Rua Frei Caneca: ser ou não ser gay
Futura sede do Casarão Brasil
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Rua Frei Caneca: ser ou não ser gay
Saiba mais sobre a polêmica em torno do projeto de transformar a Frei Caneca em rua gay
13.08.08 12:50
Douglas Drummond
Douglas Drummond
O estardalhaço travado sobre a possível transformação da Frei Caneca em rua gay fez a Associação Casarão Brasil, organização por trás do projeto, optar pelo politicamente correto. Ao deixar de lado os famosos codinomes gay friendly - Frei Traveca, Gay Caneca -, ainda mais divulgados depois da tácita negação do rótulo GLS pela Samorcc (Sociedade dos Amigos e Moradores do Bairro de Cerqueira César); a famosa travessa da Paulista, paralela à Rua Augusta, pode ficar conhecida com o turístico nome Rua do Respeito à Diversidade. Uma escolha neutra após críticas de segregacionismo e uma reconsideração da proposta.

Não espere que as placas azuis da rua se transformem em faixas coloridas. O nome é simbólico. Assim como as já conhecidas Rua das noivas (São Caetano), das grifes (Oscar Freire) e da iluminação (Consolação), a Rua do Respeito à Diversidade será mais um nome temático dentre as 59 existentes na cidade de São Paulo, todas com o apoio da Secretaria Municipal do Turismo. No entanto, há implicações concretas: uma total reformulação do projeto urbanístico do espaço com cafés, bares e calçadas temáticas.

"Não temos a intenção de chamar todos os moradores de gays; nem de agredir pessoas que agridem a nós. Mudamos porque o projeto foi recebido com hipocrisia", explica Douglas Drummond, que encabeça a iniciativa que a recente Associação Casarão Brasil tenta implantar. Hoteleiro, jornalista, presidente do Casarão e dono da sauna gay 269, famigerada por inúmeros entraves com a Prefeitura, Douglas conseguiu aglutinar através de sua influência um grupo de 40 empresários: donos de pet shops, proprietários de casas noturnas - todos gays e dispostos a investir muito dinheiro, de acordo com Douglas. Não só na reforma do Casarão mas na revitalização da rua, onde acreditam que o retorno financeiro é certo.

Porta e fila na festa de 13 anos da Loca: ponto turístico da Gay Caneca
Porta e fila na festa de 13 anos da Loca: ponto turístico da Gay Caneca


RESISTÊNCIA
A iniciativa, contudo, encontra resistência. Para a advogada e diretora da Samorcc, Célia Marcondes, o problema está em rotular como gay uma rua já consolidada e antiga. "Eles [os moradores] abominam essa idéia e qualquer outra", diz. Ela acredita ser desnecessário revitalizar a Frei Caneca por uma bandeira que considera segregacionista. "São os moradores que revitalizam a rua plantando árvores, por exemplo, reformando seus imóveis", diz a advogada. Vendo com desconfiança as idéias que o projeto arroga, ela conclui. "É alguém querendo fazer dinheiro com isso. É um empreendimento a mais para ele (Douglas). Quem disse que um simples empresário da noite pode revitalizar uma rua?"

Já Douglas não nega o estímulo comercial do projeto. "Recebi telefonemas de muitos empresários querendo investir. Nosso intuito é que o Casarão seja financeiramente independente para que possamos estender a idéia para o resto do Brasil e ajudar outras iniciativas". Por enquanto, a construção de 500m² datada de 1912, que ocupa o número 1057 da Frei Caneca, foi alugada por um período de cinco anos para ser sede da associação. "Essa sim vai ser a Associação Gay", arremata o empresário, entre risos irônicos. Uma reforma estimada em R$ 264 mil, totalmente bancada pelo grupo, promete deixar o casarão totalmente novo, com potencial para ser tombado como patrimônio histórico. "Conseguimos um contrato favorável. O proprietário acredita na associação e quer que ela fique para sempre ali. O direito ao ponto é uma garantia disso."

SEGREGAR PARA UNIR: NEM TODOS QUEREM
Apesar de todo o frisson em cima do projeto, o principal questionamento - e talvez o mais procedente - remete a outras políticas afirmativas, como a de cotas em universidades públicas para negros e outras que buscam abrandar prejuízos causados por algum tipo de dívida social. Ou seja, o uso da segregação como pretexto para impor respeito a minorias. O argumento de primeiro segregar para que, aos poucos, se conquiste uma convivência pacífica com a diversidade, também provocou uma cisão na comunidade gay, além de ser a principal crítica levantada pela Samorcc.

