Justice, Digitalism, Dubfire e Tenda Terra foram os destaques da 9ª edição do evento
Evento mais tradicional da eletrônica nacional, o Skol Beats finalmente aconteceu no último sábado, 27 de setembro no Sambódromo do Anhembi (desde 2006 o evento não tomava lugar por lá). Foram 15 mil ingressos vendidos, segundo dados da organização do evento - os ingressos teriam se esgotado no portão 30 do Anhembi por volta da meia noite, hora em que os headliners do Justice se apresentavam.
A edição 2008 passou do primeiro semestre (tradicionalmente abril ou maio) para setembro, e pontuou mudanças no formato do festival - 2008 foi o fatídico ano do "você escolhe quem toca", em que fóruns e votações ajudaram a montar o line-up de 24 artistas, divididos em um palco principal e duas tendas (Tenda Skol e Tenda Terra, que não teve participação dos votos do público). Foi uma edição bem mais enxuta que a de 2007, que levou 40 mil pessoas em dois dias de evento (um palco e quatro tendas); menor também que a de 2006, aquela em que 60 mil pessoas assistiram a um caótico (e inesquecível) show do Prodigy.
Fato que menos público proporcionou maior conforto. E fato também que esse público menor foi uma audiência morna, que não se animou com a mistura de estilos e artistas tão diferentes, antes dispostos em suas respectivas tendas de gêneros e estilos. Colaborou ainda o frio deste início de primavera e um cansaço da fórmula do festival, com tanta marca exposta, palco gigante, tendas superdecoradas e as mesmas histórias das 8 edicões anteriores. Mas vamos às apresentações.
PALCO SKOLKILLER ON THE DANCEFLOORAbrir evento grande é uma tarefa ingrata. As poucas pessoas que chegam no horário que as festas abrem ainda estão contidas, começando a beber e não muito dispostas a já ter a melhor experiência da noite. Então não tem como culpar o Killer on the Dancefloor pelo o excesso de hits usados para tentar acordar a platéia. Entre samples de Justice e a adição de uma inédita bateria eletrônica eles tocaram Rihanna, Rage Against the Machine remixado por Mr Oizo, MGMT remixado por Chemical Brothers (que também deu as caras com "Hey Boy, Hey Girl") e Gwen Stefani.
O sistema de som favoreceu as grandes batidas da dupla, porém deixou claro alguns erros de mixagem. Nada que tirasse o mérito da dupla, que conseguiu colocar pra dançar quem chegou ao SKol Beats por volta das 19h (não era pouca gente, no entanto), mas também não foi nada que colocasse a dupla num altar de grande atração.
MONTAGE
O Montage entrou no palco trazendo uma seleção de estilos que rondaram as festas nos últimos anos. Suas duas primeiras músicas remetiam ao hedonismo do electroclash, as seguintes soavam um tanto sujas e influênciadas pela recente escola francesa, algumas vieram em formate do baile-funk e outras mais inofensivas flertando com o pop.
Daniel Peixoto fez trocas de figurino, apelou para sua sexualidade, chamou convidados e teve ajuda de uma videomaker para ilustrar cada música. No entanto, a dupla cearense (acompanhada por um guitarrista) apanhou do sistema de som do festival que além de esconder a voz do vocalista, ainda captou todas as interferências possíveis até finalmente se desconectar. Outra coisa que não favoreceu a performance foi a enorme distância do palco para a platéia - uns 20 metros de fosso - e os péssimos efeitos de palco, com iluminação fraca e excesso de fumaça que escondia mais ainda o trio.
Não que o Montage seja um exemplo de como se fazer música ou uma carreira, mas algo que não se pode negar é que eles sempre fazem um ótimo show - talvez por sempre o fazê-lo igual - e não foi o que aconteceu nesta noite. Não por culpa deles, mas mesmo assim uma pena.
MIXHELLSó a introdução do MixHell já vale como um dos melhores momentos do Skol Beats 2008: Iggor Cavalera fez excelente usa da bateria enquanto Laima soltava synths altos e distorcidos ao mesmo tempo um vídeo do Hellraiser anunciava "já começou". E com aquele monstruoso som não tinha como negar.
Mehdi, do Scenario Rock cantou em "DVNO" do Justice e em outra música do próprio casal brasileiro, que fez um DJ set bastante superior a sua apresentação no festival de 2007. Apesar de sempre correto e barulhento, os melhores momentos foram os que Iggor entrava na bateria e espancava com maestria os bumbos, pratos e caixas presente. Após uma hora de apresentação a dupla encerrou o show e finalmente justificou o hype que os cerca desde seu surgimento.
