A explosão cultural do funk retratada de modo roots nas comunidades pobres do Rio
O documentário
Favela on Blast (de ambíguo título aportuguesado
Favela Bolada) é bom. E curioso. Primeiro, porque faz bem sua função de documentar escolhendo com rigor quais comunidades, MCs, DJs e outras figuras do funk carioca serão os personagens. Segundo porque o próprio documentário é um personagem, ao organizar bailes e outras intervenções nas favelas para reunir a nata funk de cada
Biruleibe, o soundsystem e as crianças

lugar. E terceiro porque tem um personagem oculto: Wesley Pentz, o Diplo, que assina a direção e o roteiro do filme, mas seu trabalho se dá de fato na produção musical da película, cheia de edições que lembram clipes.
Presente na Mostra do Rio e de São Paulo, o doc levou quase três anos para ficar pronto, e valeu a espera. Trata-se de um relato nessa década de qual é o alcance do funk, tudo mostrado de dentro das comunidades, do Borel à Cidade de Deus, passando por Formiga, Rocinha, Mangueira, Jacarezinho e outras. Por mais que o cineasta Leandro HBL e Diplo tentassem mapear todas as nuances de cada região, a conclusão e o espírito são um só: o funk nada mais é que a expressão mais cultural oriunda da favela, tendo atuação protagonista na vida de muita gente que vive ali.
As comparações com a história favelada do samba são muitas, e procedem: o funk ainda vive a dicotomia paradoxal de ser celebrado no exterior e em festas de playboy no Brasil, mas viver sob a égide de vários preconceitos. Afinal, é o som da favela. E a diferença entre essa poesia com o samba do morro de 80 anos atrás segue a rima da explosão demográfica e social das favelas - inclua aí a violência. Não a toa, um dos melhores relatos do filme é o MC que lembra como respondeu a um jornalista que ironizou a falta de beleza do funk comparado com Noel Rosa, também um som do morro. "Perguntei pro cara em que mundo ele vivia. A nossa alvorada é essa. Não é bonita, é difícil, mas é essa. E é sim nossa poesia, que eu me orgulho muito."
PRODUÇÃO CASEIRAFavela Bolada se sai bem então ao não cair no maniqueísmo e em visões factuais tendenciosas, tão tentadoras quando se relata a vida na favela carioca: o foco aqui é a cultura do funk. Entenda cultura como expressão, linguagem, comportamento e, claro, a música. Para o leitor do rraurl o melhor momento do filme deve ser quando MCs e DJs explicam, direto de seus estúdios caseiros, o que é o funk. Da origem dos bailes de miami bass e poperô americano dos anos 80 (Stevie B., Tony Garcia, etc.) até à assimilação dessa sonoridade por MCs oriundos do rap e as diferentes técnicas de cada DJ, como Sany Pitbull explicando que antes se tocava com o vinil, mas hoje o legal é descer a mão, literalmente, nas montagens ao vivo.
A equipe Pitbull (Sany, à dir.). Documentário organizou bailes funks para coletar material

E a gênese musical do funk carioca surge como tal qual a cultura do DJ brasileiro no geral (como referência, vale ler o
Todo DJ já Sambou de Clau Assef). Do famoso bolachão "Volt Mix" que rolou em muitos bailes, lá por volta de 88, até a apropriação desse beat electro/miami bass numa batida semelhante à da bateria do samba (o tamborzão, primordial nesse som), o funk carioca passa por computadores de segunda mão, convoca MCs em estúdios de rádios caseiras e mostra nesse filme como nasce. Daí para queimar um CD e pipocar num baile, é um pulo. Qualquer semelhança com a produção caseira de faixas de techno e afins NÃO é mera semelhança.
E para quem ainda não acha que o funk é "música de verdade" por causa das letras vulgares, o grupo Gaiola das Popozudas resume bem essa polêmica no doc: "A gente faz o que gosta, a mulher hoje tem livre arbítrio para fazer o que quiser". Até ser popozuda e dançar sem calcinha no baile, porque não? Numa cidade tão sexual quanto
"O povo gosta é do bass!"

o Rio, é só o forasteiro que se espanta e levanta a bandeira da vulgaridade. Marginal? Talvez. Mas espontâneo e honesto.
PERSONAGENSMarlboro está lá, claro, em comentários rápidos e louvado como o pioneiro de tudo. MC Serginho é uma das entrevistas mais sinceras, quando diz que o funk é um simples trabalho - "O funk fez com que eu vivesse um pouco melhor, pagasse as contas um pouco mais fácil. Se não fosse assim, eu botaria a marmita embaixo do braço e ia trabalhar, é simples". Ele comenta ainda como dá para tirar 500 MCs de talento em qualquer favela, por isso é normal um artista estar no topo e cair de lá rapidamente. Ele que o diga.
Como qualquer gueto, o funk pode ser a razão do amor às origens, mas também a possibilidade de fuga. Um MC relata como quer fazer sucesso e montar um projeto na Rocinha, seu lar. Mas Deise Tigrona, sem pestanejar, fala que quer mais é aprender o inglês e sair dali para o mundo com sua música.
Outro paradoxo do filme são os contrastes de belas imagens captadas do alto do morro com a aspereza das favelas. E Diplo, certo que é ele, reúne vários pancadões com infinitas cenas de bailes, bundas dançando e o cotidiano das comunidades (o famoso
Biruleibe é um dos momentos bacanas). E ufa, na hora em que tal ilustração começa a cansar, o filme toma novo fôlego quando começa a tratar dos proibidões e da relação do funk com a polícia. "É mais fácil falar que é ladrão do que funkeiro pra polícia", mostrando na real qual é o maior preconceito que esse movimento vive. Bem lembrando por um MC, o forró tem a feira de São Cristóvão, o samba tem o Sambódromo e o funk não tem nada, só o baile na favela para se expressar, muitas vezes no meio do fogo cruzado do tráfico.
Mas como ninguém é santo e o funk é a expressão máxima da favela, crianças com um PROIBIDÃO escrito tapando os olhos cantam as rimas censuradas, mostrando que tal música é muito mais do que um pancadão nesse caso, muitas vezes sendo um hino gangsta da ação dos traficantes e do cotidano sob o tráfico. De modo que, com tanta música, cena de baile e ilustração do que de fato é uma comunidade pobre carioca (e a adjacente cena funk e seus artistas),
Favela Bolada é sim um filme para inglês ver. Mas também é para brasileiro entender.
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Confira
aqui as sessões restantes do filme na Mostra.