"O direito é igual para todos. Sem discriminação ou privilégios para quem quer que seja. A rua é pública. Não há diferenças. Todos são iguais perante à lei. É a rua Frei Caneca e sempre será, onde todos terão o direito a trafegar, trabalhar e morar", questiona Célia Marcondes. "O potencial da Frei Caneca vai muito além de rótulos. Eles são bem-vindos como ocupantes da rua, como pessoas que queiram se instalar no casarão. Só que daí para mudar um espaço já consolidado por décadas, não é factível, é um pedido impossível", completa.

Douglas considera a não-segregação uma crítica "correta". Mas rebate. "É uma medida que as principais cidades do mundo criaram. A Frei Caneca é conhecida no mundo inteiro como rua gay", diz, lembrando oportunamente de uma possível 'perseguição' a estabelecimentos LGBT. "Hoje, o homossexual é aceito sim. Mas ele tem que ficar trancado nos bares, nas boates, em lugares lacrados. Se uma boate gay não está lacrada, ela não consegue alvará de funcionamento. Essa segregação só vem a agregar e contribuir para que isso não ocorra mais", opina.

Embora falando em nome dos moradores do bairro Cerqueira César, a Samorcc atesta ter também o apoio de parte da comunidade GLS. "Recebemos diversos telefonemas de gays dizendo que isso é uma elucubração mental e que são absolutamente contra. Essa distinção pode representar um perigo para eles mesmos", fala Célia. No entanto, Douglas revela que a posição da Associação é de total desconhecimento do que está sendo feito. "Eles vêm questionando se vamos fazer sexo na rua. Já mandaram uma carta pro proprietário perguntando se ele sabia que vamos abrir uma boate gay no casarão."

Mesmo com as críticas de moradores e de parte do público para o qual pretende se dirigir, a associação insiste na necessidade de um espaço. "O estereótipo de gay, ainda com toda a aparente aceitação, ainda é o da vulgaridade sexual, da baderna. Não queremos ficar escondidos sob esse rótulo. Queremos mostrar, com segurança, o que sentimos por nossos namorados, que é amor; e não vontade de abaixar as calças dele. Tudo isso ao ar livre, como
Aviso no Shopping Frei Caneca: sina gay?
Aviso no Shopping Frei Caneca: sina gay?
todos", acredita o empresário. "Se as pessoas passarem por lá e virem esse clima respeitoso, a tendência é transformar São Paulo na rua do respeito à diversidade de uma forma geral."

RESOLUÇÕES
O projeto, previsto para passar pela Câmara Municipal, será apenas uma decisão feita pelos moradores. "Tivemos várias reuniões. A imprensa também acelerou. Então, a gente já comprovou que as outras 59 ruas não encaminharam projeto de lei." Segundo o empresário, é simplesmente com a mobilização de moradores e comerciantes que a oficialização da rua como a "Rua do Respeito à Diversidade" será feita. "Já encaminhamos um pedido à prefeitura, através da vereadora Soninha."

A reunião está marcada para o fim de agosto, quando a proposta será votada. A Samorcc acredita ser apenas uma idéia sem grandes chances de vingar. "Todo mundo tem direito de ter a idéia que quiser e não vamos fazer absolutamente nada. Mas evidente, que se a coisa ficar complicada, a gente tem a justiça aí pra resolver esses impasses", diz a representante dos moradores. Ela conclui. "A cidade de São Paulo não vai permitir uma coisa dessas."

As propostas da Associação Casarão Brasil
SAÚDE, MORADORES DE RUA, COMÉRCIO, ASILO, UMA RÁDIO E O CADASTRO DE TODOS OS GAYS BRASILEIROS NA INTERNET

A Associação pretende ser a primeira em São Paulo com porte para ajudar financeiramente outras instituições da causa LGBT. "Acredito que a principal diferença será o dinheiro", diz Douglas Drummond. O primeiro objetivo é cadastrar, por meio do site, todos os gays do Brasil com o propósito de organizar a comunidade e poder barganhar direitos oficiais. "Queremos saber quantos somos, o quanto pagamos de impostos e o quanto contribuímos".

Além disso, a construção de um centro de saúde no Casarão, baseada em pesquisa feita durante a Parada Gay este ano que revelou que 59% dos jovens não freqüentam os postos da prefeitura. A idéia é ter um tratamento diferenciado, feito para suprir necessidades específicas desse tipo de público. "Se você vai a um posto de saúde normal, há senhoras, velhos, crianças e mendigos. Tem gente de todo o tipo. Para um adolescente, lógico que não há identificação. E o maior problema hoje na população gay é não-exame. Eles não querem saber se têm AIDS. Isso é um problema social."

