Festival é marcado por diversidade musical, organização impecável, calor e discursos políticos
Lalaipalooza

Foram três dias grandiosos em todos os sentidos no Lollapalooza, em que 225.000 pessoas passaram pelo Grant Park de Chicago, local em que o festival tem acontecido desde 2005. Mais uma prova da falta de modéstia dos festivais dos EUA, num line-up com mais de 120 atrações em que muitas vezes escolher o que ver foi a tarefa mais árdua.
Jovens multicoloridos e famílias, incluindo muitos bebês, marcaram o festival criando um clima pouco comum nos nossos festivais brasileiros. A temperatura média foi de 35º C - o jeito era se refugiar nos jardins cobertos por árvores ou nas tendas, como a do MySpace, com seus jatos de água. A organização foi impecável: bares e banheiros espalhados por todos os cantos não deixaram ninguém na mão. Foram oito palcos, sendo um dedicado às crianças que incluía na programação até uma "escola do rock".
Resumindo: Lollapalooza é um festival que beira à perfeição, e um verdadeiro louvor à música, já que não se resume ao rock, mas com uma boa dose de música eletrônica e hip-hop. A grande vantagem é que o festival acontece no meio da cidade, sem necessidade de logísticas desanimadoras para chegar no local, e muito menos de camping
in loco. Foi ainda a primeira vez na história o Lollapalooza teve seus ingressos esgotados.
Grant Park - Chicago, Illinois (EUA)

Comida farta, bebida e cerveja por US$ 5,00. Também era possível ter água grátis em dois pontos do parque, após encarar uma boa fila. Mesmo com a temperatura lá em cima, não foi registrado nenhum acidente grave e no decorrer dos três dias menos de 15 pessoas foram presas por desordem. O clima era de festa e alegria. Sorrisos estampados em um público educadíssimo. Mas nada é perfeito: o sistema de som no palco principal AT&T tinha péssima audição para o público posicionado na lateral esquerda e no fundo do palco.
A reciclagem também foi um dos pontos fortes no recolhimento da tonelada de lixo produzida durante os três dias. Por todos os cantos se viam placas ROCK & RECYCLING e carrinhos recolhendo lixos, além dos latões separados para reciclagem de plástico.
O MAIOR HOMENAGEADO: NO-SHOWBarack Obama, mesmo não tendo comparecido ao festival como diziam os ruídos, esteve presente em camisetas e uma tenda pró-Obama dando a ele uma aura de rock-star. Confira agora a cobertura dia a dia dos shows.
SEXTA-FEIRA - 01/AGOROCK, PUNK CIGANO, PRIMEIRAS MANIFESTAÇÕES PRÓ-OBAMA E A CATARSE EMOCIONAL DO RADIOHEAD AO VIVOA primeira boa surpresa da tarde foi a banda inglesa
The Enemy, formada em 2006 e que já abocanhou prêmio de melhor banda nova no NME Awards. O guitarrista e vocalista Tom Clarke embalou o público num ótimo show brit-rock marcado por guitarras pesadas e batidas rápidas.
Na seqüência conferi
The Kills, que vi ao vivo no extinto Campari Rock em São Paulo, num show bem mais maduro e seguro. VV entrou reinando absoluta e linda com "URA Fever". Foi difícil abandoná-la para seguir para o palco ao lado para assistir
Louis XIV trajados em seus terninhos e cabelos impecáveis, mesmo com o calor insuportável, num verdadeiro show glam-rock. A banda, que lembra Killers não só no visual mas também na musicalidade, foi prejudicada pelo calor que fez com que o vocalista Jason Hill se despisse um pouco da pompa, pedindo licença para tirar o terno fazendo a mulherada ir à loucura pedindo para ele tirar mais - e pelo som que falhou seguidamente.
A parte mais divertida estava por vir:
Gogol Bordello que dominou o palco AT&T e fez todo mundo dançar. Foi um dos pontos altos do festival. Ao redor se viam garotas com bambolês embaladas pelo som gypsy punk e pela alegria contagiante que vinha dos nove integrantes da banda. Gogol, uma mistura de Borat e Frank Zappa, vestia roupas multi-coloridas e pulava incessantemente de um lado ao outro do palco. Impossível não se deixar contagiar pelo clima de festa que descia do palco e tomava conta do público. Um show para não deixar passar. Eu que quase passei, dancei até o final para então dar a vez a
Cat Power na outra ponta do parque, e que fez um show mediano. Sua performance é muito mais impactante num local menor, como o que ela tocou em sua passagem por São Paulo.
Kele Okereke é fã de Obama

