JOY DIVISION Direção: Grant Gee Elenco: Bernard Sumner, Peter Hook, Stephen Morris, Peter Saville, Tony Wilson Duração: 93 min. Nota: 4.5 / 5 Ano: 2008
Documentário mostra em detalhadas nuances musicais a curta trajetória da banda de Manchester
11.06.08 18:50
Semanas após a estréia de Control nas salas de SP, entra em cartaz o documentário Joy Division. O filme foi dirigido por Grant Gee, realizador de videoclipes que também fez Meeting People Is Easy, ótimo documentário que acompanha o Radiohead durante a exaustiva turnê de OK Computer.
As diferenças entre o documentário e Control se referem principalmente ao tratamento dado ao tema. Já foi notado que, enquanto o último procura desmistificar o cantor através de uma abordagem mais humanista, o filme adaptado do livro biográfico de Deborah Curtis, esposa de Ian, só contribui para o aumento da lenda. Outro diferencial entre eles é que Control apresenta uma narrativa mais universal e Joy Division provavelmente será melhor apreciado para quem já tem algum conhecimento prévio da banda, com descrições detalhadas de gravações e outros pormenores de sua curta carreira.
Trilha Sonora
Entre os entrevistados estão o designer Peter Saville, o dono da gravadora Factory e apresentador de TV Tony Wilson e o fotógrafo e diretor Anton Corbjin, que realizou Control e chegou a conhecer a banda na época, clicando fotos e realizando o videoclipe de "Atmosphere". Entre os depoimentos mais reveladores também se incluem os de integrantes de bandas contemporâneas como Cabaret Voltaire e Throbbing Gristle, com as quais o JD dividiu os palcos em diversas ocasiões. Outro depoimento marcante é o de Annik Honoré, amante de Curtis e co-fundadora do selo belga Les Disques Du Crepuscule.
O roteiro do documentário foi feito pelo célebre jornalista Jon Savage, responsável pelo livro definitivo sobre o punk rock e 1977: England's Dreaming. Embora não apareça no filme - infelizmente, já que Savage é uma das mentes mais inteligentes e articuladas da história do jornalismo musical - suas idéias e conceitos permeiam todo o filme. Savage conheceu a banda ainda durante a sua existência, quando era jornalista musical em Manchester, e era amigo de Martin Hannet, produtor dos discos da banda.
O principal argumento do filme é o de que a música do Joy Division era um reflexo direto da influência da cidade de Manchester, sua arquitetura cinza e desolada, um espelho das psiquês de seus habitantes. Trechos de músicas são contrapostos à diversas imagens da cidade, buscando criar um elo entre as letras e a atmosfera local.
FUGINDO DA REALIDADE Manchester era um lugar chato e deprimente, com filas intermináveis de conjuntos habitacionais - o lazer dividido entre comprar discos e ir ao pub, que fecha às 23h. Entre as rotas de fuga para a juventude da época estavam, além de constantes como música, drogas e moda, literatura. No final dos anos 70 um livro de bolso era vendido na Inglaterra por valores seis vezes menores que um LP.
Nesse contexto era comum ler obsessivamente, e era exatamente o que Curtis fazia, tendo entre seus escritores favoritos nomes como Jean-Paul Sartre, Dostoievsky, Nietzsche e Herman Hesse. Referências literárias abundam nas letras da banda, que citam direta ou indiretamente William Burroughs (em Interzone), Franz Kafka (Colony), Nicolai Gogol (Dead Souls) e J.G. Ballard (The Atrocity Exibithion).
Musicalmente os integrantes da banda cresceram ouvindo Bowie, Roxy Music, Lou Reed, até o punk conquistar Manchester através de shows de bandas como Sex Pistols e Clash. Especialmente marcantes na evolução da banda foram os discos da fase Berlim de Iggy Pop (seu The Idiot ambientou o suicídio de Ian Curtis) e David Bowie.
Uma das coisas mais fascinantes do período pós-punk é a quantidade de referências estéticas presentes em cada banda. Explorar o universo de um grupo a fundo era quase como freqüentar uma universidade paralela, tamanha a riqueza de detalhes. O próprio disco era visto e tratado por gravadoras como a Factory como um objeto de arte. As capas dos discos, criadas por Saville, traziam imagens simples, enigmáticas e de alto impacto, como o gráfico de pulsação de estrelas em Unknow Pleasures, as estátuas de Closer, ou ainda o monge que encara uma cadeia de montanhas enevoadas no single de "Atmosphere".
Joy Division - Shadowplay @ Granada Reports (1978)
ANGÚSTIA EXISTENCIAL Parte do fascínio e da mitologia criados em torno da figura de Ian Curtis, além da imagem do ídolo romântico que se mata aos 23 anos, se deve à angústia existencial e do niilismo presente nas letras, elementos que possuem um forte apelo universal, especialmente para quem está saindo da adolescência, o grande público em potencial das bandas de rock.
Nem sempre esses elementos são bem traduzidos em música, porém, e aí entra o grande diferencial do Joy Division: as letras não são narrativas fechadas, mas descrições abstratas de sentimentos que permitem interpretações particulares. Se a banda parece não envelhecer e o fascínio continua crescendo cada vez mais é por isso: há espaço nas letras, assim como há espaço na música. Ao contrário da maioria das bandas de rock, o som de cada instrumento é claro e distinto, e os silêncios adicionam clima e tensão.
O produtor Martin Hannet, já falecido, era um hippie velho que gostava de fumar maconha
O grande diferencial do Joy Division: as letras não são narrativas fechadas, mas descrições abstratas de sentimentos que permitem interpretações particulares.
para aguçar a audição, e foi o grande responsável por transformar o Joy Division de uma boa banda ao vivo em uma grande banda de estúdio, ainda que, como os próprios integrantes confessam no filme (exceto Curtis), não ficaram muito felizes com o resultado, que transformou o peso dos shows em algo mais denso e atmosférico.
Mas mesmo com toda a complexidade e dos trabalhos de estúdio, as cenas mostradas no filme da banda tocando ao vivo mostram um ataque poderoso, com Curtis fazendo sua dança semi-epilética, guitarra e baixo criando climas e texturas com classe, e a bateria seca e constante.
Uma performance particularmente marcante é "She's Lost Control" tocada ao vivo no programa de TV Something Else, onde Curtis parece possuído, como se seu corpo fosse pouco para conseguir transmitir o que deseja. Controle, ou a falta dele, era um tema recorrente em suas músicas, e retoma agora como o mote dos filmes em cartaz.
Entrevista de 1979 ("Transmission" e "She's Lost Control")