Karl Bartos em São Paulo
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ficha técnica
Nota: 4.8 / 5
Ano: 2008
Estilos: eletrônico
fotos
Karl Bartos @ Clash (09/out)
10.10.08 14:15
Karl Bartos @ Clash (09/out)
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Karl Bartos em São Paulo
O ex-Kraftwerk fala com o rraurl poucas horas antes de iniciar sua turnê brasileira
10.10.08 17:25
Entrevistar Karl Bartos não é tarefa fácil. Ainda mais quando ele é um dos seus maiores ídolos, e isso já é motivo suficiente para causar tremores de pernas em qualquer mortal. Segundo que, ao entrar na sala onde realizaria a entrevista, Karl surge do nada, na figura de um elegante senhor alemão de 56 anos vestido de preto dos pés à cabeça, e com uma pose quase neo-nazi que traz de volta todo um déjà vu da época em que você era mandado direto pra sala do diretor do seu colégio por ter feito alguma travessura.

Mas qual não foi minha surpresa ao encontrar uma pessoa extremamente simpática e acessível, que até fez algumas brincadeiras pra quebrar o gelo antes da entrevista começar, distribuiu autógrafos, posou pra fotos e escolheu sentar-se numa cadeira vermelha pois, segundo ele, "combinava mais" com a roupa que EU vestia (?) Na realidade, foi quase como um bate-papo filosófico com um professor amigo em algum bar de esquina. E se não tivéssemos sido interrompidos pelo assessor que queria que ele fizesse a passagem de som, estaríamos lá conversando até agora. Confira, abaixo da entrevista, a resenha da apresentação de Karl no clube Clash, em São Paulo na última quinta-feira.

O PROFESSOR BARTOS FALA
Quais são suas expectativas para essa sua primeira turnê brasileira?

Expectativas? Público gritando, dançarinas de samba, carnaval!! (risos) Não, falando sério... Você nunca sabe o que vai acontecer numa performance destas, ao vivo, como o público vai reagir, etc. Eu faço o melhor que posso... Nos shows eu faço mais ou menos o que um músico de jazz faz, improviso de acordo com a reação das pessoas, e junto com isso tudo a parte visual do show também. Essa é uma parte importante pra mim, aliás eu me divirto mais cuidando da parte visual do que do resto.

Bartos & Göthz
Bartos & Göthz
Eu sei que quando você era mais jovem sonhava tocar numa orquestra em uma ópera, e fez isso durante um bom tempo... Quando você está no palco hoje em dia, você se sente como o condutor de sua própria orquestra? Live Cinema é como uma ópera?

Não exatamente, não me vejo como um maestro, me vejo mesmo é como um jazzista. Eu tenho também outro projeto onde me apresento tocando as músicas pra valer mesmo, com banda e tudo, que é bem diferente do Live Cinema, que é bem jazzy, e que eu gosto mais de fazer pois assim conseguimos atingir um público maior.

Depois de tanto tempo de estrada, a forma com que você se relaciona com a música mudou com o tempo? A música ainda cativa sua atenção da forma com que fazia há alguns anos?

Hmmm boa pergunta... Isso que você disse é verdade. Quando você é muito jovem... (longa pausa)... A música pode servir para dar uma orientação, um caminho para sua vida. O gosto musical surge em você desde muito cedo, de uma forma maior em algumas pessoas e menor em outras, e isso pode influenciar o que você vai fazer no futuro. Algumas pessoas acabam virando médicos, advogados, jornalistas... No meu caso quando eu tinha meus 12 anos não sabia muito bem o que queria ser, mas acabei me encantando com vários artistas que me chamavam a atenção, e de repente a música despertou em mim este desejo de fazer parte desta arte e deste ambiente, de trabalhar com isso. Me deu sentido a toda minha vida! O cinema também foi bastante responsável por isso.

KarlSobre o cinema. Você tem focado seus estudos acadêmicos na composição de áudio e video em perfeita sincronia, coisa que vários cineastas alemães como Douglas Sirk e Rainer Werner Fassbinder sempre tiveram grande preocupação. Em que medida o cinema influenciou o seu trabalho?

Bem, quando eu tocava música clássica eu tinha uma vida muito regrada pois a orquestra exigia isso de mim, era preciso estar sempre concentrado, focado na prática, estar sempre no horário certo. Daí nos anos 60 tivemos aquela revolução causada pela música pop, o surgimento das primeiras criações de música eletrônica... Mas essa revolução foi perdendo o pique com o tempo, e nos anos 80 eu meio que me perdi no meio de tanta informação e me interessar especialmente pelo processo de criação das trilhas sonoras, principalmente pelo trabalho de Walter Murch.

Descobri como nos anos 70 os criadores de trilhas sonoras trabalhavam junto com os cineastas e trouxeram de volta toda aquela criatividade que explodia na música pop dos anos 60, aquela atitude mais inovadora e desbravadora, começada pelo Beatles.

Você é um grande fã dos Beatles, não?

