Festival repete estrutura de 2007 e leva artistas prediletos de muita gente, deixando difícil a escolha de um destaque absoluto
Os 15 mil ingressos esgotados do festival Planeta Terra comprovaram o sucesso da estréia em 2007, num misto de boa estrutura, novo local e atrações diversas. A fórmula se repetiu em 2008, sem o medo da lotação - 15 mil foi um pouco mais do que no ano passado, e até sem o drama da chuva, que castigou São Paulo em mini-tempestades esparsas desde a sexta-feira.

Os prometidos 800 mil watts de potência se deram mais nos incansáveis telões de alta definição instalados no festival do que no próprio som. Do palco principal ao DJ Stage tudo era iluminado e registrado em telões. O Terra - portal de notícias, conteúdo e internet - cobriu com certo estardalhaço o evento, dentro de sua estrutura. Só que tantos watts podiam ter sido mais direcionados ao palco, que muita gente acusou ter o som bastante baixo, por exemplo.
Com bares, caixas e vendedores oficiais (e não-oficiais) bem espalhados por toda a área de 160 mil m² da Villa dos Galpões, na Zona Sul paulistana, não houve confusões acerca do abastecimento para os freqüentadores, mesmo que a reclamação de cerveja quente seja freqüente. Os banheiros também estavam bem espalhados, mas as mulheres reclamaram da ausência de papel higiênico. Além de não haver pias para lavar a mão em nenhum dos banheiros "públicos". E o problema com a entrada de menores, uma ocorrência da edição 2007, não aconteceu esse ano, um bom exemplo de feedback de um acontecimento negativo passado.
O MELHOR PRA MIM NÃO FOI O MELHOR PRA VOCÊO Planeta Terra mais uma vez se consolida como festival grandioso, bem organizado e que agrada gregos e troianos, velhos e modernos, e deve dar prosseguimento ao evento em 2009. Por reunir atrações tão diversas - e tão significativas para seus fãs -, dentro do coerente conceito "um festival, várias experiências", é difícil apontar um destaque absoluto entre os shows. O Planeta Terra pode vir a ter a importância que o Hollywood Rock teve nos anos 90, mas criticamos a falta de ousadia do festival na composição da tenda eletrônica, o tal
DJ Stage. Leia ao fim do texto.
O rraurl.com acompanhou o evento a partir das 19hs, hora em que Brothers of Brazil, Curumin, Vanguart e Mallu Magalhães já haviam se apresentados. Sobre essas atrações, pedimos aos leitores que se manifestem. Leia agora, palco por palco, os reviews.
JESUS AND MARY CHAIN(Gaía Passarelli)Uma platéia formada em sua maioria por fãs do Offspring querendo guardar lugar viu os tiozinhos do JAMC cantarem hits do passado. Antes do show as apresentadoras no telão já tinham dado a dica: vai ter "Just Like Honey" e "Happy When it Rains", dois prováveis hits da banda no Brasil. Teve mesmo, e todo mundo

cantou junto. Mas a banda sacou "Head On" logo no começo, para ganhar fãs de verdade. "Blues from a Gun" e "April Skies" também marcaram presença e ganharam coro.
A última faixa do show, "Reverence", do disco
Honey's Dead, foi cantada pelo público a plenos pulmões. E, não, eles não voltam pra fazer bis. Aliás, no quesito "interação com o público" eles bem próximos do nada: uns dois "thank you" e um aviso de uma música nova, chamada "Kennedy Song". Bem no espírito da fase
Automatic, a faixa tem guitarra forte e levada dançante, mas não fez grandes diferenças pro público.
Mas fato é que o JAMC ficou prejudicado pelo som fraco e pela luz forte do telões no palco - é show para ver em lugar escuro e com som no talo. Tivesse entrado no Indie Stage, que tinha muito mais a ver (inclusive musicalmente), teria deixado o povo surdo. E causado uma catarse de fato.
OFFSPRING(Jade A. Gola)Sem dúvida a banda que mais angariou fãs. Era só olhar a quantidade de jovens com a caveirinha símbolo do Offspring e quanda gente andava pelas paredes tentando arrancar os lindos pôsteres da banda - missão difícil, já que eles estavam bem
Dexter

