"É música urbana o que eu faço, não é que dá para fazer em outro ambiente, e às vezes é meio maluco você ouvir esse som na natureza. Não faz sentido."
Se apenas uma faixa de Pantha du Prince, famoso projeto do alemão Hendrick Weber, pode te levar por caminhos enfumaçados do folk solitário, do minimal techno introspectivo e algumas psicodelias, o que esperar das apresentações do produtor pelo Brasil? Um Live PA repleto de sinos, percussão, MPC, teclados, efeitos com auxílio de computadores... Similar à forma que ele grava, segundo o próprio explicou a equipe do
rraurl nos bastidores do Sónar 2008, em junho último. "Levamos aparelhos, microfones e gravadores para as rochas e tocamos. Dava para ouvir os pássaros, os cachorros latidos, o sino da igreja tocando. Está tudo lá nas gravações, é lindo."
Weber começou no rock, mas se cansou das guitarras e partiu para a eletrônica. Nesses anos já atuou sob codinomes como Panthel e Glühen 4, criou música para trilha sonora de curtas e documentários. Com influências afiadas de Theo Parrish, Detroit, Studio 1, Jeff Mills e Pan Sonic, o produtor explica que suas experimentações geralmente vêm de projetos paralelos relacionados aos mais diferentes artistas, porém sempre envoltos em formas acústicas.
O Brasil tem duas datas apenas para checar o tão comentado e elogiado live do Pantha du Prince dia
03/out na festa de 3 anos do Vegas na Flex (dizem que rolará back2back com Efdemin), e dia
04/out em Porto Alegre na Neon.
Pantha

Sua agenda tem datas programada para Brasil, Argentina e até o fim do ano para França, Israel, Alemanha e Rússia. Como é essa rotina?Às vezes é demais, sabe? Eu também preciso de tempo para produzir, de tempo para mim, então tem que balancear a energia para viajar o tempo todo.
Dá para pesquisar e coletar sonoridades nesse tempo?Sim, estou sempre fazendo isso. Organizo meu tempo em: gravar, gravar com amigos, pesquisas de fontes que eu possa usar em produções. Tem o tempo para o estúdio, e em grande parte eu sento no aeroporto e em trens, pego meu laptop e crio coisas. É sempre uma combinação de fontes de pesquisas e sessões com instrumentos (acústicos, sintetizadores analógicos). Aí junto com esses momentos de espera em que crio coisas e é isso.
Você precisa de silêncio para trabalhar?Hmm, não sei, preciso de silêncio para me concentrar na música. Eu necessito de silêncio na forma de precisar de um momento só meu de silêncio, sem dúvida. Gosto também de gravar coisas da natureza...
Com o laptop?Sim sim, fui para uma casa na Suíça com amigos, na montanha. Levamos aparelhos, microfones e gravadores para as rochas e tocamos. Dava para ouvir os pássaros, os cachorros latidos, o sino da igreja tocando. Está tudo lá nas gravações, é bonito.
Mas para o Pantha du Prince, os sons mais dançantes, você não ouve isso. É mais para coisas de ambient e outros experimentos que eu gosto de fazer.
E onde estão essas experimentações?Eu faço vários projetos com artistas, coisas paralelas, como quando eu gravei com uma coreógrafa. Por isso gosto de trabalhar com gravações acústicas. Esses dois amigos que viajaram comigo são músicos de uma geração acima da minha, são lá dos anos 70, época do
Faust (banda de krautrock da Alemanha). São diferentes tipos de músicas, então é sempre legal sair com eles para gravar umas sessões.
E de onde vem o nome Pantha du Prince?Minha mãe se chama Panthel, então na nossa casa sempre tinha um enfeite com o nome. E aí eu tinha umas discussões com um amigo de onde vinha o techno, se era da black music, quais eram as raízes. Aí surgiu disso o Prince.
Eu precisava de um nome para minhas faixas para as faixas 4x4, meu amigo surgiu com esse nome e pegou. Foi lá por 1999 ou 2000, essa época. Antes eu lançava como Glühen 4, que era mais experimental, já pela Dial inclusive, era um projeto eletroacústico.
