Se o rock e a eletrônica em seu estado bruto há tempos não produzem nada desafiador e digno de admiração, o mesmo se pode dizer da mistura básica dos dois. Depois de uma febre de sintetizadores e solos de guitarras, o gênero deixou sua criatividade se transformar em fórmula, e o excesso de utilizadores do manual quase apagaram seu charme. Por sorte algumas bandas gostam de estar sempre se desafiando musicalmente e, conseqüentemente, levando a música por caminhos ainda não explorados. Enquanto alguns se isolam do pop e passam longe do hedonismo em nome da experimentação, outros o tomam como ponto de partida e descobrem/criam um jeito próprio de reescrevê-lo. E, assim, com os mesmo sintetizadores e guitarras alcançam algo que poucos artistas podem clamar, a unidade.
O Late of the Pier apareceu na mesma onda que trouxe o Klaxons (junto com mil outras bandas genéricas) e que voltou para assombrar cada um deles, menos de um ano depois, cobrando de alguns algo a mais do que uma festa animada ou uma maquiagem futurística. Como não era (e nem deveria ser) o objetivo de todos, muitos desses projetos morreram assim que o gênero começou a balançar diante da mídia na mesma proporção que surgiam novos
one (mini)hit wonders. No entanto, a cada single lançado - já foram cinco até agora -, o Lofp se destaca pela criatividade e pela fabrica de hits estranhos e dançantes.
LOTP

CRIA DE MUITOS PAISCom produção do onipresente Erol Alkan, a estréia do quarteto no mundo dos
long players mostra que entre as trezes faixas (incluíndo a escondida "Very Wav Wet Wipes") há de espaço para tudo (Queen, Black Sabbath, Brian Eno, Gary Numan, new rave, new wave, rock 70s, grunge, britrock), mas sem nunca sair da ótica cheia de personalidade da banda. E se a introdução ao álbum com "Hot Tent Blues" lembra quando as guitarras soavam épicas, para serem ouvidas em estádios gigantescos, "Broken", pega a mesma afinação e a faz dançar entre pads climáticos e influências britânicas. No final da faixa, recortes de linhas sintéticas são transformadas na convidativa festa de letras dramáticas propostas por "Space And The Woods". De deixar Devo e A-ha orgulhosos de sua mais nova cria.
Percussão africana e sintetizador preguiçoso acompanham a gostosa levada de "The Bears Are Coming" até o seu break rockeiro. Depois disso a música evolui para um ataque 8-bit repleto de gritos, e encerra antes dele incomodar. "Heartbeat" abre mostrando como a new wave soa em 2008: baixo cheio de groove que dominam até guitarras setentistas roubarem a cena. Enquanto o refrão "A heartbeat, a flicker, a line" se repete à exaustão, num mantra nonsense. "Focker" encerra a tríade eletrônica de maneira épica: vocais distorcidos, quase zumbis, que precedem a excelente batalha de sintetizadores. De deixar "Shake A Fist" do Hot Chip envergonhada.

O lado rockeiro do álbum passa longe das palhetadas sem sentido da maioria das bandas atuais. "The Enemy Are The Future" começa tímida, ainda com vocal baixinho, até o momento que um Freddie Mercury punk aparece na gritos de Samuel Eastgate para um pouco depois emergir a base num caldo eletrônico. "Whitesnake" engana com seu começo delicado, mas se mostra a mais pesada de todo o disco. Difícil de definir, soa como um grunge eletrônico misturado ao britrock. Vale a pena checar.
"Bathroom Gurgle" encerra os 42 minutos do álbum trazendo um lado mais escuro para as pistas de dança. Seu sintetizador mutante ora lembra Metronomy ora lembra A-ha, mas mais uma vez o lado psicodélico da banda impera e os característicos breaks mudam a cara da música mais uma vez.
I'M A WEIRDOAfundados em seu próprio mundo psicodélico e dançante, o Late of the Pier ignorou a morte da cena que os pariu, buscando uma identidade mais forte entre influências conflitantes. Lançou um dos melhores álbum do ano. Porque as vezes para criar bom pop num mundo repleto de (re)lançamento e pastiches, é preciso mergulhar entre os mais estranhos para criar algo inédito.