Na passagem de som da festa Vegas V3, no Flex (antiga Broadway/SP), a jovem cantora tenta achar o melhor retorno para seus vocais. É auxiliada pelo músico nos synths e por James Murphy, o bonachão do LCD Soundsystem que acabara de chegar no local e,
control freak, já foi direto ajudar o crew da festa a posicionar caixas e afins.
Tímida, ela acha a posição certa e enfim solta a voz, emanada ao lado de um sintetizador pancadeiro que deu energia ao clima disco vintage do Glass Candy. É Ida No e Johnny Jewel no palco, cantando "Beatific" para uma emissora de TV e se acostumando ao palco em que se apresentariam mais tarde. Tinham responsabilidade de headliner, mas não fizeram o show das nossas vidas. Em parte por serem muito novos, em parte por não contarem com a potência do sistema de som estriônico da casa, todo centrado do palco.
DE PORTLAND PARA O MUNDOIda No

Mas apesar da timidez, mostraram potencial para estourarem um dia rumo à estratosfera (ou para onde a gente não sabe). Ida e Johnny se conheceram em Portland (EUA) num mercado, e formaram uma banda com outros dois funcionários da loja. Acabaram rumando sozinhos ao synth-pop vintage, ultra-produzido ("Miss Broadway eu levei um ano e meio para fazer", explica Johnny, mostrando a diferença final do apuro ao vivo e a boa e velha mesa de som).
Conversamos com a dupla na barulheira da festa V3 sendo montada, e eles contam um pouco de seu background e da turma do Italians Do It Better, que surgiu nos EUA das mãos de Johhny e Mike Simonetti. O selo agrupa bons artistas como Mirage, Farah e Chromatics, e foi criado como base de lançamentos "ilegais" da
Troubleman Unlimited Records, o famoso selo de Simonetti. Tanto é que a versão de "Computer Love" (Kraftwerk) foi lançada sem maiores preocupações jurídicas com a rígida banda alemã. "Acho que eles nem ouviram ainda", diz Johnny.
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Glass Candy - Computer Love (mp3)
@ Scala - Discoland - Rio de Janeiro