E como você começou a produzir música eletrônica?Usando um Atari e um samples, mas aí me cansei e comecei a criar feedbacks e drums com um mixer de estúdio, foi assim. Era um trabalho de desconstrução, de processar máquinas e descontruí-las. Foi esse o
approach no meu primeiro álbum (
Diamond Daze). De alguma forma essas são minhas raízes.
E atualmente, quais métodos têm lhe interessado bastante?Atualmente estou interessado em fontes criadas por humanos, que depois são transferidas para as máquinas. Então assim eu tenho um som mais processado, orgânico, mais intenso também. É a idéia de ter dance music de uma maneira não funcional apenas.
Dance music funcional?Sim, o groove funcional, o 4x4 hierárquico. Eu sempre tento dar outra história aos sons, comunicá-los pelo meu jeito. Também é hierárquico, claro, já que ainda é dance music.
Gosto do gênero desde meus 17 anos, mas não dá para ser tão simples. Sempre tento criar as coisas de uma maneira única.
É como você se comunica com as máquinas, como você interfere nos sons. É como se cria com máquinas e com você mesmo - um comunicação que não é de A para B, como numa guitarra. Então é essa idéia que o Faust tinha: você está abaixo da sua música, deixa ser o chefe. Você não é mais o criador, como no caso de um compositor que cria cordas e letras.
Faust ou Stockhausen. Quem é mais importante?Os dois são importantes. Stockhausen tem algo diferente no tangente à música acadêmica - Faust também é acadêmico, apesar de terem sido um fenômeno pop (mas não é pop music, é isso que eu gosto). A experimentação esquizofrênica deles contribuiu muito.
Stockhausen é compositor e estudioso, importante em Colônia e para gente como Can, uma banda interessante que eu descobri há pouco tempo em umas gravações antigas de um amigo meu. Mas isso é outra história (risos).
Você falou da natureza, ela é importante no som do Pantha?Sim, mas eu preciso da vida urbana. É música urbana o que eu faço, não é que dá para fazer em outro ambiente, e às vezes é meio maluco você ouvir esse som na natureza. Não faz sentido.
Mas, por exemplo quando eu fui para a Suíça, estava muito frio a noite e nós demos uma volta, dava para ver as pontas de gelo nas árvores. Aí andamos por seis horas com esse visual e depois, sem jantar, peguei meus discos e fui tocar, na mesma noite.
Foi ótimo, para mim foi como o fim daquela caminhada. Acho que um clube é algo escapista para quem vive no meio urbano, é como fosse na natureza caminhar por horas, essa é a similaridade talvez.
E a Dial Records, o que mudou por lá desde que você começou a lançar pelo selo?Agora somos uma empresa maior. Ainda independente na distribuição, igual à Kompakt por exemplo. Mas hoje em dia você já tem empresas grandes com muito dinheiros que são independentes, há de olhar direito o conceito de independente. Tem, claro, as empresas gigantes que são ligadas a outras grandes...
O que mudou na Dial basicamente foi que vendemos um pouco mais de discos e viajamos mais, todos nós, deu para construir uma vida diária disso, não precisamos buscar outro emprego.
Mas você acha que conseguiria viver da venda de releases, CDs, sem viajar tocando ao vivo?Acho que no meu caso eu devo dizer que o CD vendeu muito bem, então também tive uma renda vindo disso. Então eu decidi não tocar em maio, por exemplo. Esse tipo de coisa é possível para mim. E é muito bom.
E o que você acha de quem não compra o álbum, mas baixa na Internet?Não tenho muitas preocupações. É assim, a Internet não tem regras. Eu sei que no fim, pra mim, não é bom. Mas não tenho problemas, eu sei que as pessoas trocam arquivos, lives, CDs.
Os humanos vão sempre fazer o que é possível. Se a inteligência artificial for possível, eles irão atrás disso, sabe? Aí tentam por limites, regras como o copyright. Eu não sou fã do copyright.
Me incomoda quando alguém usa meus sons ou aparecesse com algo produzido com fontes e sons criados por mim. Mas se você adquire a música para ouvir em casa, no carro, no iPod, vá em frente.
Como você apresenta as músicas do seu álbum ao vivo?Eu faço uma combinação de improviso e mixagem de faixas. Agrupo e mixo juntas. Algumas faixas eu realmente toco inteiras, mixo sons e diferentes layers. É uma combinação.
:O)