Raphael CaffarenaJUSTICEQuem estava no gargarejo viu a dupla francesa provocar verdadeira catarse no platéia do Skol Beats, com gente pulando, rodas de pogo, gente dando mosh e se atirando pra todo lado, como um armageddon eletrônico. O live do duo francês realmente mexeu com os nervos dos presentes, e em algumas passagens, como na pesadíssima versão de "We Are Your Friends", chegava a dar medo. Talvez por isso algumas opiniões tenham divergido: a parte do público que não era muito chegada à barulheira generalizada, ou que estava em áreas com som mais baixo, ou que não é a fim de ver pessoas sendo carregadas por cima de suas suas cabeças, obviamente não curtiu. Além disso, muita gente chegou a comparar a performance do duo com o Daft Punk, mas enquanto esse apela mais para o lado robótico/funk/sensorial, o Justice é puro heavy metal eletrônico. E está ai o segredo de uma apresentação de sucesso: atingir as pessoas e causar algum tipo de reação (boa ou má). Isso é essencial, e muito melhor do que simplesmente "passar batido".

O show deles parece uma versão moderna de
A Profecia, com os dois franceses enjaulados atrás de uma parede de equipamentos eletrônicos, fumaça correndo solta por todos os lados, e a famosa cruz-símbolo da banda iluminada ao centro. Esse cenário quase tétrico ajuda a embalar faixas como "Genesis", "Stress" e "Waters of Nazareth", ao mesmo tempo que faz com que faixas menos agressivas ("D.A.N.C.E.", "Phantom" e "DVNO") ganhem fôlego, nos lembrando que nem tudo é tão escuro assim permitindo alguns momentos mais de pista de dança do que de pura porrada.
Certamente a performance do Justice é uma das melhores da cena eletrônica da atualidade, daqueles tipos de show que todo mundo precisa ver - seja no meio da massa enlouquecida ou bem protegido à uma distância segura. Sim, Justice, nós somos seus amigos.
Alisson GothzDJ MARKYO paulistano subiu ao Live Stage alguns minutos depois da apresentação daqueles que foram talvez o grande nome do festival. Único DJ de drum n'bass a se apresentar nesse ano, Marky, acompanhado do MC Stamina, conseguiu segurar o mar de gente que se concentrava no palco e não se empolgava muito com o set de Miguel Migs na Tenda Terra, ali perto. Houve momentos que o próprio DJ parecia ainda mais animado com seus decks que o público presente - o que foi aquela acrobacia, a lá Hendrix, virando a pick-up de cabeça pra baixo, sem deixar de mandar os scratchs? Só faltou botar fogo na aparelhagem ao final do set. Os equipamentos foram preservados, mas o público foi incendiado. Mérito do DJ, que mostrou o porquê de ter cadeira cativa no line-up do evento.
PENDULUMO Pendulum não teve o mesmo êxito de Marky no quesito empolgação. Rolou uma debandada forte pra tenda Skol Beats, onde o Deep Dish Ali Dubfire, se apresentava. Certo, os australianos continuam bombados em outros cantos do mundo, mas a sua apresentação, mesmo contando com cinco músicos, tem bem menos energia e atitude que a de uma certa dupla francesa. Teve bons momentos como a versão de "Voodoo People" mas... O público gostou? Gostou! Tinha muita gente dançando e pulando junto com o carismático MC Ben Mount. Mas pra fazer pular é fácil, e por mais que a mistura de d'n'b com rockão Rage Against The Machine/Limp Bizkit seja interesante, é difícil mesmo é fazê-lo de maneira menos previsível e, claro, com mais atitude.
Rodrigo RomanDIGITALISMO Digitalism entrou no Skol Beats com meia-hora de atraso, e era visível o fato de que tal demora foi causada especialmente por problemas em seu som - eles acabaram subindo ao palco com o que tinha disponível. Por isso a aguardada performance do duo alemão ficou prejudicada em vários momentos, com problemas de má equalização, graves que estouravam demais, e tantas outras falhas técnicas. Na última música, o hitaço "Pogo", o som abafou de tal forma que parecia que nossos ouvidos estavam tampando, igual quando se desce a serra!
NOSSO TOP 5
Justice
Digitalism
Miguel Migs
Dubfire
Mixhell/Killer on The Dancefloor
PERDEMOS :(
Agoria
Mario Fischetti
Marcelinho CIC
DJ MFR
Fabrício Peçanha
Murphy
Blake Jarrel
Apesar disso, a dupla fez o que pôde e mandou um live bastante competente e animado, com todos os seus hits em versões que ao vivo soavam bem mais empolgantes que no original. Jens Moelle e İsmail Tüfekçi demonstravam energia e carisma e estavam se divertindo um bocado, não importando muito com a apática platéia que ocupou a área mais próxima do palco para aguardar a discotecagem de Armin Van Buuren.
