COLÔNIA: Mais do que um festival, a quinta edição do festival C/O POP foi um agitado e longo fim de semana que trouxe a Colônia muitos turistas da França, Inglaterra, Bélgica e cercanias. Cinco dias relativamente lights, com programação diversificada e público idem - era de se esperar, em um festival auto-denominado pop.
A central do festival era no Rhein Triadem, um imponente prédio às margens do rio Rhein, cujo interior lembra uma escola. O clima da parte "Pro" do C/O POP era de encontro nacional de estudantes, com sinalização improvisada, pôsteres e flyers espalhados por todos os lados, além de uma, digamos, decoração colaborativa que ganhava forma dia a dia. Durante o dia era possível ouvir novas bandas (nem sempre boas, mas novas) e visitar estantes de labels e artistas. Aliás, alguns selos fizeram um belo trabalho e montaram praticamente mini-clubes dentro da central.
Rhein Triadem: imponente

A quarta-feira foi morna no festival - muitos dos visitantes ainda não haviam chegado, e rolaram poucos shows (DAF em um clube; Atmosphere e Brother Ali em outro), os quais apenas fãs mais fervorosos aproveitaram. A festa de abertura também não foi muito animada; era claro que a diversão só começaria mesmo na quinta-feira. Veja agora o relato pessoal dos dias do evento.
Quinta-feira, 14/08 HERCULES AND LOVE AFFAIR, DE NOVO. O CINEMA RETRATA A VIDA CLUBBER ALEMÃ.
O pleonasmo do verão europeu é dizer que o live do Hercules and Love Affair não é tão legal quanto o álbum. Eu mesmo só fui conferir porque não consegui entrar no show do Crystal Castles. Os novos músicos nos metais e uma banda um pouco mais
Kalkbrenner: at the movies

treinada fizeram uma boa performance, agitada e com personalidade. Mas as duas lindas nos vocais ainda não conseguem dar conta do recado: quando Nomi se empolga, a voz desaparece, ou vira um berro desafinado. Nada que atrapalhasse a diversão da platéia, que recebeu os nova-iorquinos super bem, como é usual aqui em Colônia.
Enquanto isso, era lançado no CineDom o filme
Berlin Calling, cujo protagonista é interpretado por Paul Kalkbrenner. A festa de lançamento rolou logo em seguida no clube Bogen 2, casa da mensal Total Confusion. E lógico que o Paul Kalkbrenner tocou por lá, levando junto o irmão Fritz e os companheiros de Bpitch Control Sascha Funke e Zander VT.
Sexta-feira, 15/08A GRANDE NOITE DA KOMPAKT
A tarde de sexta-feira foi preguiçosa no Wasserspielplatz, parquinho com chafarizes eleito como o chill out oficial do evento. Sascha Funke tocou por lá mais uma vez. E como era de graça, era impossível não encontrar hordas de conhecidos - papo vai, papo vem, a festa Melt!Klub com o show do Television Personalities e do Teenagers no Gloria já havia começado e eu nem me liguei. Tarde demais. Caí em umas duas outras festas (lançamento de uma label chamada Yore, bem disco, e uma festa de "Electronic Vibes from India", divertida, mas por dez minutos no máximo) antes de conhecer a lendária Kompakt Total 9.
A festa aconteceu no Expo XXI, um centro de convenções relativamente grande, com paredes de tijolo aparente e cuja estrutura fazia a música soar abafada e grave demais. Para quem estava entre uma caixa de som e outra, no entanto, tudo soava maravilhosamente bem. Projetores equipados com espelhos móveis faziam os vídeos passear pelos pilares do galpão, decorado com toda a parafernália usual da festa Total Confusion (uns tubos de luzes a la D-Edge). A segunda pista era um pouco mais modesta e apertada - logo, a mais disputada e divertida da festa.
O live do Supermayer é meio que uma execução do álbum, sem grandes emoções. Quem surpreendeu mesmo foi o francês Maxime Dangles na pista 2 - live energético, retrô e inovador ao mesmo tempo. E o live do DJ Koze foi tão empolgante quanto sua faixa "
I Wanna Sleep" e fez o povo ir mais cedo pro Odonien, onde a festa com os Ed Bangers Vicarious Bliss e SebastiAn estava acabando para dar lugar ao after hours da Kompakt.
Esse after foi um capítulo a parte. O Odonien é o ateliê do artista plástico
Odo Rumpf e tem um clima
dump zoado, com banheiros químicos, dinossauros de metal cuspindo fogo e fame tags por todos os cantos. O Supermayer se rendeu e fez um ótimo DJ set, e o arroz de festas brasileiras Matias Aguayo fez um bizarríssimo live surpresa.
José González

