Para uma banda, compor talvez seja o momento mais difícil. O parto criativo sempre é acompanhado de pressão constante, de tensões e pequenas revoluções que, muito além de meras guitarras e beats, ajudam a formar a personalidade musical de um artista.
Kontpab

O
Mahjongg sabe bem como é esse processo. Desde 2006 que o coletivo/banda de artistas, oriundos do estado de Missouri e baseados em Chicago, está em trabalho de parto do conceitual
Kontpab, uma estranha e rara jóia de art rock, equações rítmicas e dance punk fabricada ainda com aspirações quase religiosas em formato CD. "Nossas faixas são feitas conceitualmente, algumas em partes durante os anos, outras numa ‘sentada' só. Algumas são escritas tradicionalmente, outras surgem de erros que as máquinas produzem, tudo focado na proporção entre timbre e ritmo", explica Hunter Husar, um dos integrantes, por e-mail ao
rraurl. "Daí unimos os mixes finais numa fonte estéreo, para preservar a continuidade. "
Complexo, certo? Depois, por telefone (sempre melhor), Hunter elucida que o processo de criação do Mahjongg é criar a partir de instrumentos, máquinas e samples um beat único e cru, a base para a extração de outros elementos, melodias e loops das canções. "É algo matemático: sampleamos ritmos e qualquer outro som, tocamos eles numa
jam e daí surgem as primeiras bases", conta, lembrando que na banda todo mundo toca todos os instrumentos. "É basicamente um pequeno loop funky, seguido de instrumentos e samples - depois nasce a melodia. É tudo baseado em sons, e não em músicas."
Melodia essa que pode ser um dance punk letárgico (tanto no estilo Tom Tom Club quanto Liquid Liquid - ouça "Problems"), ou uma saraivada percussiva étnica, criada em infinitas camadas a formar um monolito
surround de beats. "Essa música veio de uma fita cassete que achamos numa van antiga: primeiro sampleamos e damos outra temporalidade, daí trocamos samples por instrumentos acústicos". Ufa, vamos aos sons, que falam melhor que vinte concepções. Abaixo as duas faixas, as melhores de
Kontpab, disco que foi lançado no começo do ano pelo selo K.
Flash Content
Mahjongg - Pontiac (mp3)
Flash Content
Mahjongg - Problems (mp3)
Sobre o perfume afro das canções, Hunter diz que é algo que natural, sem intenções específicas. "As pessoas acham que temos uma influência direta da África, mas isso é porque somos funky, temos guitarras. Mas somos todos fãs de música africana na banda, isso de fato é algo único e que nos influencia". Tal referência estaria presente até na capa do disco, explicitamente étnico. "Essa capa é um espectograma 3D da imagem das Palm Islands de Dubai. É um desafio para o observador perceber como complexos padrões visuais vêm de regras simples, isso tem a ver com nossa música e da nossa preocupação com o rumo que a humanidade está tomando", filosofa Hunter, sem medo de ir longe.
EXPERIÊNCIA SONORA SOBRENATURALAfora toda a complexidade estrutural do som, tem ainda
Kontpab o disco-Deus que traz uma déia universal e religiosa baseada em dois elementos (‘Grid' e ‘The Sphere'), que segundo Hunter, servem para "comunicar o sentimento do que é Kontpab, para quantificar os momentos em que subvertemos os conceitos de sociedade". O disco seria então um ‘anexo' mundano e terreno dessa instituição, ilustrada ao ouvinte numa experiência sonora sobrenatural.
Mahjongg: à direita, Hunter Husar

Tal experiência é baseada também na dança e na explosão que é a banda ao vivo. "Não é algo bagunçado, pelo contrário, é até simples, já que nossas músicas surgem primeiro e depois são apresentadas ao vivo. Todos os papéis são definidos e bem coordenados", intercede Hunter, novamente em favor da simplicidade da banda. As apresentações ao vivo do Mahjongg são mais que comentadas na Internet, e eles já estão escalados para o conceitualóide
festival de música do site Pitchfork Media.
FATOR CHICAGOUm elemento bastante humano que é forte na música de Mahjongg é a sonoridade negra e da cidade de Chicago. House, ghetto, hip hop e até funk carioca são influências fortes. "A house music é algo fortíssimo em nosso som, mas tiramos dela o que queremos, não é uma referência reconhecível. Tiramos o suingue do beat e transformamos em que qualquer coisa que queremos no computador depois", explica Hunter, que também é DJ freestyle.
Chicago em si foi um fator que proveu à banda as suas possibilidades sonoras, uma

cidade baseada na música negra, mas sem a onipresença do "rap-bunda" norte-americano atual, cheia de espaços grandes e não tão cara em comparação à Nova York, possibilitando lofts e espaços para uma banda que tem, no mínimo, duas baterias. "Chicago tem um peso fundamental desde 2006, quando nos trancamos gravando.
Kontpab é na verdade o reflexo dessa época tensa e interessante do ponto de vista criativa. Depois do alívio do disco, tem sido um prazer tocar ao vivo e relembrar tais experiências, tal época, sem a tensão de criar", diz o músico/DJ, regredindo aos duros tempos de composição, hoje revertidos em diversão no palco. Porque o caos sonoro de
jam session do Mahjongg nada mais é que pura matemática sonora e coreografia instrumental. Uma vez que a equação é aprendida, não se esquece jamais.