"Idealistic", "Zdarlight", "Pogo" e "Jupiter Room" garantiram a festa do pessoal mais fervido que ocupava as laterais e o fundão, e a pequena cover de "Fire in Cairo" (do The Cure) foi uma grata surpresa. Foi sem dúvida nenhuma um dos pontos altos do festival, inclusive com muita gente preferindo o show deles ao do Justice. Na saída, um grupo de quatro rapazes declarava numa conversa que o Digitalism era o novo Chemical Brothers. Seja como for, eles bem que poderiam voltar pra cá para uma nova apresentação, sem tantos problemas e com um público mais sintonizado no som deles. Seria uma festa e tanto.
Alisson GothzARMIN VAN BUURENO holandês número 1 da DJ Mag tocou por mais de duas horas, dando as boas vindas para a manhã nublada, tímida e fria que surgia detrás do imenso palco do Skol. Já eram 04 da manhã e o bizarro fator de ver Armin van Buuren após Digitalism não causava problema para o público presente, que se acostumou rápido com o formato. Armin matou a vontade dos sedentos por trance épico e apoteótico, e teria sido um bom DJ se tivesse aberto mão de certo exagero pop, que no trance resulta na pura e indefectível baba eletrônica. Algum grau de electro esteve presente, na quebradeira de faixas como "In and Out of Love", do seu recente CD
Imagine, cheia de vocais sussurados a la Sarah Brightman, uma característica bem marcante no som do DJ. O público correspondia bem e, goste ou não você de trance, foi uma das atrações que mais levantaram as mãos do público ali no palco. Fora as bandeiras holandesas, brasileiras e outros cartazes de fãs para o alto, saudando o DJ.
GUI BORATTOA responsabilidade de encerrar o palco do Skol foi um pouco diluída para Gui Boratto, já que o público do palco deu uma dissolvida após a televisiva apresentação de Armin Van Buuren - e também um pouco pela manhã fria e o silêncio longo para a montagem do palco para Gui, que tocou junto com o produtor Dada Attack (também escalado para a Kompakt, renomado selo alemão do qual Gui Boratto faz parte), o

tecladista Guilherme Costa e o baterista Cuca Teixeira, conhecido por tocar com artistas da MPB. A apresentação revezou o aspecto inorgânico de guitarras e as baquetas marcadas da baterias com techno e outros momentos mais progressivos bem encorpados. Foi bom para explicitar tais diferenças, num ano em que o Skol Beats focou na já não tão nova mistura entre rock e dance music. Foi uma apresentação que lembrou bem o coletivo que tocou antes de Apparat no Motomix 2007, mas também foi um pouco
freestyle demais e eletrônica de menos, encerrando este o que talvez tenha sido o Skol Beats mais estranho de todos os tempos.
Jade GolaTENDA SKOLANDERSON NOISE >> DUBFIRE
Quando
Ali Dubfire (foto) entrou no som, o público ainda estava com os ouvidos doendo (no bom sentido) com a ótima discotecagem de Anderson Noise - que se despediu da cabine ovacionado. Começou seu set com as BPMs bem abaixo do DJ brasileiro, faixas quase sombrias que causaram um certo estranhamento - e evacuação - do público da tenda, que em parte migrou para ver Renato Cohen.
Depois de meia-hora, Dubfire percebeu a situação e acertou na mosca ao subir o pitch e também o peso de suas faixas, levantando o público numa sequência que mesclava progressive e techno pra fã nenhum de música eletrônica "de verdade" reclamar. Competente em suas viradas e seleções, Dubfire fez um set correto. Mas foi só. Mas ficou a sensação de que ele tocando em um lugar menor como o D-Edge, por exemplo, seria bem mais adequado.
Alisson GothzSTEVE ANGELLO & SEBASTIAN INGROSSOCom muito carisma, vindo principalmente do animadíssimo Steve Angello e seu inglês cheio de sotaque, a dupla sueca segurou muita gente do lado de dentro e de fora da longínqua tenda Skol Beats, com um house tendente à progressivismos e minimalismos no seu set animado e de rebolado duro que durou 02h30. Foi uma evolução do minimal encorpado e ascendente de Dubfire, sem medo de pender para sonoridades como Benny Bennassi e afins. Ao final o céu já clareava ao som de "Everything About the Girl" remixado.
Rodrigo RomanTENDA TERRATenda Terra, a mais bonita

FLOW & ZEOA dupla carioca foi uma grata surpresa logo cedo no festival, uma boa opção de techno e house frente ao maximal recortado que comia solto no palco. Casou bem com a iluminada, colorida e bem-enfeitada Tenda Terra, talvez o espaço mais bonito do cinzento sambódromo que serviu de cenário para o Skol Beats. É o tipo de escalação que confirma carrerias jovens e ascendentes na música eletrônica, sendo, no festival, sempre momentos de boas surpresas.
Jade GolaFotos: Marcelo Elídio, Alberto Boni e divulgação