Tim Simenon retorna depois de 14 anos mais eletrônico (mas não menos romântico).

Há 21 anos, o Bomb The Bass lançava o single "
Beat Dis" sequer imaginando a revolução que causaria em toda a música eletrônica - e por tabela na música pop - das décadas seguintes. Seu primeiro disco,
Into the Dragon (1988), foi o maior emblema da acid house, levando a arte de samplear a limites extremos e fazendo nascer um dos mais essenciais discos da música eletrônica em toda história.
Depois de tanto barulho,
Tim Simenon, o cérebro por trás do
Bomb The Bass, resolveu se acalmar. Seus trabalhos seguintes foram diminuindo consideravelmente as BPMs, mas sem perder a qualidade.
Unknown Territory (91) e
Clear (95) são recheados de belíssimas faixas, que pendem mais para o lado trip hop atmosférico do que para a anarquia acelerada de
Into The Dragon.
A notícia de que Simenon preparava um novo álbum animou a todos. Quatorze anos depois do lançamento de
Clear, o produtor resolveu deixar de lado um pouco as viagens dub/trip dos trabalhos anteriores e caiu de cabeça num território mais denso e introspectivo da música eletrônica moderna.
Future Chaos coloca num liquificador influências do techno, deep house, space disco, ambient e até dubstep, criando uma mistura difícil de posicionar dentro de um só rótulo.
capa do single Fuzzbox

Simenon escolheu o caminho da produção analógica para nortear seu
Future Chaos numa viagem levemente retrô - boa parte dos samplers são produzidos usando instrumentos antigos como sintetizadores vintage (minimoog) e afins. A principal façanha de Simenon foi conseguir fazer um disco que soasse retrô, mas sem cheiro de mofo. É como se o
Massive Attack fosse produzido pelo
Gary Numan dos anos 80, mais eletrônico, mas sem perder a ternura.
Future Chaos é também um trabalho colaborativo. O estrelado time da seleção de Simenon inclui
Mark Lanegan (ex-vocalista do Screaming Trees e Queens Of The Stone Age), os ótimos
Fujiya & Miyagi (numa das melhores faixas do álbum, "Butterfingers", que também ganhou um remix de
Adamsky),
Jon Spencer (Blues Explosion) e Richard Thair (do projeto
Toob). Paul Conboy, do
Corker Conboy e A.P.E., canta em cinco faixas, e também co-produziu e co-escreveu boa parte do disco.
O dub que o produtor sabe fazer tão bem dá as caras em diversas faixas, mas pode ser visto mais facilmente em "Hold Me Up". Faixas mais pop, com vocais bem pegajosos e beats pulsantes surgem em "So Special" e "Butterfingers", esta última com a característica voz sussurrada de David Best do Fujiya & Miyagi. "No Bones" é uma climática viagem ambient, e "Fuzzbox" e "Burn the Bunker" trazem de volta o lado mais dance do Bomb the Bass que infernizava as pistas com seus beats pesados.
vídeo de "Butterfingers" feat. Fujiya & Miyagi
Este grande número de colaboradores e ritmos poderia ter feito o álbum se tornar uma grande bagunça, um verdadeiro
chaos... mas, como um maestro, Simenon conseguiu orquestrar tudo e todos de modo a produzir uma obra coesa do começo ao fim.
Future Chaos não se parece com uma coletânea de nove faixas de diversos grupos, mas sim um pequeno curta-metragem em nove capítulos. Valeu a espera.