Sábado, 16/08O CHARME INDIE NUM BARCO. INTERVENÇÕES DE CANETA E BRINDES.
Do after da Kompakt os sobreviventes voltaram para o Wasserspielplatz, estenderam suas toalhas na grama e descansaram ao sol, enquanto DJs tocavam disco e outros tipos de música feliz. Enquanto os amigos derretiam ao sol, peguei a U-Bahn e voltei pro Rheintriadem. Na sala da Get Physical rolava distribuição de camisetas de graça, estampadas na hora. Algumas bandas como Warren Suicide também estavam expondo lá, o que eu achei curioso. A essa altura do campeonato a central do C/O POP estava no auge da atmosfera do-it-yourself, com colagens por todos os lados e placas feitas com caneta Bic em folha de caderno.
A noite de sábado foi a mais charmosa de todas, com o concerto do José González a bordo do enorme barco MS RheinEnergie. O impagável Tom Ashcroft abriu a noite. Logo em seguida, com o barco ainda atracado, Norman Palm cantou belíssimas canções de amor, auxiliado por um livro "interativo" projetado no telão. Assim que o barco saiu para sua round trip pelo rio Rhein, Gonzáles comecou o concerto, para o delírio da calorosa platéia. O ponto alto do show foram as versoes do sueco para Teardrop, do Massive Attack e para Heartbeats, do The Knife. Com um nó na garganta, dispensei a noite Local Heroes, onde as principais festas da cidade aconteciam todas ao mesmo tempo, trazendo atrações como Larry Heard e DJ Mehdi.
Domingo, 17/08SVEN VÄTH E VILLALOBOS: ALEGRIA DAS MASSAS.

O domingo foi ensolarado com festas ao ar livre em diferentes pontos da cidade. Fui para a Pollerwiesen, onde Ricardo Villalobos e Sven Väth tocariam. A decoração (inspirada acho no ato da fecundação, com espermatozóides de neon flutuando em direção a um grande óvulo espelhado) entregava o espírito bagaceira da festa. O público era composto por bombados e tatuados, homens das cavernas, gays adolescente com background pokémon e patricinhas neon. Villalobos fez um set curto; não abandonou as raízes étnicas, mas também não inovou. A galera dançava no modo automático: passo pra lá, passo pra cá, Tum!
Sven Väth (foto) foi recebido com milhões de aplausos (aliás, aplausos e gritos se repetiam a cada break, a cada silêncio, a cada virada, a cada dois minutos e meio quase), e o alemão tocou um loop electróide interminável que deu lugar a uma mistura de electro e neo-trance, encostando às vezes no electrohouse fácil e barato. O momento mais legal do set foi uma faixa sem bumbo, sem agressividade, sem nada - apenas a melodia simples e um coro infantil, linda. A platéia não sabia como dançar sem a batida, e depois de uns dois ou três minutos começou a gritaria, um pedido ensandecido por beats e mais beats. E daí pro fim Sven baixou o nível, fazendo a alegria da moçada.
SALDO FINALO C/O POP é muito menos intenso que um Sónar. Até porque ele foi concebido como uma alternativa ao congresso
Popkomm, que deixou a cidade rumo a Berlim. Ao espalhar um festival por uma cidade inteira, a energia do público foi diluída. A presença de atrações diversificadas em clubes diferentes não favoreceu um possível
rendez vous de tribos e afins. Foi trivial, mas houveram bons momentos pelo quilate das atrações e o clima que a própria cidade proporcionava.