colados. O show seguiu o que os fãs esperavam: saraivadas de hits, Dexter com uma voz rouca, mas convincente apesar do som baixo.
Em "Get Away" presenciei o maior pula-pula da noite - não cheguei a conferir "Come Out and Play". E até hits mais para iniciados, como a popzinha "Hit That', fizeram o solo do Terra tremer com punk pop. Mas como trata-se de um som enquadrado demais nos anos 90, a hora em que o punk despenca para baladinhas, quando o baixo fica melódico e romântico no meio da pauleira, é hora de pensar: "vi o Offspring, a adolescência era legal. Agora, bola pra frente."
BLOC PARTY(Raphael Caffarena)Eu não sei o que está acontecendo com o Bloc Party. A primeira vez que eu os vi eles viviam um namoro com a crítica e o comando geral do público. Eles tinham energia o bastante para ser headliner de qualquer festival a qualquer minuto com apenas um álbum na bagagem. Depois de uma estúpida participação em uma premiação da MTV Brasil, a banda gastou o seu show de justificativa soando nos melhores momentos apenas bem.
Talvez porque festivais não toleram momentos de introspecção e a banda se permitiu vários ("Signs" ativou bocejos e aumentou fila dos bares), ou talvez porque o palco era muito grande para eles aqui no Brasil. E mesmo apostando nos hits de seus três lançamentos, parece que o único público que a banda realmente atingiu foi aquele composto por fãs - e banda café com leite não conta.
KAISER CHIEFS(por Raphael Caffarena)
Se o Terra viu em 2007 o rock imperialista e marrento do Kasabian fechar a noite, esse ano os também ingleses do Kaiser Chiefs demonstraram que mais do que simpatia, o que carrega o público mesmo são os hits. E para uma banda que sempre tropeça em estúdio por clonar a estética de suas músicas, ao vivo isso se torna um bônus com cara de animação interrupta. O quinteto pulou e fez pular. Como de costume, enquanto Ricky Wilson não estava fazendo a lebre indie, estava grudado na grande que separava a banda do público e fez boa parte de seu show de lá.
E quando bem tratado, o público responde bem. E todos os "nananas" típicos da banda, receberam uma dose cavalar de energia que ecoou pelo Main Stage. Até encontrar o seu fim em "Oh My God", do álbum de estréia da banda, que por ser o melhor do grupo, foi o que teve maior presença no set - incluindo "Take My Temperature", um b-side roqueiro da estréia cantado aos berros.
Show divertido e descompromissado ideal para os momentos fim de festa (álcool de mais e vergonha de menos), onde dá para cantar junto, tentar acompanhar os pulos e depois ir pra casa na certeza de que se teve uma boa noite. E francamente, ainda bem que o Kaiser Chiefs nunca teve a preocupação de ser influente como um Jesus and Mary Chain.
ANIMAL COLLECTIVEUm show esquisito. Duas opiniões distintas.
GOSTEI(Raphael Caffarena)
Algumas coisas na vida não foram feitas para agradar paladares inexperientes. A música do Animal Collective faz parte dessa lista. Ela é grande, barulhenta, experimental, emotiva e corajosa. E desde
Strawberry Jam ela beira o insuportável. "Foram tempos difíceis", disse Panda Bear sobre a gravação do álbum, um dia antes do show, num bar da cidade. E esse tipo de som denso e tenso serve exatamente para exorcizar momentos ruins - não que o show fosse particulamente um desses casos.
O trio consegue fazer algo realmente novo por mais que a barulheira pareça sem sentido e quase vazia em alguns momentos, é o tipo de experiência de se encarar livre de comparações com as outras atrações pop - por mais que esse estilo apareça

