Da finesse do Junior Boys à insanidade audiovisual de Yoda, a melhor noite do evento
O TIM Festival enfim colocou os paulistas para dançar na última sexta-feira, com a edição 2008 do TIM Festa, que rolou na Arena de Eventos do Ibirapuera (em 2007 foi na The Week, em meio a um toró). A festa foi animada do começo ao fim, apesar da mistura nada homogênea: de Junior Boys a DJ Yoda, passando por Dan Deacon, Switch e Gogol Bordello, que fez um show bem intenso.
Fato reclamado pela imprensa a semana toda, a lotação escassa do evento é mais culpa da arena gigante e do nível de experimentalismo das atrações do que um flop em si. Por exemplo, lá pelas 19h, quando o Junior Boys iniciou a noite, realmente não havia muita gente, mas público suficiente fã da banda: ou seja, não eram poucas pessoas. Mas enfim, vamos falar de música que é o que mais interessa, ainda mais nessa que foi a melhor noite do TIM Festival paulista até agora.
Junior Boys live

JUNIOR BOYSELECTRO-POP ROMÂNTICO E IMPECÁVEL, MAS POR QUE TANTA MÚSICA VELHA?(por Jade Gola)
Nota: 4.6A dupla canadense do Junior Boys, Matt Didemus e Jeremy Greenspan (+ bateirista) voltaram ao Brasil depois de quatro anos, e logo cedo no TIM Festa já angariavam uma bela parcela de fãs na frente do palco - "Easy, slow down people!" brincou Jeremy na primeira música. A dupla de electro-pop, de fato, é bem easy-listening, 120BPM no máximo.
Blasé, Matt nem deu confiança para o público e focou na aparelhagem que emanava bases. Essas, em harmonia com o vocal romântico, afinado e bem-educado de Jeremy criaram uma mistura bem 2006 de
Spandau Ballet meets M.A.N.D.Y.. É um show correto e impecável na
Jeremy Greenspan

ilustração das músicas, e como a dupla já é um bom par de DJs também, estranho como ninguém nunca os escalou para ser produtores.
Musicalmente a dupla vai bem numa curiosa mistura de electro (neo-Depeche, de leve) e um pézinho no prog-tech bem 2006, M.A.N.D.Y. e afins, como já citado. O problema do show no TIM foi a ênfase deles em músicas antigas (tocaram umas duas ou três que não soube identificar - sou fã da fase
So This is Goodbye). Eram boas canções, mas, oras bolas, se a banda se apresentou aqui em 2004 e deve ter tocados todas do primeiro disco, porque não deixou esse show de agora para destrinchar o mais recente e melhor álbum. Não tocaram "Couting Souvenirs" (!), "Double Shadow" (!!) e nem "The Equalizer" (absurdo!), mas musicaram a finesse e colocaram sorrisos no rosto de muita gente com "So This is Goodbye", "In the Morning" e o hitaço "Like a Child".
O encerramento foi uma mini-jam session bem eletrônica que exibiu uma canção nova, do terceiro álbum que a dupla deve lançar ano que vem. Ambos encerraram o show prometendo não demorar pra voltar a São Paulo. É esperar e cobrar!
DAN DEACONO MESSIAS DO BITCORE CONQUISTA PUPILOS COM SEU CAJADO DE CAVEIRA NEON(por Raphael Caffarena)
Nota: 3.5Mistura de
stand up comedy, hardcore, chiptune e palestra interativa, o show do personagem mais interessante e engraçado do TIM 2008 aconteceu no meio do público, tal como o Girl Talk em 2007. Porém ao contrário do DJ de mashups, Dan Deacon só tocou produções próprias que caminham entre um artístico, estranho e barulhento caos sonoro.
Elementos como instrumentos de canção de ninar são acompanhados de sintetizadores distorcidos e guitarras agressivas, fazendo que a experiência de ver o show do baltimorense seja única, mas não agradável a todos. Afinal, Dan Deacon, seu laptop e seus enfeites foram dispostos numa mesa bem baixo em frente ao palco e que logo foi cercada por uma multidão de pessoas limitando o alcance de sua festa.

Mas ele bem que tentou. Organizou um concurso de dança (!), fez uma quadrilha quase junina (em pleno outubro!), deu moshs, esticou o cabo do microfone ao máximo e colocou o público (que não fugiu para fora da tenda) para dançar. Poderia ter sido melhor se as caixas de som do festival colaborassem e se alguém transmitisse tanta fanfarra nos telões.
No entanto, mesmo com o caos infantilóide e o som pouco comercial, Dan Deacon se apresentou e foi apresentado a um bando de jovens que suaram em nome da sua arte. E em épocas de apresentações blasés é bom ver um homem do povo, falar uma língua dismórfica e ser respondido com animação.
GOGOL BORDELLOQUEM DIRIA QUE UM BANDO DE CIGANOS BÊBADOS FARIA O MELHOR SHOW?(por Alisson Göthz)
Nota: 5Não há nada melhor do que ver o show de uma banda que você gosta muito e sair gostando ainda mais dela. Esse foi o sentimento geral de grande parte do público presente naquele que sem dúvida foi o show mais divertido da melhor noite do TIM Festival 2008 em São Paulo.