A parte a seguir foi a mais difícil de todas, pois em todos os palcos tinha atrações imperdíveis: nossos brasileiros
CSS,
The Raconteurs,
VHS or Beta e Bloc Party espalhados por todos os cantos do parque. Decidi que tentaria dividir esta hora da melhor forma possível e falhei.
Voei para o
Bloc Party e fiquei o tempo todo acompanhando o vocalista Kele, que vestia uma camiseta do Obama escrita "Progress", num show médio prejudicado pelo som baixo que empolgou apenas quem estava muito próximo ao palco. O auge foi quando tocaram "Banquet" e "This Modern Love", hora em que o parque quase veio abaixo, e encerraram com "Helicopter." Na noite seguinte pude conferi-los novamente no House of Blues, em que dividiram o palco com Does It Offend You e CSS, num show muito mais empolgante em que tocaram "Banquet" duas vezes e Kele se jogou no meio da galera e foi carregado (e ovacionado sem parar) pelo público. Ao contrario da apresentação no Lollapalooza, eles fizeram o House of Blues tremer.
EIS A HORA: RADIOHEADThom Yorke é fã de Modeselektor

E o grande momento esperado do festival chegou. Era um corre-corre danado para chegar o mais perto possível do palco do
Radiohead. As pessoas já se acotovelavam e numa área bem grande em volta do palco era impossível respirar. Apesar de serem 20h, o dia ainda estava muito claro, o que deu menos impacto na iluminação espetacular durante a primeira hora de show, mas isso foi o de menos.
O público boquiaberto demorou a assimilar o início do show com "15 Step". A emoção corria solta e todos estavam com o olhar fixo no palco ou no telão. Quando entrou "Everything in It's Right Place", surgiram fogos de artifícios do lado de fora do parque, que duraram até "Fake Plastic Trees" e a chuva colorida que caía do céu completou o espetáculo. Ao meu lado eu enxergava algumas pessoas enxugando lágrimas (inclusive eu!) pelo fantástico espetáculo, que é o que Radiohead faz. "In Rainbows" foi tocado inteiro, "Paranoid Android" e "House of Cards" levaram o público ao céu. Thom Yorke se mostrou mestre ao conduzir os mais de 75.000 presentes numa seqüência emocional, com músicas mais introspectivas intercaladas com as mais agitadas, e fez todos saírem em transe apos fechar o show com "Idioteque".
Foi um final perfeito para o primeiro dia.
SÁBADO - 02/AGOMGMT ENFIM CONVENCE, ELECTRO-ROCK FAROFA, FREE HUGS, E O BATE-CABEÇA DESCONTROL DO RAGE AGAINST THE MACHINEO sábado parecia mais arejado, mas o Lollapalooza estava mais cheio neste dia. Corri para pegar o show do
The Ting Tings logo cedo (12h45), mas perdi porque estacionar em Chicago nao é tão simples. Entrei e fui direto para a área do MySpace, onde o MGMT entraria em minutos. Atravessar o local e chegar próximo ao palco foi uma tarefa que consumiu quase meia-hora.
A tarde foi marcada por bons shows como o
MGMT, que fez um bom show dançante superando as expectativas que eu tinha em relação a sua performance ao vivo. "Time to
Uffie

Pretend" e "Kids", que encerrou o show com o Ben vestido numa bata hippie e pulando de um lado para o outro no palco, fez todos cantarem criando um clima perfeito para iniciar o sábado, enquanto Booka Shade no palco ao lado chacoalhava o público com suas batidas eletrônicas dando um aspecto mais raver ao festival.
O momento relaxante veio com o show vigoroso da banda de rock instrumental
Explosions in the Sky, que se apresentava em um dos palcos principais. O clima era familiar com a maioria sentada ou deitada na grama, enquanto ao meu lado uma garota segurando uma placa "Free Hugs" distribuía abraços a quem passava, criando uma sintonia perfeita com um grupo de crianças de aproximadamente três anos corria de um lado para o outro com seus moicanos coloridos. Foi um dos momentos mais tranqüilos e gostosos durante os três dias do festival. Hora para comer, tomar cerveja e conversar com os amigos.
Foi um choque sair do show catártico do Explosions para se jogar na tenda em que o
Does It Offend You, Yeah? fazia um DJ set irregular, que ia de Gun's Rose a Daft Punk e Digitalism. Sem qualquer técnica e deixando uma musica terminar para então entrar outra, o trio causou barulho e transformou o local em uma grande festa recheada de hits. A surpresa foi a visita do Ting Tings, que passou a metade do set se divertindo com a galera.
MUDAR O MUNDO, OU FOGO NO SENADO!O restante da tarde foi com
Uffie, toda poderosa num micro shorts de paetês, que dominou um público mais jovem e interagiu bastante com todos. Broken Social Scene fez um show divertido com direito a manifesto político sobre Obama e a frase "Change America, Change the World", enquanto curiosamente uma bandeira americana que tinha logos de grandes marcas no lugar das estrelas balançava.
Rage