deturpado em algumas faixas como "Peacebone" e "Fireworks". Acho que o exagero do Animal Collective é os que tornam únicos e provavelmente inesquecíveis. E por ser único não deve ser julgada como o resto das atrações, todas pops em essência.
PS: O show começou cheio de problemas no som e reverberou pelo galpão causando uma confusão sonora muito maior para quem se encontrava no fundo do palco do que na frente.
PPS: Quem foi ao show esperando ouvir o experimentalismo gostoso de "Grass", realmente deve ter saido bem decepcionado.
NÃO GOSTEI(Jade Gola)
A pretensão indie fica bonita com micro-bandas achando que vão mudar o mundo, não com experimentalismo barulhento. O show do Animal Collective era um trio comandado por um MC branquelo que não conseguia ser ouvido no som arranhado do Indie Stage, e que soltavam bases compulsivas de barulhos, ui, "experimentais", label que pra eles só servem para legitimar a distorção besta, sem sentido. Doía o ouvido, confundia a cabeça já que não fazia sentido algum, não soava como nada, nem criavam uma estrutura partindo da interferência sonora - eles deviam ouvir um pouco de Black Dice e Autechre.
O único momento bom foi quando abriram com "Bros", música que é na verdade de Panda Bear, hit Pitchfork desse projeto que é um dos caras do Animal Collective.
Ah, esses hipsters...
FOALS(Raphael Caffarena)O palco Indie foi revigorado por uma banda não só nova, mas em seu ápice. Disposto de maneira não-convencional sobre o palco, o quinteto inglês começou o show de maneira intensa mostrando toda sua capacidade instrumental, que depois foi moldada dentro de uma estrutura pop.
Frases como "obrigado", "de nada", "maconha" (!) e "garota bonita" serviam como ponte de uma música do álbum
Antidotes, mas foi com "Hummer", maior hit do grupo, que atingiu-se o ápice da catarse semi-coletiva (apenas o público mais próximo ao palco se deixou levar pelo momento). Apesar de ser uma versão muito mais

curta que o normal, a canção mostrou, novamente, que poucas bandas conseguem atingir o pop sem se ferir.
O Foals se mostrou deslumbrante em sua energia e nada caricato para uma banda séria. Mesmo nas faixas mais espaciais, os ingleses tocavam seus instrumentos como se fosse 1970 e suas músicas possuem dois minutos de 150 BPMs. E entre saltos ao fosso, Yannis Philippakis (foto) deixava sua guitarra para esmurrar um tambor - sempre acompanhado das reverberação de seus vocais. A banda justificou a presença não só no festival, mas como uma das novas atrações mais esperadas do ano.
SPOON(Gaía Passarelli)A primeira impressão quando entrei no galpão que abrigava o palco Indie é que o som estava embolado e com eco. Estava mesmo. Mas tem essas coisas de acústica: um galpão grande e com pé direito alto daquele jeito não ajuda. Quem teve paciência de procurar um lugar onde o som rebatesse bem deve ter conseguido. Foi o caso de quem se posicionou na frente do palco para ver a banda, pular e cantar junto E não é que o Spoon tem fãs no Brasil? O primeiro hit do disco
Ga Ga Ga Ga Ga Ga Ga apresentado foi "Cherry Bomb", e ali a banda ganhou a platéia.
"Don't You Evah" veio logo em seguida e daí em diante a banda destilou o disco, quase um faixa-a-faixa - teve "Black like Me", The Underdog", The Ghost of Your Lingers", "Eddie's Ragga", permeadas por poucas escolhas dos álbuns anteriores. O público, pelo menos a parcela mais próxima do gargarejo, colaborou com o efeito-catarse no fim do show, com direito a gente gritando e mais um tanto de gente tapando os ouvidos - a banda saiu, deixando insturmentos e pedais ligados, reverberando.
BREEDERS(Flávio Aquistapace)A espontaneidade deu o tom da apresentação das Breeders em São Paulo. A vibe era de cumplicidade irrestrita com a platéia, e os corpos se fizeram presentes: da bunda exibida pela guitarrista Cheryl Lyndsey, que acompanha a banda ao vivo, à uma jovem espectadora que chegou na boca do palco levada pelos braços da galera, os sinais eram de êxtase e libertinagem. Ligeiramente atrasados por um problema no microfone de Kim Deal, o show começou com "Tipp City". Logo na seqüência vieram "Huffer", "Divine Hammer" e a nova "Bang On", em um dos melhores momentos do show.
Kim Deal