Sim, pra mim eles são o começo de tudo! Estes cineastas que você citou e tantos outros trouxeram essa inteligência que habitava a música pop dos anos 60 de volta trabalhando em conjunto com a trilha sonora. De certa forma todos estes cineastas desta época são meus ídolos também.

Você já pensou em se tornar um cineasta?

Na verdade não, acho que não é algo que eu queira por enquanto. Eu gosto de ver o trabalho deles, de dar aulas e estudar sobre eles, mas é algo que na prática foge um pouco da minha realidade no momento.

Que tipo de equipamento você leva para os palcos para se apresentar?

O equipamento não importa muito. Qualquer coisa acaba servindo. No momento, alguns mixers, projetores, laptops... o que importa mesmo é a idéia por trás de tudo, o conceito e a criatividade. Os equipamentos funcionam mais como um veículo para transportar as idéias.

E há algum plano de lançar um novo disco solo?

Não no momento, pois eu trabalho e viajo muito, e também tenho minha função como professor na Universidade. Estamos com a agenda de shows cheia até janeiro do ano que vem, então não sobra muito tempo para entrar em estúdio e ficar trancado lá por dias. Esse meu projeto é mais voltado mesmo para as apresentações ao vivo, é mais uma performance, um happening, algo que não se faz mais com tanta freqüencia como nos anos 60, o que é uma pena.


KARL BARTOS @ CLASH (10/out)
São Paulo - SP

O público presente no clube Clash na noite de quinta 09/out era basicamente dividido entre três grupos: os fãs mais fanáticos do Kraftwerk, os tiozinhos que curtiam industrial/EBM/gothic rock nos anos 80 e 90, e a "galere".

Para os fãs mais fanáticos, a chance de ver de perto um dos (ex) membros mais importantes do grupo se apresentando solo era algo imperdível. Era mais uma figurinha colada no álbum, que agora só sente falta mesmo é de uma apresentação do Wolfgang Flur para completar a constelação sagrada do Kraftwerk (em tempo: o "time de ouro" do Kraft foi Ralf Hutter & Florian Schneider, Karl & Wolfgang - que foi o primeiro a deixar o grupo).

Karl Bartos

Karl não teve dó deste grupo de fãs e já iniciou sua apresentação mandando clássicos insuperáveis de sua ex-banda, como "Numbers" e "Computer Love". Todas em versões sutilmente alteradas - ele ainda mandaria outras ao longo do show, tais como "Trans Europe Express", "The Robots" e "Homecomputer", essa numa versão bem mais rápida. Os vocais eram em sua maioria feitos por Mathias Black, sujeito tímido e totalmente focado em seu laptop, mas Bartos de vez em quando também soltava algumas poucas linhas. E também expressa simpatia ímpar.

Faixas de seu disco solo Communications também agradaram e foram bem recebidas pelo público todo, juntamente com a ótima cover de "Tomorrow Never Knows" dos Beatles, uma das principais influências do músico. Nos telões (dois menores laterais, um maior ao centro), imagens eram geradas em tempo real e traziam desde animações até colagens de trechos de filmes antigos e imagens de Bartos. Sua proposta principal, que era a de criar uma espécie de poesia visual/sonora, deu certo e transpareceu inclusive um certo ar de sofisticação. A pista cheia - mas não lotada ao extremo - permitiu que o show fosse curtido de forma ainda melhor. Com certeza, estes fãs voltaram pra casa com um sorriso no rosto, de missão cumprida mesmo.

Mathias Black
Mathias Black


Para os tios da velha guarda, aquele pessoal que nos anos 80/90 estava ligado na cena alternativa e que por tabela também curtia muito o Kraftwerk, talvez tenha causado uma certa estranheza o fato de que as faixas tocadas por Karl tinham uma pegada muito mais techno do que eles estavam acostumados. Desde o começo da noite, com um ótimo DJ set pesado do Mau Mau até o final da apresentação de Bartos, o clima de pista de dança dominou o Clash, e com certeza muitos deles voltaram pra casa com os ouvidos doendo. Mesmo assim, esse pessoal, que possui uma cultura musical enorme, sabia que estava lá de frente à uma figura essencial para a música eletrônica, e decidiu se entregar sem maiores medos.

Karl Bartos

Para a "galere", grupo formado em sua maioria por garotas que dançavam dando chicotadas com seus enormes cabelos em quem estava por perto, foi como se estivessem numa rave versão pocket, e voltaram pra casa satisfeitas por terem curtido uma festa de ótima música eletrônica e projeções "muito loucas" em plena noite de quinta. Mas quem era o tal do Karl Bartos (ou mesmo o Kraftwerk), talvez elas ainda nem saibam.

SET LIST:
Numbers
Computer World
Metropolis
The Camera
I'm the message
Homecomputer
Reality
Ultraviolet
Tomorrow Never Knows (Beatles)
Trans Europe Express
The Robots
Computer Love
Interview
15 minutes of fame
Pierre Henry - Psyche Rock

Alisson Göthz
Alisson Göthz
live from vlad dracul's castle, romania