A grande surpresa veio com
Rage Against the Machine que dividia o fechamento do sábado com
Wilco. O local estava intransitável e a banda entrou - literalmente - quebrando tudo com "Testify" e o show teve várias interrupções devido às pessoas que estavam sendo esmagadas na frente do palco. O vocalista Zach De La Rocha chegou a interromper o show por quase cinco minutos para implorar que o público desse dez passos para trás e acabou tendo intervenção do chefe de segurança para aumentar o apelo do pedido. Fez também um longo discurso político sobre a certa ida do Obama ao poder, dizendo que caso ele não retire as tropas do Afeganistão e do Iraque, muitos americanos vão botar fogo no Senado.
Coincidentemente neste mesmo dia eu presenciei um manifesto contra a invasão do Irã no centro de Chicago.
DOMINGO - 03/AGOO SHOWMAN KANYE, MATINÊ HIP HOP, GNARLS BARKLEY ATACA NOS COVERS E NINE INCH NAILS MOSTRAM SUPERIORIDADE
Gnarls Barkley

Foi o dia mais vazio do Lollapalooza e com menos atrações de peso. Cheguei lá a tempo de pegar o show da dupla canadense
Chromeo, um dos shows mais divertidos. O vocalista Dave 1 falou bastante, riu, dançou e várias vezes fez o público rebolar. A tarde que tinha se iniciado refrescante, esquentou bastante com as tendas lotadas e o público dançando ininterruptamente. O
MC Saul Willians, que tocou logo após o Chromeo, reclamou sobre o fato de ter que escolher entre os shows do NIN e Kanye West fazendo boa parte concordar. O domingo foi o dia mais hip-hop e o parque foi invadido por típicos rappers americanos, o que não se viu nos dias anteriores.
Durante o show dos veteranos
Blues Traveler o público cedeu e aproveitou o momento para tirar um cochilo ou jogar conversa fora em grandes rodas de amigos, mas logo seguiram mais animados para o show do Gnarls Barkley, que disputava a atenção com Girl Talk e Love and Rockets.
A entrada do
Gnarls Barkley foi triunfal. Enquanto a bateria parecia prestes a explodir, Cee-Loo Green entrou gritando "Chi-town make some noissseeeeee", e o show também esteve entre os mais dançantes. Impossível não se render. O show contou com covers das músicas "Gone Daddy Gone" (Violent Femmes) e "Reckoner" (Radiohead). E, como era de se esperar, levou o público ao delírio com a batida "Crazy", mas, de novo, foi impossível não se render.
Kanye

No outro palco principal, o
Love and Rockets fazia um show de rock marcado por guitarras pesadas, contrastando com o ambiente familiar que se instalou ao redor dos palcos "Bud Light" e "PlayStation". O final veio com três pessoas fantasiadas de bonecos listrados de preto e branco com cabeça gigante, que surgiram no palco dançando de um lado para o outro tirando risadas do público. Na hora seguinte eu me dividi entre os shows do
The National, o live set do
Flosstradamus e Mark Ronson. Os três palcos estavam lotados e o cansaço pelos três dias de maratona já era inevitável.
Mark Ronson fez vários covers e ainda afirmou que "Valerie", da banda do The Zutons era ele. Ahn?
Fiquei por aquele lado para pegar a entrada do
Kanye West, mesmo já sabendo que o Obama não apareceria. Kanye é um verdadeiro show-man, e foi difícil não se emocionar com sua entrada apoteótica com uma iluminação espetacular e muita fumaça. As pessoas cantavam, dançavam e não conseguiam desgrudar os olhos do Kanye. Na terceira música eu decidi abrir mão de um grande show para ver outro:
NIN.
Trent estava afônico

Valeu a correria que fiz para perder o mínimo possível. O show do NIN foi visualmente o mais lindo e emocionante. Tocaram várias músicas pesadas, mas também as introspectivas que se complementavam ainda mais com as imagens projetadas numa tela de LED à frente do palco e interagia com a banda atrás. Trent Reznor pediu desculpas pela voz que estava ruim e discursou sobre ter tocado no primeiro Lollapalooza, em 1991, quando ainda era uma banda desconhecida e não imaginava que anos depois, alem de estar vivo, estaria no palco principal fechando o festival.
Foi um final perfeito para um festival perfeito. Na saída apenas uma certeza: a vontade de estar lá novamente no próximo ano.
Fotos oficiais: Dave Mead, Matt Ellis, Mathew Taplinger e Zachary Mastoon (Caural)