Lá do gargarejo a sensação era de comoção e êxtase. Fãs emocionados entoavam as músicas em companhia de Kim Deal, e a única possibilidade era a de não ficar parado em nenhum momento. A sensação era a de uma festa boa, em algum clubinho da Augusta, animada por uma banda muito legal. A diferença é que na nossa frente estavam as Breeders. Sendo assim, acompanhamos deliciados a original mistura de pós-punk com surf music, como em "I Just Wanna Get Along", ou no tom vibrante e lisérgico de "No Aloha", alternados com outros mais climáticos, caso das melódicas "Night of Joy" e "Drivin' on 9" - esta com direito inclusive à presença de um violino levado acanhadamente por Kelley Deal.
Com direito a cover do Guided By Voices e dos Beatles, o final guardava surpresas, como "Iris", lá dos primórdios da banda. O bis, mirrado, com o espanhol bizarro de "Regala Me Esta Noche", garantiu um encerramento tão melancólico quanto incomum. Já o impacto de um hit como "Cannonball" é algo que nenhuma palavra parece capaz de reconstituir. Na companhia das Breeders, a potência de sua vibração é capaz de proporcionar a suspensão do tempo, em qualquer lugar, agora mesmo, durante uma hora muito divertida vivida aqui em 2008.
(Jade A. Gola)Mau Mau abriu a noite pouco antes das 21h, soltando techno para os primeiros curiosos e outros gatos pingados que ensaiavam passos na escondida tenda DJ Stage. Uma crítica mais efusiva deve ser feita à um certo aspecto do palco "eletrônico": o overbranding (excesso de marcas). A decoração se
Séb Léger

saiu bem, com o telão pós-Daft Punk cheio de leds e os barris de petróleo ao fundo. Mas questionamos ainda o exagero de vários logos do Terra mais uma projeção atrás do DJ. E os totens no meio da pista eram todos o símbolo da empresa dona do festival. E nos cinco telões os logos estavam lá. Primeiro que é quase um absurdo uma pista eletrônica sendo filmada e registrada em grandes telões. Vai contra a privacidade necessária para um modus-operandi hedonista da música dançante: quem quer ser registrado virando os olhos? Fazendo passinhos de brincadeira, mas questionáveis? Pegando alguém no escuro?
Voltando às atrações, Calvin Harris acabou não fazendo muita falta.
Sébastien Léger mostrou uma técnica impecável e mesmo baseado no prog mostrou-se versátil, intercalando momentos de batidas mais gordas com outras camadas de clickhouse.
O inglês
Mylo abusou de hits ("I Just Can't Get Enough", Deus?), tendência seguida pelo headliner
Felix da Housecat, e mostrou um
approach disco que sossegou um pouco os BPMs depois de Léger. Misturou ainda samba com Daft Punk e a mais-nova-música-que-todo-mundo-está-tocando, "Township Funk" (DJ Mujava). Já Felix exagerou, tocou todas as Miss Kittins possíveis ("1982" e "Silver Screen Shower Scene"), desceu a mão num techno mais rápido e encorpado e chegou a conversar com o público e revelar seu amor por São Paulo, num momento em que o som misteriosamente parou.
Mylo passa a bola pra Felix da Housecat. E o logo onipresente ao fundo.

UMA VERDADEIRA EXPERIÊNCIA ELETRÔNICA?Outro adendo há de ser feito a esse naco "eletrônico" do Terra. Se o festival propõe "várias experiências", faltou uma mais consistente com a música eletrônica. Tudo bem que o Indie Stage permite o electrorock e outras nuances similares e que em 2007 teve o live do Vitalic. Mas a profusão de DJs que, apesar de bons, representam apenas um recibo à música dance, foi um aspecto antiquado do evento. Uma "experiência" mais intensa com a eletrônica poderia ser incentivada, indo além do 4x4 de DJs, algo como o live electro de um PNAU ou a apresentação de alguém da Warp (Squarepusher?) ou da Ninja Tune (Daedelus?). Ou alguma banda, pode ser antiga mesmo, como Underworld? Com todo o respeito, alguém comprou um ingresso do Terra para ver o Mau Mau? Muita gente compraria para ver algumas dessas atrações que exemplificamos...
O ponto é: por mais que alguns DJs sejam bacanas, a eletrônica "pura" ainda não está à altura da proposta que o Terra tem para o rock, para o electro-rock e a música indie. Quem sabe nas próximas edições.
Fotos: Débora Gomes e UOL Música (Kim Deal - The Breeders)