2008 marca a música eletrônica e alternativa como o ano em que a juventude, subestimada pela superficialidade atraente de gêneros fashionistas (new rave), acabou por mostrar seu valor. Esses garotos (essencialmente ingleses) e musical que (graças a Deus) não mama na eterna teta da dicotomia roqueira de Blur/Oasis, mas cria identidades musicais abstratas, que não devem nada a guitarras [graças a Deus (2)]. Agora, neste quase fim de ano,
Nights Out, o tão elogiado disco do Metronomy, talvez seja o maior exemplo dessa safra.
Como você, leitor do rraurl,
já deve ter lido por aqui, o Metronomy ao vivo é um trio, mas na verdade trata-se de um projeto autoral de Joseph Mount.
Nights Out reúne todas suas peripécias sob a problemática juvenil de quando você sai para divertir e tudo dá errado. A temática encontra seu ápice no single e candidato a hit do ano "Heartbreaker", que você também já cansou de ouvir por aqui.
Flash Content

Por mais que o Metronomy seja expoente de uma geração de rock eletrônico experimental, fagocitadores de influências que criam monstrinhos musicais de sete cabeças, "Heartbreaker" obedece à etiqueta da música pop com deliciosa perfeição. Mas cá entre nós, é a cara do que o Human League fazia quando decidiu ser pop (o álbum
Dare, 1981). Tal referência é ainda mais cabeluda em "A Thing for Me". Vocal afetado, synth pop e duas backing vocals?
Royalties para Phil Oakley, please.
Flash Content
Metronomy - A Thing For Me (mp3)
Voltando à abstração,
Nights Out tem o mesmo valor hoje do que o que Hot Chip tinha em 2006 com
The Warning: a antropofagia brit-pop de fundir em clima de festa e baladas românticas influências, instrumentos e elementos dançantes. No caso do Hot Chip, o clima era de soul music universitária; o Metronomy é mais colegial, adocicado e fanfarrão. Prova é a simpatia da marchinha infanto-mariachi de "My Heart Rate Rapid". Faz coro com a cigana "The End Of You Too", exemplo de como a música alternativa hoje é globalizada - um inglês pode soar marroquino, um sueco pode ser italiano, e por aí vai.
Flash Content
Metronomy - My Heart Rate Rapid (mp3)
E O ROCK?Total segundo plano. Algumas guitarras machonas e mexicanas em "Side 2", só que abafadas na melodia, nos teclados e acordeons, bem como o Ratatat faz. O dueto de mais um coração quebrado de Joseph está presente em rockzinhos dançantes no dueto "On / Back to the Motorway", uma mistura de Dire Straits com Klaxons.
O Metronomy não é rock, mas essencialmente pop, ainda mais pelo perfume essencialmente romântico de
Nights Out. Chega a ser apaixonante até, como em "On Dancefloors". Essa música lembra um pouco New Order e bebe na concepção seca e pegajosa do pop atual,
live

nos moldes do
Tings Tings. Aliás, ambas bandas e
Cut Copy (outro expoente do electro pop hoje) são unânimes em criar álbuns que não passam de 50 minutos e são recheados de hits.
O menu pop é vasto. "Holiday" é single, tem levada dance punk e vocais disformes, que sempre funcionam. Deve ser sensacional ao vivo, com Joseph a frente de seu jogo de luzes baratos, guitarras, teclados e bases. Esse, aliás, é o clima que a banda chama de electro-garage, bem explicado
numa entrevista online. "Nós chegamos para tocar às vezes num Nissan Micra. Nós três e todo o resto. Tudo diz respeito a ser enxuto e efetivo", brinca, ao ser questionado das possibilidades grandiosas do sucesso de faixas como "Heartbreaker".
Autenticidade é um valor mais valioso hoje em que a criatividade esbarra na supra-informação e na falta de novidades revolucionárias. E o Metronomy cria uma forte identidade e lindas canções e bons experimentos musicais baseados tanto na democracia da eletrônica quanto no esquema
garage do rock juvenil. Para ser um rockstar, basta querer. Só ter talento, disposição e ir atrás.