Uma vez synth-pop suave e dançante, o quarteto agora mostra faceta que cheira a armário
Quando eu ouço
V, o álbum de estréia do Van She, me vem a cabeça ombreiras, bigodes e teclados-guitarras (alguém sabe o nome da aberração?). Ou seja, boa parte dos elementos que fizeram com que bandas pop como o Polegar entrassem na vida da sua irmã mais nova (no meu caso, mais velha). E não me surpreende nada ver que em suas novas fotos de divulgação a banda adotou todo esse estilo em ordem de se estabilizar como oitentista.
Até aí tudo bem. Os anos oitenta são a influência do momento na Austrália e essa nova geração synth-pop tem criado faixas tão boas quanto as que os influenciaram, mas isso porque ninguém caminha pelo sombrio mundo das covers. E infelizmente, além da imagem de pêlos em determinados locais da cara e ternos mal cortados, é essa a impressão final que
V passa: um pastiche do lado abominável da geração 80.

"Memory Man" abre o álbum com aquela falsa introspecção que só um ego gigantesco pode proporcionar. A faixa é séria, arrastada e se leva muito a sério. Nem uma fina camada de sintetizadores consegue tirar o amargo gosto de U2/Coldplay empregado nos chatos e sussurrados vocais, tão profundos quanto o top 10 da MTV Brasil. Por sorte, "Cat & The Eye", faixa "antiga" do grupo, os leva a um lugar seguro do gostoso
soft rock . Lembra Phoenix, dá para tocar nas rádios e não espanta pelo ar assumidamente pop.
Quando o baixo do Van She se lembra que sabe dançar, "Changes", "Strangers" e "It Could Be The Same" aparecem em seqüência se destacando da medíocre maioria. É o synth-pop australiano orgulhoso com suas perfeitas medidas de synths, guitarras e vocais sensuais. A tríade é tão forte que suas expectativas se elevam mais uma vez e você acha que a terra que pariu
In Ghost Colours está prestes a alcançar novamente a lista dos mais ouvidos do seu iPod.
Ledo engano.
V te apresenta em seguida uma tríade que, quando boa, parece com B-sides ruins do New Order. Sem inspiração, emoção ou qualquer motivo que te faça querer ouví-las novamente, as faixas não possuem porque existirem. Se o álbum não tivesse demorado três anos na confecção, dava até para jogar a culpa na pressa em alimentar o hype com um lançamento maior. Mas nem isso. O excessivo número de "fillers" (faixas-enxertos que nunca seriam singles) só mostrou que o amadurecimento do festeiro quarteto veio em forma de uma preguiçosa nova face, que nem bigodes fashionistas são capazes de deixar atraente.
Há um ano o quarteto foi uma das principais atrações do Nokia Trends e teve sua fraca apresentação justificada pela imaturidade do grupo, que até então só havia lançado um EP com algumas faixas. Contudo, essa falta de conteúdo volta a atacar na estréia do grupo no mundo dos long players. O que os jogaria na grande estante de bandas que você gosta de uma ou outra faixa, mas jamais farão parte da sua lista de favoritas. Pelo menos eles ainda têm Van She Tech, o lado eletrônico do quarteto que trata as faixas de outros artistas como eles deveriam tratar as deles: dançantes e interessantes. Nostalgia tem um limite, e geralmente blazers com ombreiras indicam o seu fim.