Em clima total de
Piratas do Caribe, o genial Eugene Hütz e seus ciganos malucos puseram fogo em cima do palco e fizeram uma apresentação impecável do começo ao fim. Foi também o show onde o público mais se conectou com a banda: por todo lado que você olhasse, encontraria gente pulando e sorrindo. Copos de cerveja, camisas e até uma calça (!!) eram jogados em cima de Eugene. E um clone punk de
Jack Sparrow conseguiu dar um show nos seguranças e subir no palco para um mosh.
ARRANHANDO A LÍNGUADesde a primeira música, "Ultimate", todas sem exceção foram cantadas em coro pelo público. E se em disco elas já soavam ótimas, ao vivo elas ficam ainda mais contagiantes. "Sally" e "Not Crime" foram tocadas em seguida, e o restante do repertório cobriu toda carreira do grupo. Alguns dos pontos altos (difícil escolher alguns) foram as derradeiras "American Wedding" e "Start Wearing Purple", esta última em uma versão especial: durante seus primeiros acordes, Eugene - que praticamente mora no Rio de Janeiro - entoou versos em português que iam de "Ela não gosta de mim" à "Morena Tropicana" e fez todo mundo rir.
Eugene Hütz

Eugene é um showman de primeira categoria, parecia estar ligado numa corrente elétrica de alta voltagem. O vocalista suava litros de vinho barato, corria para todo o lado e transformou a vida de seu
roadie num pesadelo, pois a cada movimento frenético seu uma corda de seu violão estourava ou um microfone era atirado no chão sem dó nem piedade. Outro destaque era o violinista russo Sergey Ryabtsev (foto), um personagem digno de filmes de Cheech & Chong que tentava acompanhar ao máximo à performance de Hütz.
"F*ck Globally" encerrou a apresentação com todos os músicos e dançarinas em frente ao palco, recebendo a mais calorosa salva de palmas dos três dias de TIM Festival. E quem imaginaria que um grupo de ciganos sujos e bêbados faria o melhor show de todo o festival?
SWITCHA CULPA NÃO É DO FIDGET HOUSE. PELO CONTRÁRIO.(por Jade Gola)
Nota: 3.5Dave Taylor aka Switch

Toda vez que um baita produtor aparece por aqui para tocar como DJs um amigo sempre diz: "nem sempre um bom produtor é um ótimo DJ". E claro, vice-versa. Esse aforismo clubber não se aplicou ao set do papa da fidget house. Dave Taylor toca bem (em CD), relega um certo carisma, mas musicalmente ele só fez um set convencional, normalzão mesmo, quase fanfarrão. Fez a gente entender a ironia de quem diz que fidget é o novo "minimal para playboy". O problema é que tal fanfarronice raver-corneteira se deu na fase maximal e electrohouse bombator do set. Aliás, é bom dizer, ele atrasou em quase meia-hora o set, algo que seria fatal se o Yoda depois não tivesse tocado até meia noite.
O set ficou bem no final, quando ele deixou a bombação (entrecortada por vocal house e ghettotech) para dar lugar a fidget de fato e dubstep - enfim alguém toca dubstep num grande palco em São Paulo. O som de Switch vai do maximalismo não como gênero, mas sim como forma musical, só que navega bem rumo a sonoridades tão díspares como a house, o ghetto e o bass, provando que a crítica da fanfarronice na verdade é mais uma questão de gosto - tal versatilidade do DJ inglês é louvável e, imagino eu, difícil de ser mixada. Fora que todo mundo dançou. E bastante.
DJ YODA UMA EXPERIÊNCIA REBOLATIVA E AUDIOVISUAL. MELHOR SET DO ANO?(por Jade Gola)
Nota: 5Duncan Beyne, o inglês que atende por DJ Yoda, tocou basicamente o oposto do que ele disse em
entrevista pra gente: o hip hop não foi rejeitado, pelo contrário, foi uma saraivada black que encerrou o TIM Festa de São Paulo. Yoda chegando com pressa pra mostrar a que veio, depois que a produção cortou o som de Switch ao meio.
E foi a alegria da geral. Pra mim e pra muita gente esse foi o melhor DJ set em muito tempo, o mais dançante do evento, o mais bem-humorado e a melhor interação audiovisual que os telões da Arena de Eventos do Ibirapuera propocionaram até agora. Yoda toca em laptops, mixando e rasgando os scratches em harmonia com os clipes. Viu-se uma chuva de cultura black e do mundo pop em geral: uma senhora idosa ensinando a criar mash-ups (aliás, vários momentos do set eram basicamente mash-ups), os Simpsons, o próprio mestre Yoda, Carlton e Will (de
Um Maluco no Pedaço) dançando "
Apache", na versão do Switch que ele mesmo não tocou. Teve Rocky Balboa, Run DMC sendo premiado, Austin Powers, rappers brancos, enfim, milhões de referências acessíveis à média etária 16 -35 anos do festival. Alguns momentos foram de comoção coletiva, como a versão houseira para o tema de Super Mario Bros (sensacional!).
TODO MUNDO VAI DAN-DAN-DAN-TODO MUNDO VAI DANÇAR

Mais do que house, o groove foi o grande coadjuvante do set de Yoda. Que versão maluca foi aquela com os Jackson 5, o scratch picotando a boca do Michael? E Marvin Gaye booty clap? Outro momento memorável foi um vídeo de aula de step mixado com uma paródia de aula de step em versão dancehall (geral fez igual!), seguida do hitaço bmore "
Jiggle It" e funk carioca, bastante funk clássico como o
gaiteiro e Bonde do Rolê com seu loop clássico de "Solta o Frango".
A apresentação de Yoda é espontânea e requebrada até a alma, ou seja, um drama descrevê-la a você, leitor. Para quem viu Cut Chemist no TIM de 2005, vale a comparação em termos catárticos - Yoda encerrou meia hora depois do permitido com aplausos comovidos. Minhas pernas estão doendo até agora. E a alma, lavada.