O relançamento da coletânea
Innovator pode ser encarado de duas formas. Por um lado, é ótimo que uma das melhores coleções dos clássicos que definiram o techno está mais uma vez à disposição de todos, já que foi originalmente lançada em 1996 e há muito tempo só era encontrada em sites e lojas especializadas custando os olhos da cara. Mas também serve como dura lembrança de que desde então Derrick May, o "pai do techno", tem preferido passar seu tempo reclamando de tudo e de todos, muitas vezes esboçando uma velhice de idéias ímpar, ao invés de fazer o que sabe melhor: música.
É inegável a importância de Derrick para a música eletrônica. São as faixas encontradas nesta coletânea, como "String of Life" e "Nude Photo", que serviram de base para todas as gerações de produtores de techno se desenvolverem dos anos 80 até hoje. Por tabela, geraram também a cena rave britânica, e sua influência hoje pode ser encontrada nos mais variados gêneros da música para as pistas.
Saunderson, May e Atkins

É claro que Derrick não fez tudo isso sozinho: seus colegas dos tempos de escola Juan Atkins e Kevin Saunderson, são tão importantes quanto. Juntos puseram a cidade de Detroit (EUA) no mapa como o berço do techno - que depois viria inclusive a ser batizado de "detroit techno". Mas, ao contrário de Derrick, Juan e Kevin não ficaram perdidos no terreno sombrio do saudosismo.
FALA, DERRICK!De uns tempos pra cá Derrick resolveu abrir a boca, e falar e falar. Falar mal dos DJs, do uso de MP3s, que "DJ de verdade só toca com vinil", etc. Muitos produtores não temem em dizer que ele envelheceu da pior forma possível e que suas idéias retrógradas não o levam a lugar nenhum. Tanto é que ele não lança música solo há mais de uma década.
Derrick

"Que tempo chato para ser um DJ, sem mais lojas de discos. Ficar online ouvindo downloads é a coisa mais irritante que eu tive que fazer em muito tempo. Não dá também para você ouvir uma faixa no computador com pressa. Esse não é o futuro que eu e Juan Atkins deslumbramos, mas é o que é. Eu vou continuar detonando com vinis até não poder mais, de CDs eu não quero nem saber e downloads, I ain't down for the load." - ele escreveu em seu
blog no MySpace.
Seu
site oficial tem seções chamadas "ambições" e "missões", onde ele diz "querer salvar o mundo da música de má qualidade", xoxando o trabalho de outros artistas.
Mas daí o nosso colega Kevin Saunderson solta essa
numa entrevista exclusiva ao
rraurl: "Não, eu não carrego mais discos. A última vez que toquei um disco foi uns dois anos atrás. Abracei o Final Scratch assim que saiu. Carregar discos ano após ano não estava fazendo bem ao meu corpo. (...) O que mais me atrai no vinil é que o som é único, o contato manual é ótimo, mas estamos na era digital e tudo mudou. E não sinto a menor falta do vinil agora."
Em
outro papo exclusivo, Adam Beyer, Marco Carola e Surgeon (outro trio de ouro do techno), reclamaram bastante das idéias anti-tecnológicas de Derrick: "Eu acho que isso é um homem velho falando! Eu estou com a tecnologia e apoio a tecnologia! Existem várias razões para se alegrar com isso, do meio-ambiente à disponibilidade da música, estou feliz em promover a indústria de downloads com algumas faixas que fiz apenas em MP3 ou WAV", opinou Carola.
Tal atitude de Derrick esbarra no próprio sentido do techno, estilo que sempre se manteve aberto à mudanças e influências novas. Hoje em dia nem mesmo vemos flyers de festas exibindo "techno" ao lado do nome dos DJs. É sempre "minimal techno", "acid techno", "wonky techno" e por aí vai.
"O techno tem sido a mais progressiva forma da dance music. Tendências e sons estão mudando quase de mês a mês, e ainda estou super-excitado mesmo após 19 anos tocando. Algumas pessoas que viveram no estilo de techno dos anos 90 talvez tiveram dificuldade em gostar da ênfase minimal que o techno ganhou, que é influência do começo da década passa." - disse Adam Beyer na mesma entrevista.
"A coisa boa do minimal é que trouxe tudo pra baixo. E você precisa descer antes de poder subir de novo", concluí Saunderson.
Talvez Derrick esteja mesmo apenas passando por um inferno astral longo demais. Ouvindo
Innovator, pode-se perceber que muitas de suas faixas são mais inovadoras (e tão modernas) do que muita coisa feita hoje em dia: a mistura da house de Chicago com o funk maluco do Parliament/Funkadelic e a eletrônica do Kraftwerk e a fórmula que criou alicerces para tantos artistas, sonoridades, estilos e sub-gêneros da música dançante e inorgânica. "Salsa Life", "Beyond The Dance", "Drama", "It Is What It Is"... estão todas aqui reunidas. Algumas coisas inéditas, outras em versões novas. Tudo o que um fã do estilo procura.
Quem sabe um dia Derrick acorde da hibernação e lance algo novo que surpreenda a todos? Ou será que ele já deu tudo o que podia no meio musical e agora deve continuar apenas seguindo sua ótima carreira de DJ, tocando nos maiores festivais do mundo?
Só o tempo dirá...