Zé do Caixão está de volta em sanguinário encerramento de trilogia iniciada nos anos 60

Ele está de volta. 40 anos, alguns filmes pornôs e uma
candidatura a vereador depois, José Mojica Marins, o Zé do Caixão, estréia hoje seu longa
Encarnação do Demônio, encerramento de uma trilogia iniciada em 1964 com
À Meia-Noite Levarei sua Alma e seguida por
Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, de 1967, série que lhe rendeu apreço cult por todo o planeta.
É um retorno triunfal bancado por R$ 1,8 milhão de Leis de Incentivo e uma equipe de 70 pessoas, um estofo poderoso para que Mojica, 72 anos, voltasse a dirigir um
thriller de horror. Contexto muito diferente dos tempos da ainda pueril ditadura militar brasileira e reduzidos custos, que levavam seus filmes a terem um ar caseiro.
Encarnação do Demônio segue a vida de Zé do Caixão (aka Josefel Zánatas) em sua soltura depois de 30 anos preso num manicômio. O filme é como uma revanche catártica de Zé contra toda a humanidade: ele segue em busca pela mulher perfeita para gerar seu filho maldito, e para tal se maloca no cemitério de uma pequena cidade com sua equipe de seguidores e todo um aparato macabro de carnificina.

Para os mais novos que possivelmente não conhecem a saga (e nem o personagem) Zé do Caixão, pode incomodar um pouco a malemolência senil do timbre profético e do personagem, a consumir longos minutos no discurso de uma só frase - ao menos todos hão de se lembrar do fatídico "você, vocêê e VOCÊÊÊ!". Essa sensação é abrandada ao longo do filme, quando o enredo engata, e é fruto de uma discrepância de épocas. Nos anos 60 o terror de Zé do Caixão era envolto em mais suspense e cenas famosas eram "simples" enforcamentos e tarântulas peludas. Agora, é um gore necrótico, direto nas vias de fato sanguinárias para competir com
Jogos Mortais.
Palavras do próprio Mojica.
CENAS NOTÁVEISNão há os enlaces psico-românticos novelescos dos dois primeiros filmes. Josefel está faminto para buscar a mulher ideal para seu filho, e é agraciado com uma quantidade surpreendente de lindas mulheres dispostas a parir seu pequeno belzebu. Como provação (ou castigo mesmo), cenas perturbadoras: auto-canibalismo de bundas, cabeças escalpeladas, mulheres dentro de porcos e as eternas unhas de Zé (que já foram cortadas e no filme são recriadas em resina) adentrados olhos inocentes. E uma cena que deve ficar na antologia do terror nacional: uma mulher cozida por

queijo fervente e imaculada por um rato gigante. Na pré-estréia que este repórter assistiu, ninguém se retirou da sala em nenhuma cena.
Mas elementos antigos estão lá: os policiais ridicularizados, de novo contando com a ajuda de Santo Expedito (um deles é Jece Valadão, em seu último trabalho antes de falecer); machismo explícito; curandeiras e o misticismo afro-brasileiro erótico até numa inundação de sangue. 40 anos depois de ter escrito o roteiro do filme, Mojica inseriu pequenos flashes das histórias antigas, além de personagens que voltam para assombrá-lo. Apesar do sadismo, Josefel é humano e esse é seu maior dilema: a morte carnal e a religião são questões latentes e determinantes no filme (e na vida de Mojica
também).
Encarnação do Demônio é entretenimento puro, perturbador com uma certa dose de humor pela inverosimilhança aguda, o que faz o espectador relevar facilmente eventuais choques de gerações de um personagem criado há quase meio século. O que incomoda na verdade são algumas referências muito óbvias, por exemplo, uma japonesa andando no bairro da Liberdade, música oriental ao fundo na hora em que é atacada. Esse é um problema crucial na ambientação dos anos 80 no filme
Meu Nome Não é Johnny e na teledramaturgia nacional, que não consegue fazer um merchandising sem ser excessivamente publicitária. Uma questão de linguagem cinematográfica.
FIGURAS ILUSTRESNovelas à parte, o filme é uma preciosidade de referências atuais. André Barcinski (da Circuito/Clash, autor de
Maldito, premiada biografia de Mojica) faz uma ponta; Alexandre Herchcovitch é o figurinista do filme e figurante (como um travesti ao lado de Johnny Luxo). Geanine Marques (modelo e cantora do
Stop Play Moon) interpreta a Dona Morte.
Zé e o demo (Zé Celso)

Tem o cafajeste caricato de Jece Valadão e Milhem Cortaz como o vingativo Padre Eugênio, numa boa atuação que lembra o padre de
O Código da Vinci, interpretado por
Paul Bettany. Para os amantes da body art, tem uma saraivada de bocas costuradas no inferno (em que Zé Celso faz uma boa ponta como o demo) e suspensão corporal como tortura.
Encarnação do Demônio arrebatou sete prêmios no primeiro Festival de Cinema de Paulínia, cidade paulista que pretende ser a Hollywood brasileira. E foi escolhido para a mostra
Midnight Movies do Festival de Veneza . Mais do que um
lifetime achievement, o falatório em torno do filme são merecidos. E é melhor você assistir, porque senão...