O wigman brasileiro das picapes volta ao seu estúdio caseiro e fala sobre a vida de DJ, BPMs, aposentadoria e a saudosa festa Rebolado

No 11º andar de um prédio no alto da Vila Suzana (região do Morumbi - SP), Luiz Pareto recebeu o
rraurl.com para um papo regado de música, chá verde com gengibre, macarrão orgânico e afagos em suas duas simpáticas cachorrinhas. Ele está imerso na produção de três novas faixas, a serem lançadas no EP
Disco Biscuits em breve.
As músicas sairão pelo Rebolado, selo que é resquício da época em que o ex-ator carioca (ele chegou a atuar em
Armação Ilimitada!) realizou uma série de grandes festas de house, das mais concorridas desta década. A revelação no papo, que segue abaixo, não é das melhores: a Rebolado deixou saudades e dívidas de milhares de reais.
Hoje, 47 anos, ele é residente da Freak Chic (D-Edge) e viaja com regularidade para vários recantos do Brasil - ele voltou recentemente de festas (e passeios ecológicos) em Bonito (MS). Seu nome pipocou na cena brazuca nos anos 90, quando era residente do Hell's e do Latino, clube este que lhe gerou uma associação indefectível com a house music. "Não consigo tocar house a noite toda, de maneira alguma", confessa Pareto, que hoje bebe mais nas fontes suaves da neo-disco, do saudoso tech house, do punk funk e dos brokenbeats. Muito antes da ditadura da versatilidade na música, Pareto já ia de maracas latinas ao dub tech num instante. No entanto, não é qualquer sub-cena-gênero que o satisfaz: para ele a ditadura de hoje é outra, a do "minimal-electro-prog que todo mundo toca."
Na conversa, revelações sobre a indisposta saída da agência 3Plus rumo à Superbacana DJs, e a vontade de voltar ao cinema como aposentadoria das picapes, algo que ele pretende fazer em cinco anos. A entrevista segue abaixo, mas antes, o
streaming de duas de suas três novas faixas, já disponíveis em seu MySpace.
Flash Content
Coringa (aka Luiz Pareto) - (mp3)
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Coringa (aka Luiz Pareto) - Under The Globe (mp3)
DISCO BISCUITSFale um pouco sobre esse seu novo EP, Pareto.Vai chamar "Disco Biscuits" porque tem um arzinho disco. Vou lançar como Coringa porque eu não quero trocar de nome cada vez que lanço algo. Eu não gosto de som reto o tempo todo, então eu quero levar essa idéia para o lado de produtor. Por isso Coringa, a cartinha que substitui um monte de outras. Me dá liberdade de eu lançar o que quiser. O gringo pode não saber - "what the fuck is coringa?"', mas aí eu digo que é Joker, fácil de explicar. É a mesma coisa, baralho é baralho em qualquer lugar do mundo.
As músicas estão no
MySpace, eu já havia subido a "Nasty Love" antes, mas tirei. Nunca ficava satisfeito com a base e a batida. Eu queria uma coisa mais disco e só recebia elogio da galera broken beat, new jazz, que não era o público que eu queria atingir. Eu os respeito, adoro, mas achava estranho toda semana chegar um elogio desse pessoal. Aí estou finalizando novamente.
E como será o lançamento?PRESETS
"Todo mundo usa, mas é bom dar uma modificada. O máximo que pedem pra gente é que se formos lançar, é que nós temos que dar o crédito. Não se paga nada por isso."
Digital, porque não dá para ficar fazendo vinil no Brasil. A gente não ganha dinheiro vendendo disco, tocando por aí, é foda viajar e ter que pagar taxas de um produto meu como se eu tivesse importando. Pro alemão ou pro inglês que tem as prensas ali é mais fácil. Mas pra gente, pro esquema que os governos oferecem aqui, não dá.
Os dois primeiros releases do Coringa foram em vinil, mas depois já foi digital. Eu tinha plano de fazer agora em vinil também, mas na última hora eu desisti. A gente não gasta nada lançando digital e o alcance é o mesmo, porque hoje em dia tem cada vez mais DJ tocando com digital.
Você vê, pra fazer uma festa se paga o imposto pela quantidade de ingressos que você emite, não pela quantidade de ingressos que vende. Se você estima ter duas mil pessoas numa festa, você tem que pagar o ISS em cima disso. É difícil.
REBOLADOEu ia perguntar sobre isso. E a Rebolado? Desde lá você nunca mais fez grandes festas.Eu perdi muito dinheiro com a Rebolado... Com todas as edições da festa! Na época custava 30 mil reais para fazer uma festa dessas, e eu só tinha de retorno algo entre 17, 21 mil. O prejuízo de nove mil reais era eu que pagava. Eu não tinha DJ de playboy dentro da minha festa, então dificilmente um dono de uma empresa, de uma indústria patrocinava. Na Xarope também, mas lá o orçamento era menor.