Eu e acho que muita gente descobriu o Glass Candy pelo After Dark. Essa compilação foi um turning point de fato na carreira de vocês?JOHNNY JEWEL: Sim. Eu fiz a compilação porque comecei o selo (Italians do It Better) com o Simonetti. Aí embarquei numa pequena turnê de duas semanas pela Califórnia, fiz 300 cópias do CD para saber se as pessoas gostavam das novas músicas Glass Candy e também de Farah, Mirage, Professor Genius, Chromatics, todos esses artistas que saíram do estúdio ao mesmo tempo.
Aí algumas cópias caíram na mão da imprensa, várias revistas falaram do CD, o Pitchfork resenhou e daí estouramos. Foi completamente inesperado. Como selo nós temos uma política de não ter funcionários ou investidas de imprensa, preferimos que as pessoas tenham interesse na gente e venham até nós. Queremos ter mídia pelas pessoas que nos ouvem, e por quem conhece nosso trabalho e comenta, divulga. Estamos fora do radar, queremos ser notado pelas pessoas que gostam de música.
E vocês pretendem lançar outra compilação como essa?JOHNNY: Sim, eu espero terminá-la em março e se chamará
Solid Gold. De novo com Mirage, Farah, Glass Candy e cinco novos artistas do selo. Mas não terá Chromatics.
Ouve-se muito a respeito de Portland, que é uma das cidades mais efervescentes nos EUA agora. O que está rolando por lá? JOHNNY: A cidade está bem legal, porque como um artista você não precisa trabalhar tanto quanto em Nova York: as coisas são mais baratas, você tem mais espaço, é mais segura, você pode fazer tudo acontecer mais rápido, mais barato mesmo. Então é muito bacana. Tem algo muito forte também com estilistas, artistas gráficos e DJs. O interessante é que tudo está crescendo e tendo destaque ao mesmo tempo, é bem excitante a vibe que está rolando por lá agora.
Portland não tinha uma cena forte de eletrônica. Lá por 1996, quando a gente se conheceu, não tinha techno, nem roteiro de festas. Você só conhecia gente que gostava de música pelas pessoas que você convivia. Hoje tem um bom par de clubes de música eletrônica por lá, lembro de ter visto Diplo e Prins Thomas recentemente. Está crescendo, e a vida gay por lá é bem forte também, a cidade está entre São Francisco e Seattle, que é bem cultural, então é um lugar livre. Tocamos uma vez num grande clube gay lá e as pessoas começaram a fazer sexo no palco, foi insano!
IDA NO: (risos) É verdade, aquele dia foi ótimo. Mas a gente não se importa, contanto que todo mundo se divirta.
Ida, de onde vem seu nome?IDA NO: Eu mudei meu nome para Ida No para que todo mundo que perguntasse 'qual seu nome' eu disesse 'Ida No' (
airanou - idontknow). Também por causa do filme
O Satânico Dr. No.
E como está a turnê?IDA NO: Ótima, o que me anima é que vamos a lugares tão diferentes como Moscou e as pessoas conhecem as músicas, os álbuns. Isso realmente me surpreendeu. Lá em Moscou a polícia acabou terminando um de nossos shows porque as pessoas estavam tão malucas que começaram a estourar fogos de artifício para cima. A sensação dos policiais era de que as pessoas podiam realmente perder o controle e algo ruim pudesse acontecer.
JOHNNY: A melhor parte de viajar em
tour é ser exposto a tantas culturas diferentes. A gente cresce na América pensando que nosso país é o centro do universo. Então é bom para a nossa humildade ver como o mundo é grande, que as coisas são diferentes. Foi legal estar em lugares como Polônia e México.
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Glass Candy - Miss Broadway (mp3)
Como foi a transição da banda do rock para a eletrônica? IDA NO: Começamos já com sintetizadores, e nas turnês eles quebravam fácil. Não tínhamos dinheiro, e como eu tocava baixo e tínhamos guitarra, era mais fácil tocar rock. Foi assim por um tempo, até que voltamos para os sintetizadores e para as drum machines, por mais que em algumas músicas as guitarras gritassem mais alto. Nós sempre fomos muito mais voltados à música dançante e eletrônica.
Johnny Jewel

Você sempre foi cantora, Ida? IDA NO: Eu sempre quis cantar, então me envolvia em projetos, cheguei a tocar guitarra até que conheci o Johnny. Sempre quis fazer algo entre cantar e dançar, sabia que era algo natural meu, aí resolvi investir nisso. Nossas primeiras tentativas era algo comigo cantando mais como a Nico, aquela coisa meio melosa.
Muita gente começa a cantar ou fazer música por causa de Nico e do Velvet Underground. Qual a melhor fase da banda na opinião de vocês?(ambos): White Light/White Heat.
JOHNNY: Não tem as melhores canções deles, mas como disco é o trabalho mais excepcional.
"Miss Broadway" é uma canção bem tocada em desfiles de moda, e foi bem tocada também na última semana de moda de Nova York. Como é isso para vocês? O Glass Candy é fashionista?JOHNNY: Se as pessoas usam nossas músicas para fazer arte, tanto moda quanto filmes, não me importo, só acho bom. A gente nunca sabe quando as pessoas tocam nossa música, sempre ouvimos comentários de onde nossas músicas são tocadas. Nós apreciamos o trabalho dos designers, mas não consumimos esse tipo de arte. Viemos de um background de classe-média baixa
IDA NO: Não somos
brandpeople, definitivamente.
E vocês saem bastante a noite?IDA NO: Eu nunca.
JOHNNY: Eu saio bastante.
IDA NO: Ele sai, eu não. Eu sou mais introspectiva, gasto muito tempo fazendo Yoga, tendo aulas de dança, ficando comigo mesma...
JOHNNY: Eu tenho que sair mais, é meu trabalho. Ela é uma cantora, eu sou um produtor,. Às vezes em tour ela sai tanto e vê tanta coisa que eu nem sei se temos personalidades tão opostas assim sentido mais (risos).
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Glass Candy - Beatific (mp3)