Depois de polêmica em torno do título "Nigger", o rapper muda o nome, mas não muda o discurso racial e político
who's nigger?

O rapper Nas lança um disco político-racial em plena campanha de Barack Obama e retoma o discurso de denúncia das origens do rap. Nas é um rapper com uma história sui generis (considerando o atual momento político norte-americano). Seu pai, o trompetista Charles Jones III, mudou de nome após uma viagem para a África e virou Olu Dara, que em iorubá significa "Deus é bom". Nasir Jones, o nome de batismo de Nas é árabe. Essa duas etnias nunca estiveram tão na mira da pauta norte-americana como nos últimos anos. Primeiramente, depois dos ataques às torres gêmeas os árabes viraram o grande temor dos norte-americanos. Agora, com a grande possibilidade de Barack Obama se tornar o primeiro presidente negro dos EUA, a questão racial voltou a ser discutida amplamente. Carregando na historia familiar e no próprio nome essas duas "questões", Nas acaba de lançar seu novo álbum,
Untitled.
O disco se chamaria
Nigger (forma preconceituosa de se referir aos negros nos EUA), mas ficou sem nome depois das duras críticas que recebeu mesmo antes de chegar às lojas.
Porém, o nome do álbum não mudou em nada o discurso político do disco. Se no trabalho anterior, lançado em 2006, ele decretava que o hip hop estava morto (
Hip Hop is Dead), o disco atual volta às origens do gênero ao abordar política e racismo. O tom político embala grande parte das músicas, que poderiam ser todas utilizadas como jingle de campanha de Obama - caso de "Black President" e "You Can't Stop Us Now".
METRALHADORA POLÍTICA
A faixa de abertura, "Queens Get The Money" é um exercício lírico para Nas, que fala sobre diversos temas em apenas dois minutos, que parecem ser mais, devido a boa articulação dele. Isso tudo numa base de piano, sem bateria, loops ou qualquer outro acompanhamento. Em "You Can't Stop Us Now", a escravidão e a importância dos negros são contados em forma de música. A faixa faz uma alusão direta à capa, que tem as costas de Nas marcadas por chibatadas que formam a letra N. Em "Sly Fox" ele faz duras críticas ao canal de TV. Inclusive, Nas endossou publicamente o abaixo-assinado para que a Fox pare de fazer críticas aos negros, em especial ao senador e candidato a presidência, Barack Obama
O disco tem poucas participações especiais. Chris Brown e The Game aparecem em "Make The World Go Round". O articulado Busta Rhymes canta com Nas em "Fried Chicken", destaque negativo e deslocado do disco. A música faz uma referência às mulheres, evocando o que há de pior no hip hop norte-americano. Utilizando uma batida clássica do gangsta rap, "Hero" é o hit do disco.
Os discos de Nas não são prezam pelas bases, que normalmente não comprometem, mas também não são fenomenais. Em
Untitled os beats são lentos, com um quê orgânico, puxando para o soul. Em compensação o discurso é pesado. Não, o hip hop não está morto.