Mas as festas sempre foram bem cheias, não?Sim, mas era tanta coisa para pagar que dava prejuízo. É difícil fazer festa no Brasil. Eu fiz quatro festas. A primeira em 2000 com o Azad Risvi e o Eddie Richards; a segunda com o Pure Science, e a terceira era pra ser com o Terry Francis, mas ele não veio. Foi a que eu menos perdi dinheiro porque ele devolveu a grana, então "só" perdi dois mil reais! (risos)

Aí teve a com o Dano lá no Club A1 onde era o Florestta. Depois dessa eu desisti. Imagina agora que você tem que ter um segurança para cada 20 pessoas dentro da festa, quer dizer, se a festa tiver mil pessoas você precisa de 50 seguranças. Tem que ter ambulância, aquela época eu já botava uma ambulância do lado de fora, tem ECAD, ISS, gerador. E na Inglaterra, que
dono de clube vai presoporque não consegue conter o uso de drogas... É um absurdo.
Eu tenho vontade de fazer a Rebolado de novo, mas não como uma festa regular, só de vez em quando para badalar o selo. Naquela época até pensei em fazer e vender para outros estados, mas o pessoal achava que era uma traição do que era a história da Rebolado, esse tipo de coisa. O pessoal tem saudades, mas o meu bolso não tem saudades nenhuma (risos).
Teve um público bem seguidor, acho que a Rebolado foi a hora que eu ganhei uma audiência que está aí até hoje seguindo que eu toco, que vai onde eu estou.
E Quais foram os outros momentos em que você conquistou um público fiel?FIDGET HOUSE
"Eu gosto bastante de fidget house, mas só Jesse Rose e Trevor Loveys. Odeio Sinden e Hervé, Switch gostava antigamente. Todos eles passam do limite, é só barulho! O Jesse é sofisticado, mas as crias deles eu acho extrapoladas"
A Rebolado foi a maior nesse sentido. O Latino foi quando as pessoas começaram a prestar atenção em mim, mas a cena era muito menor. Vieram as raves e o público aumentou, a quantidade de DJs aumentou, e eu passei a ser apenas mais um.
PRODUZIR: UMA NECESSIDADEE hoje tem a disseminação dos laptops, Ableton, etc. A concorrência não é maior hoje para os DJs do que aquela época do boom das raves?Hoje você tem que ficar sempre produzindo e lançando, infelizmente por isso as pessoas lançam uma música atrás da outra. Eu sinceramente não acho que saiam músicas incríveis o tempo todo. É igual quando um artista de pop ou de rock tem de botar um álbum por ano no mercado. É difícil, ter a criatividade para fazer um álbum e ter músicas incríveis sempre.
Mas as pessoas te cobram produções? De onde surge essa pressão?As pessoas têm que produzir para, basicamente, aparecer na mídia. Se o público gosta de te ver tocar ou não, isso não interfere. Importa bastante o tanto de notícia que você gera.
Mas comercialmente, há uma perspectiva financeira pro Disco Biscuits?Não, porque não vende tanto. Sempre o que eu vendo paga o que eu gastei - pelo menos na época do vinil. Não tem lucro. Eu quero é atingir um público variado, os produtores nacionais se preocupam muito em fazer uma música para se encaixar dentro de um determinado selo. Fazer Chicago house pra agradar os selos, ou a
Robsoul, sabe? O Jamanta (Crew) e o Anhanguera fazem música para esse público. Eu quero fazer o meu mercado, posso começar vendendo pouco, mas prefiro ir pelo meu caminho mesmo.
Paula Lima canta e Pareto solta as bases. TIM Festival 2005, Rio de Janeiro

A FIDELIDADE Três anos depois de se apresentar ao lado de Paula Lima no TIM Festival carioca, Pareto produziu a faixa "A Fidelidade" em parceria com a cantora, mas ainda não pode lançá-la por imbróglios com a Indie Records. "Eu fiquei um tempão esperando a gravadora decidir as coisas, e não sai disso. Tivemos que reescrever o contrato do nosso jeito, porque eles disseram que depois de seis meses a música não era mais minha. Isso era apenas algo para que ele pudessem lançar a faixa. Enfim, está emperrado", explica o DJ, que tem planos de fazer uma música com Clara Moreno.
APOSENTADORIAPareto interrompe o papo e volta ao Ableton, onde mostra detalhes da composição de "Nasty Love", no que eu digo que parece determinada música dos anos 70, e ele responde: "Putz, eu não ouço tanta música hoje a não ser pra trabalhar. Fica tão exposto a isso, que não ouço. Que quando eu vou tocar, eu volto pra casa e ligo é a televisão".
Mas você não ouve nada?Não muito, é para poupar meu ouvido, porque eu já tenho uma perda de 20% de agudo e médio no ouvido direito. Todo DJ tem alguma perda nesse sentido. Tem gente que só tem 10% de audição, eu ainda tenho 80%! Ano que vem já quero começar um curso de cinema, estou planejando já de parar de tocar.
