em que eles acreditaram que aquilo poderia ser um negócio que funcionava", diz Martin. "Por muitos anos minha mãe me perguntava como tudo estava e ainda continuava cética, mas nos últimos dois ou três anos ela viu o quanto eu estive viajando e parou de perguntar."
Você vêm discotecando por 20 anos, e lançando discos por um tempo. Por que esperou até agora para lançar um album?Quando eu comecei a discotecar não pensava em produzir, era 1986 e produtores-DJs não existiam na época. Eu realmente me envolvi com todo o hype do acid house e não foi até 1993 que conheci alguns caras e comecei a produzir com eles, para lançar meus primeiros discos. Comecei com engenheiros e gradualmente fui ficando mais envolvido com o processo de produção, lendo muitos manuais e gastando muito dinheiro com meu próprio estúdio. Meu primeiro disco auto-produzido foi lançado pelo selo Noom, de Commander Tom, em 2001, e então nos anos seguintes trabalhei para melhorar minhas habilidades e achar meu próprio som.
E claro que muita coisa aconteceu, meu estilo de tocar mudou do UK trance para progressive house e então de volta para onde comecei: techno, e finalmente techno minimal. Claro que esse processo também moldou a maneira como eu produzia e realmente acho que nos últimos dois anos eu cheguei, em termos de qualidade e estilo, aonde queria. Também fiz muitas colaborações com amigos no meu estúdio, pessoas como Oliver Koletzki, Namito, Oliver Klein, Gui Boratto, Toni Rios ou Chopstick, além de alguns singles e remixes como Martin Eyerer, e finalmente cheguei num ponto onde achei que era o momento certo de fazer um álbum. Isso foi no ano passado.
O que torna a criação de um álbum que faz com que ele seja mais significante do que lançar uma série de singles?Em primeiro lugar um single vêm e vai muito rapidamente. Nos dias de hoje tudo se move tão rápido - uma faixa é tocada e após 3 ou 4 semanas é considerada velha. Eu acho que isso tem a ver com a incontável quantidade de lançamentos toda semana. Então se você faz um álbum eu acho que consegue mais atenção e ele circula por mais tempo. O álbum de um bom artista ou mesmo uma coletânea sempre vale pegar para ouvir novamente - mesmo depois de alguns anos. Em segundo lugar, num álbum você pode mostrar sua versatilidade e trabalhar muito melhor porquê há uma grande diferença entre um ouvinte conseguir um single seu a cada 2 meses e ter a possibilidade de colocar dez ou mais faixas compactadas no mercado. Define muito melhor o que você está fazendo enquanto artista.
Seus releases de imprensa destacam: "sem excursões por sonoridades avant-garde, sem loops minimais de 10 minutos". O que você acha da tendência ao minimal nos últimos anos, ela já se esgotou?Nos dias de hoje tudo é chamado de minimal. Na verdade o minimal de verdade é encontrado em bem poucos clubes, pequenos e especiais, mas o resto é uma mistura de diferentes estilos como house, techno e minimal. Há artistas sentados em frente à um computador tocando o Ableton ao vivo - que é uma ótima ferramenta sem dúvida - e juntando alguns poucos loops e vendendo como seu álbum. O release de imprensa foi apenas para enfatizar que meu álbum não é assim e inclui bastante variedade e versatilidade - em termos de produção e estilo.
O som minimal já se esgotou, sim, na verdade diversos anos atrás, mas o desenvolvimento feito à partir dele e a mistura de estilos influenciada pelo minimal está rolando. No fim do dia só depende nas próprias definições das pessoas sobre seus estilos: alguns até chamam de techno minimal de 130 bpms.
Por que o minimal se tornou tão popular na Alemanha? Qual a ligação?Eu acho que uma das principais razões é que Berlim é tão efervescente. Minimal não veio de lá mas a atmosfera da cidade, com seus clubes loucos e mix cultural ajudou ele a crescer e se tornar uma cena. Mais e mais pessoas fazendo música eletrônica se mudaram para lá e também é por isso que se tornou maior e maior, particularmente porquê mais e mais artistas internacionais vieram. Frankfurt e Colônia também têm sido significante, Frankfurt no lado techno e Colônia no lado mais avant-garde.
