"Pode alguém fazer obras que não sejam de arte?"A frase, ditada por Marcel Duchamp em 1913, anunciava uma das mais importantes revoluções no mundo das artes em toda a história: antes dele, apenas nos resumíamos a meros contempladores das obras de arte. Depois de Duchamp nosso cérebro foi posto a funcionar. Será que um urinol é arte? O que será que significa? Porque ele fez isso? Posso achar isso bonito?
Duchamp (1874 - 1968) começou sua carreira como pintor, mas logo passou a desobedecer cada vez mais os padrões e idéias tradicionais que regiam o mundo das artes. E foi justamente esse comportamento libertário e anárquico que fez dele o mais influente artista dos séculos XX e XXI.
Duchamp e sua roda de bicicleta

A exposição que acontece no Museu de Arte Moderna de São Paulo até o dia 21/set traz um ótimo panorama das principais obras do artista, apresentando mais de 120 peças dispostas em "temas" que abrangem todas as facetas de sua carreira: as ilusões de óptica, o uso inovador da perspectiva, as transparências, o acaso, o humor, o erotismo, e principalmente o ready-made, princípio criado por Duchamp que defendia a idéia de que uma obra de arte não deveria ser como algo sagrado, feita pra ser posta num pedestal e admirada passivamente, e produzida apenas em peças únicas e originais.
Ao retirar uma roda de bicicleta de seu contexto original e destruir toda a sua funcionalidade, chamando-a a partir de então de "ARTE", Duchamp subverteu a ordem e mudou o futuro para sempre.
Duchamp tirava suas obras de dentro das galerias, expondo-as em lugares completamente inusitados, e as produzia em larga escala. Inclusive, nenhuma das obras expostas no MAM são originais (todos eles já se perderam ou foram destruidas em algum lugar há muito tempo) e sim reproduções feitas pelo próprio artista ou autorizadas por ele a rodar o mundo. Entre os principais itens estão as várias maletas e caixas que traziam em seu interior dezenas de cópias de todas as obras de Duchamp, uma espécie de museu portátil que ele fazia para presentear seus amigos e garantir que elas permanecessem preservadas para sempre.
"Fountain"

A exposição também acerta em cheio ao mostrar todas as mais diversas áreas que Duchamp atuou, tendo sido o primeiro artista plástico a usar fotografia em seu trabalho (graças às hábeis mãos do genial fotógrafo Man Ray, bem representado aqui) e também participando de filmes experimentais e surrealistas, que também são exibidos em uma sala exclusiva para eles.
SIMILARIDADESNão é estranho dizermos que a música eletrônica tem muito a ver com Duchamp. Ele foi o primeiro sampleador, o primeiro remixer de obras arte, um verdadeiro DJ que propunha que seu público demonstrasse seus pensamentos e emoções através de seu trabalho. Ele mesmo usou a música como suporte de sua arte várias vezes, criando obras cujo principal instrumento eram os sons ao acaso, muitas vezes experimentando com os primórdios dos sons elétricos.
Marcel Duchamp: Uma Obra de Arte que Não é Uma Obra "de Arte" é um ótimo programa para entendermos (ou não) a arte moderna.
SERVIÇO"Marcel Duchamp: Uma Obra de Arte que Não é Uma Obra "de Arte""pq. Ibirapuera - av. Pedro Álvares Cabral, s/ nº, portão 3, Parque Ibirapuera,São Paulo, SP.
Ter. a dom.: 10h às 18h. Até 21/9.
Ingr.: R$ 5,50. Estac. (sistema zona azul - no portão 3).
Anexo - Sala Paulo FigueiredoDuchamp-me, mostra com cerca de 40 obras do acervo do museu de artistas brasileiros inspirados em conceitos do artista franco-americano.