Em quanto tempo você pretende parar?Eu pretendia em oito anos, agora já baixei o prazo para três ou cinco anos. Vou tirar o molde do meu ouvido e fazer um filtro que abaixa o som e mantém a nitidez. Ter que competir com o volume da pista, com o retorno e o fone toda vez que toco, é complicado.
Não tem cansaço (da profissão), é mais porque eu não estou a fim de ficar sem audição de um lado, entendeu? Você não gostaria de perder, eu imagino, e olha que a geração de hoje em dia sofre desse mal também porque usa muito fone de ouvido. É melhor você botar num som externo do que ouvir com esses fones internos.
BPMs: VELOCIDADE EM QUEDADa Rebolado até hoje, qual foi a mudança mais significativa na música eletrônica pra você?Ah, basicamente os BPMs que desceram, né? A velocidade das músicas caiu de lá pra cá, vem caindo no geral.
Você nunca foi uma pessoa de BPM alto.BOLHA PROXÊMICA
"Se você fica muito na cabine do Morcerf de olho, já leva bronca. Mas tudo bem, eu também não gosto disso. Já vi DJ sair da pista, atravessar, subir e por o carão pra ver o que estou tocando"
Na época do Latino nos anos 90 eu tocava bem rápido até, desde lá o BPM só desceu. Eu já desci o meu BPM em 1997, 1998, depois em 2000. Teve uma época que chegava a 140 (BPMs), e agora está numa média de 120 pra cima. Eu toco entre 115 e 127.
Não sinto falta da velocidade, estou tranqüilo quanto a isso. Quando vejo que sai uma música muito lenta impressiona um pouco. Com a neo disco o BPM começou a variar muito, vinham músicas incríveis a 111 BPMs, e a gente não sabia como ia tocar aquilo! E são umas músicas tão animadas que não merecem estar no começo da noite, tem que parar tudo e começar do princípio. Daí o que importa é o quanto a música é empolgante e o quanto ela é conhecida. Tocar só música nova dá uma esfriada na pista.
EX-3PLUSVocê já foi atração de mais de um Skol Beats, época que você era da Hypno (atual 3Plus). Como foi sua saída de lá?Eu saí da 3Plus porque eu nunca ia ao Sul, quando comecei a ir pra Floripa foi por conta de contatos que amigos meus tinham. Só que eles reclamavam e eu dizia que não ia deixar de ir para lá. Aí um belo dia eu fui tocar numa festa, foram duas pessoas na mesma noite falar comigo e elas falaram uma coisa muito parecida: "Pô, é difícil contratar você hein? Você nunca tem data". Na época eu tava com dois a três sábados vagos por mês, tocava sexta aqui, ou em outro lugar, e nos sábados folgava bastante, eu achava uma bosta.
@ Freak Chic, wigless

O cara disse que sempre ligava na 3Plus e eles diziam que não tinha data pra mim, e eu perguntei que dia ele quis me contratar. Calculei e foi um dia que eu fiquei em casa vendo televisão! Ele disse ainda que ficaram empurrando o Renato Cohen pra fazer set de house... Fiquei puto, isso foi antes de eu tocar. Depois que eu terminei de tocar nessa noite eu fui pro bar e outra pessoa, que eu nem conhecia, me falou a mesma coisa, inclusive a história de eles venderem o Renato Cohen. Faz uns dois, três anos isso.
VINIL versus CDE não faz muito tempo você só tocava com vinil, certo?Toco com vinil e CD. Prefiro CD do que laptop, Final Scratch, ficar instalando, desinstalando.. Enche o saco do DJ que toca antes, do que vai tocar depois. Sempre acontecem uns pepinos, aí perde meia hora do set com aquela confusão de gente tentando arrumar o som...
O vinil tem aquela coisa do som gordo, já o CD tem outro tipo de freqüência. Mas é uma diferença que os donos das casas noturnas podem mudar. Tem um aparelho que deixa todo mundo com a mesma qualidade.
O CD começou a intensificar só no ano passado pra mim, porque começou a encher o saco essa demora entre comprar um disco e ele chegar. Um disco bom até chegar todo mundo já tocou por aí. Digital você compra, baixa na hora e acabou.
CHART - LUIZ PARETO (AGO/2008)
Faze Action - "Original Disco Motion (Jay Shepheard Main Mix)"
Henrik Schwarz - "I Exist Because of You (Dixon's Stripped Down Version)"
Wagon Cookin - "Desejo (Atjazz Remix)"
Coringa (aka Luiz Pareto) - "Under The Globe"
Steve Kotey & Max Essa - "1974"
Nick Chacona & Anthony Mansfielld - "Thizzin"
Steel An' Skin - "Afro Punk Reggae Dub"
Frederic Sinful - "Crater Sand"
Jahcoozi - "Flatline (Aaron Hedges Remix)"
Johnwaynes feat. Hubert Tubbs - "Muzzle"
abs!
Estou ouvindo neste momento Coringa (aka Luiz Pareto)
Under the Globe. Incrivellllllllllll.
Mestre q eu amo p sempre.