ELETRONIKA 2008
O palco principal do Eletronika 2008
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ELETRONIKA 2008
Fernanda Takai com Pizzicatto Five, Instituto apresenta Tim Maia, Guizado e M. Takara foram destaques absolutos da sétima edição do festival de Belo Horizonte
02.09.08 16:55
Foram três dias destinados apenas a música nessa sétima edição do Eletronika, novamente na capital mineira. E mais uma vez, o festival se reinventa e no lugar de grandes nomes internacionais e foco maior a música eletrônica, essa edição cedeu espaço ao crescente cenário independente nacional e a alguns artistas que permeiam o mainstream sem necessariamente deixar a qualidade de lado. E assim, sai LCD SoundSystem, Battles e The Fields de 2007, e entra Mallu Magalhães, Instituto apresenta Tim Maia Racional e Fernanda Takai com Pizzicatto Five.

O rraurl.com foi convidado pela produção do evento para checar essas mudanças e o seu resultado no festival, e já podemos adiantar que o que pode assustar num primeiro momento, foi ganhando pontos aos poucos com escolhas acertadas e algumas apresentações surpreendentes. Apesar de muitos desses acertos terem seu brilho ofuscado com escolhas ruins de produção - como terrível fato de ter que se pagar de 20 a 30 reais (dependendo de quão cedo você comprasse o ingresso) por apresentação das bandas alternativas, algumas ordens de shows não faziam uma seqüência lógica e a falta de uma cara de festival grande.

QUINTA 28/AGO
Fernanda e Maki
Fernanda e Maki
Tocando para o teatro do Palácio das Artes quase cheio, Fernanda Takai, uma das poucas artistas que o mainstream brasileiro ainda pode se orgulhar, fez show com repertório de sua carreira solo. Sambas clássicos, novas bossa novas e baião eletrônico se mostraram frágeis e extremamente belos no vocal delicado da cantora. Iluminação impecável e banda afiada - John, o marido da Fernanda, também do Pato Fu, tomava conta das guitarras -, só contribuíram para o show mais doce do festival. No entanto, a participação de Maki Nomyia, vocalista do Pizzicatto Five, apresentou um gosto desconhecido ao show que foi difícil de ser esquecido: a pimenta.

Entrou deslumbrante com roupas que só uma japonesa consegue vestir sem parecer caricata, e fez parecer simples a missão de alcançar notas agudas de forma severa e elegante. A figura engraçadinha/desajeitada da Fernanda quase se apagou nas coreografias para a clássica "Twiggy Twiggy". Maki ainda forçou o português para cantar parte de "O Barquinho", de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, numa versão acelerada e cantada em grande parte em japonês. "Made in Japan", música do Pato Fu, foi cantada com nova roupagem em homenagem a "verdadeira japonesa no palco", como disse Fernanda, encerrando a participação de Maki.

Fernanda Takai e banda
Fernanda Takai e banda


Covers de artistas consagrados em diferentes áreas foram presença constante no repertório da descendente. Nara Leão, Duran Duran e João Gilberto retiraram aplausos da plateia que voltou a vibrar e dançar quando Maki retornou ao palco para o bís, novamente com a faixa "Twiggy Twiggy". Excelente abertura de festival.

Após um breve intervalo, a banda mato grossense Vanguart teve a difícil tarefa de encerrar a noite. Grande parte do público debandou do Palácio das Artes e perdeu a chance de assistir o emocionante e participativo show do quinteto. Hits do brilhante álbum de estréia Vanguart e algumas faixas novas, fizeram com que o público restante se concentrasse na boca do palco. Entre pedido de músicas e fortes aplausos, Helio Flanders, vocal, violão e gaita, confessou ser "um dos melhores shows da banda".

Hélio do Vanguart
Hélio do Vanguart
Até poderia criticar o show por ter sido extenso demais, mas ao final de cada música as pessoas pediam para continuarem. Segundo a banda, eles só deixaram o palco após terem acabado todo seu repertório. Sorte que a qualidade das músicas não decaiu momento algum, dando a liberdade para Helio cantar duas composições novas apenas com ajuda do seu violão e gaita. No final de uma delas, ele disse estar apaixonado e dedicou a música sua garota. Nos bastidores descobri que ele estava falando sobre a Mallu Magalhães. Fofo.

SEXTA 29/AGO
A segunda noite começou mais cedo e teve os primeiros shows da sala João Ceschiati. Por volta das 20 horas, Guizado entrou no palco e mostrou que o Brasil possuiu uma cena underground ótima. Trompete, guitarra, baixo, bateria e muitos ruídos eletrônicos criaram atmosfera densa no pequeno teatro. As colagens cheia de personalidades dos mais variados estilos (dub, jazz e rock são só algum deles) dão a esse o título de melhor show instrumental do festival.

Guizado
Guizado


Num primeiro momento o som do PexbaA cativa pela criatividade. Afinal, a banda mineira chegou até criar língua própria para suas músicas, no entanto, após alguns minutos de faixas que possuem mais cara de jam do que de canção ficou faltando um poder de foco maior. Pois instrumental da banda se mostra bastante mutante, soando completamente diferente de uma faixa para outra, apesar do vocal sempre limitado a grunhidos e variação de tons.