O único apoio oficial que o grupo pretende pedir é que ao menos um dos 94 abrigos para moradores de rua seja voltado para homossexuais. "O homossexual é muito maltratado. No caso dos travestis, eles são obrigados a deixarem de serem travestis. Se tiver pinto, tem que entrar no dormitório dos homens. Se não tiver, fica no das mulheres. Em muitos casos, eles são agredidos ."

O casarão já tem espaços sublocados para uma barbearia, floricultura e um café. O estúdio de uma rádio também está no projeto. "Queremos com isso que a voz da população GLS tenha o mesmo peso que os demais". Ainda em negociação, uma agência de turismo totalmente direcionada para o público gay pode ser instalada. Outro projeto, fora do espaço, prevê a criação de um asilo especial para gays.


Foto: César Bertelli, Flávia Durante, Felipe Moreira

Monique Oliveira
Monique Oliveira
Ela aposta na fluoxetina auditiva. Mas não foge de ruídos dissonantes quando o sol tilinta
comentários
Levvis JR
Levvis JR(13.08.08)
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PARTE 01 DO COMENTÁRIO

Acho válida a iniciativa, mas o ideal seria que tudo isso não fosse necessário e que tudo partisse da própria população de forma natural.... Afinal de contas trabalhamos,votamos, pagamos impostos. Portanto, todos temos os mesmos direitos....infelizamente não estaremos vivos para ver as coisas funcionando na terrinha seja para os gays, negros, deficientes ou qualquer outra classe discriminda.... Trata-se de uma questão de educação e base familiar.... Deixa eles tocarem o projeto pra frente e ver no que dá minha gente!
Levvis JR
Levvis JR(13.08.08)
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Quem sabe acaba dando certo? Se em São Paulo temos pontos considerados oficiais para roqueiros, clubbers, michês, garotas de programa etc, porque não uma rua para os gays? De uma certa forma isso é sinal de que estamos evoluindo... Uma coisa é vc ter um amigo negro, outra coisa é ser negro e ser confundido com um segurança dentro de uma loja sendo que ao seu redor existem mais quatro caras brancos.... Uma coisa é você dizer gostar de gay ou travesti, outra coisa é ser um, assumir quem você é 24 horas por dia pegando ônibus, fila de banco, indo a hospital público e ter que conviver com olhares estranhos, sorrisos debochados e comentários inoportunos... Entendo que se a maioria da população e até os governantes não estão preparados para lidar com as diferenças e tratar as pessoas da maneira que são sem causar constagimentos, discriminação e exclusão, alguém tem que fazer alguma coisa.

Abs,
uma das grandes evoluções apra que as crianças aprendam cedo como respeitar as pessoas já vai acontecer, pois a partir de 2009 as escolas publicas de sao paulo terão aulas de diversidade sexual, mas a educação vem de casa, e infelizmente não há educação, pois os pais já ensinam seus filhos desde pequeno a não gostar de certas pessoas pela sua classe social e sua opção ou até memso pela sua cor...
Richol Casa
Richol Casa(13.08.08)
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só para complementar...

Há a necessidade também de, por exemplo, extinguir do vocabulário da nova geração os termos pejorativos para designar uma pessoa homossexual, como bichinha, viadinho, boiola, e tantos outros... A criança tem que entender que isso não é xingamento.

Devemos mostrar às pessoas que o mundo muda, e os conceitos cristãos impostos a nós desde a antiguidade já não são mais tão válidos. A EVOLUÇÃO existe e quem não anda pra frente, vira estátua.

Um abraço
Richol Casa
Richol Casa(13.08.08)
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Bom, pelo que vemos, não se cria morais delimitando espaços. Acredito também no poder dos centros de apoio como ocorre em San Francisco e tal. Mas se parármos para pensar, onde é que se encontra o foco do problema, e analisarmos a Massa encontraremos o problema em diversos lugares. Como nas campanhas publicitárias (já que vivemos em um sistema capitalista e consumista) onde são raros os tratamento de gays como pessoas normais (isso quando aparecem). Ou até mesmo nas novelas que assistimos na TV, onde o personagem Gay é sempre afeminado, e não constrói uma família normal, não trabalha em rotinas normais, e tal. A educação deve partir de princípios básicos, se possível até mesmo desde a infância, onde a criança (a partir de seus 15 anos + ou menos a idade em que começa a ter a noção de "relações") deve ser adequadamente educada para tratar TODAS as pessoas com quem irá se deparar no futuro de maneira simplesmente NORMAL. Não queremos tratamento VIP de nenhuma das partes.
 
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