Uma entrevista que encontrei dizia que você (incorretamente) morava em Berlim - seu assessor ficou chocado. Por que você não se mudou para Berlim?Berlim é ótima e eu amo estar lá, eu tenho muitos amigos e toco 3 ou 4 vezes por ano. Você também encontra todo mundo lá e todo dia tem festas, mas todos esses fatores tornam isso perigoso. Você perde muito tempo encontrando e circulando com as pessoas, indo para festas e tudo mais. Então depois de alguns dias em Berlim eu sempre gosto de voltar para Stuttgart. Em Stuttgart há apenas alguns poucos DJs de renome internacional, então eu sou um dos mais importantes lá, o que as vezes pode ser útil. Também a qualidade de vida lá é realmente muito alta, é um lugar rico mas não muito grande. Se eu me mudasse para Berlim meu estilo de vida seria dramaticamente diferente. Há tantos DJs e produtores famosos que é impossível manter a visão completa. E essa é uma das razões pela qual ninguém é pago corretamente para discotecar em Berlim. Na verdade eu pensei em me mudar para lá alguns anos atrás mas como eu disse eu estou feliz de ter feito a decisão contrária no fim.
Já faz 18 anos desde que o Muro de Berlim caiu: você visitou a cidade nos dias imediatamente seguintes ao fato?Eu tive a sorte de visitar Berlim mesmo antes do muro cair e é claro eu visitei a cidade muitas vezes depois. Era muito interessante ver o que estava acontecendo na parte oriental da Alemanha e quando as fronteiras foram abertas foi como uma iluminação inicial para um processo que fez a cidade ser o que ela é hoje: uma grande efervescência que é muito aberta para tudo e todos. A cena verdadeira está localizada na antiga parte oriental de Berlim, se você está lá têm a sensação de que a cidade ainda está meio que separada: a parte ocidental é rica e ostentadora e a oriental, artística e cool.
Você é bastante envolvido com a indústria musical: qual sua opinião sobre sua saúde nesse momento?Eu acho que a cena geralmente está numa boa forma. Claro que há alguns poucos que já viram melhores dias, mas tudo isso está conectado com a revolução digital. E revolução é o que ela é. A maioria dos DJs estão se debandando para o digital, apesar de alguns ainda se manterem com o vinil. Eu entendo porquê, tenho 60 mil na minha casa, mas também acho que você não pode impedir o progresso e se tentar irá perder. Claro que nós ainda não estamos no estágio onde downloads pagos podem substituir os lucros do vinil, mas está ficando cada vez melhor. Ainda há algumas pessoas comprando e tocando vinil, é claro, mas eu pessoalmente acho que o mercado ainda irá encolher até ficar muito pequeno servindo apenas alguns poucos freaks. Mas eu não acho que irá morrer. Eu também ainda uso uma tape machine da Studer para masterizar os discos no meu estúdio, e tapes morreram muitos anos atrás. A propósito, ninguém pode parar isso também. Enquanto as pessoas estiverem ligadas em música e pagar por ela, o meio que elas utilizarem não importa.
Antes de você começar a discotecar você tinha algum plano específico de carreira?Eu estudei direito e no passado eu sempre dizia que nunca queria fazer carreira discotecando e produzindo já que não era um negócio de verdade. Mas eu devo dizer que estou muito feliz com o caminho que escolhi.
Como se tornar um pai mudou sua atitude em relação à música e à vida?Ter crianças mudou minha atitude em geral e meu estilo de vida no dia-a-dia, é claro. Crianças trazem outro significado para sua vida, apesar que através da música nada mudou realmente de fato. Especificamente, eu agora tento chegar em casa o mais rápido possível depois das apresentações, ao invés de passar um dia todo no hotel, ou poucos dias quando estou viajando. Agora às vezes eu pego um vôo de volta imediatamente na manhã após uma apresentação para ter mais tempo em casa. De outra maneira esse emprego seria difícil de combinar com a vida familiar. Mas com um planejamento adequado você consegue.
Você encorajaria seus filhos a serem músicos, DJs ou artistas?Eu irei apoiá-los no que quiserem fazer. Eu definitivamente não vou empurrá-los para outra coisa. Se eles decidirem que eles querem ser como eu, irei apoiar mas também tentar persuadi-los a terminar a escola antes e talvez ter uma profissão. É mais sábio ter algo em que se apoiar.
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Word Of Mouth está disponível pela Kling Klong Records.