Hurtmold, Instituto e São Paulo Underground são só uma das ocupações de M. Takara, que já havia participado do Eletronika em 2004. Não havia como acontecer um show ruim com esse curriculum, e claro, não aconteceu. Cantando num microfone repleto de efeitos e soltando bases e barulhos de um laptop, um mixer e um trompete, Maurício, acompanhado de um baterista e um percussionista que às vezes assumia um trompete, fez um show rápido e poderoso. Foi o primeiro a receber pedidos de bís na sala João Ceschiati.

M. Takara
M. Takara
Por causa de um atraso nos shows do teatro, quando cheguei a sala principal o Curumim já estava no meio de sua apresentação. O Curumim, assim como o M. Takara, é figura ativa na cena brasileira ele, inclusive, já havia se apresentado no mesmo dia como baterista do Guizado. Porém, ao contrário de seu contemporâneo o público, que preenchia menos da metade do teatro, não parecia responder suas faixas de groove fáceis, apesar de ter sido um bom show.

Mas foi só o show do Instituto apresenta Tim Maia começar para as pessoas levantarem de suas cadeiras e chegarem o mais próximo possível do palco para dançar com big band brasileira. Esse show que contava com a participação de Negra Li, B Negão, Curumin, Kamal e Carlos da Fé (da banda do Tim Maia), foi sem dúvida o mais bem recebido de todo o festival que apesar de fugir do tema do festival (novas tendências musicais? não para uma banda de cover) seguraram bem o título de headliner de um evento que já teve LCD SoundSystem no mesmo papel.

Instituto apresenta Tim Maia
Instituto apresenta Tim Maia


Após o encerramento do show por volta da uma da manhã, era hora de ir ao Roxy assistir a parte eletrônica do Eletronika. Apesar de abrir cheio o clube foi esvaziando gradativamente durante as apresentações de Twelves, Database e Gil Barbara (o Lucy in the Popsonics não se apresentou por falta de estrutura). A dupla carioca mostrou ser uma das mais competentes do país, apesar do seu set ser adequado mais para iPods do que para as pistas. O Database reavivou seu lado headbanger e todas as faixas vieram com grave monstruoso e groove mínima, o som deu umas patinadas mas o públicou não pareceu se importar. Já Gil Barbara teve a tarefa de começar a tocar as 5 da manhã, o que deu bastante liberdade para suas escolhas (remix do Breakbot para o Metronomy na pista?), mas não muitos apreciadores.

SÁBADO 30/AGO
Macaco Bong
Macaco Bong
O último dia para música no Eletronika foi o mais irregular e que teve a pior seqüência de shows. A sala João Ceschiati abriu novamente primeiro, com o show da banda Monno. Os garotos soavam como uma mistura de Bloc Party com U2, porém o excesso de letras "profundas", mães e mini-groupies os afastou totalmente da seriedade que o Eletronika vinha apresentando. Melhor para o Macaco Bong, a banda de rock instrumental mais poderosa do Brasil, que ganhou pontos por se afastar do modo Monno de ser. O fato de não se aproximarem nunca de um som mais cabeça (estavam mais pro hard rock do que para o math rock), os fez ganharem umas dúzias de fãs abismados com o som que saia de uma guitarra, baixo e bateria. Só que devido a um atraso por culpa de um show na sala ao lado, a apresentação dos cuiabanos encavalou com o aguardado show da Mallu Magalhães, no Grande Teatro.

É incrível a quantidade de meninas menores de doze anos que compareceram no show da cantora teen. Por outro lado, mais surpreendente ainda foi a presença de pessoas mais velhas com ares intelectualóides que alimentavam o coro de "ahhhh"s, "ooooh"s e "ouuun"s a cada travessura da menina - como dançar ballet durante um solo de teclado. A banda certamente sabe tocar bem, porém muitas das linhas instrumentais criadas soavam um tanto quanto as músicas dos artistas que Mallu cita com influência. Muitas vezes, as bases pareciam se repetir entre si.

No entanto, é notável o crescimento do vocal da garota desde a primeira vez que a vi (num Milo pequeno e lotado), só precisam guiar ela melhor a respeito de como ela canta. Em algumas músicas ela altera o vocal constantemente, começando com sussurros sexy (que ficam um pouco estranho para alguém de 16 anos), passando por gritos a la cantora de blues sofrida até finalmente chegar nos sotaques folk característicos (Bob Dylan, alguém?).

Mallu e banda
Mallu e banda


A Mallu conseguiu segurar na cadeiras por mais de hora pessoas que não ouvem o tipo de música que ela canta, e tudo isso só no carisma - são poucas as faixas animadas como o hit "Tchubaruba". Não dá para negar que ela é um fenômeno, apesar de ainda não musicalmente, mas novamente, ela tem apenas 16 anos. Vamos dar tempo ao tempo.

O festival ainda seguiu com shows dos sempre competentes Hurtmold (sem a participação de Marcelo Camelo, como havia sido especulado), Lucy and the Popsonic, encarado por muitos como desastre pelo fator lugar errado na hora errada, e o indie rock noventista dos americanos do Asobi Seksu.

Fotos: Flávia Durante e Everaldo Vilela

Raphael Caffarena
Raphael Caffarena
bad rabbits and good habits.