A notícia de um Teknival, festival alternativo de música eletrônica que rola muito na Europa, pertinho de Salvador no fim do ano, deixou a galera da comunidade brasileira muito interessada. Mas tem muito mais por trás disso.
Na organização estão três sound systems com envolvimento em um montão de atividades: arte com material reciclável, desenho e grafite, VJ, DJ, produção musical , sempre buscando integração com comunidades locais.
Beat Fusion, Kernel Panik e No Borders misturam um inglês, uma espanhola e sete italianos. Eles deixaram a Europa no começo do ano e despacharam dois caminhões de navio que contém suas moradas, equipamento de som e de imagem e dois mini-estúdios. Beat Fusion é uma loja de discos em Bolonha, Itália, e Kernel Panic e No Borders funcionam também como selos musicais.
Chris Hill é o inglês e o mais falante. "Queremos fazer evento ligados às comunidades locais, para incluir as pessoas. O que buscamos é estimular a criatividade, especialmente entre os mais excluídos."
E eles não ficam só no discurso não. No último dia de Finados, se juntaram com o povo do Embolex e Zafrica Brasil para fazer um evento diurno na favela do Jardim Leme, em Taboão da Serra (abaixo foto de um dos caminhões no local). E deu muito certo, com eles rolando muito drum'n'bass pra galera da quebrada (os sons que eles rolam incluem breaks, DB, electro, hip hop e techno)
Quase todos os eventos que eles fizeram pela América do Sul foram festas, algumas muito bem-sucedidas, como uma na Argentina realizada com um sound system de lá (Fuera Lo Sistema) que juntou 4 mil pessoas. Mas nem sempre esse formato é o que tem mais a ver. Em algumas vilas do interior da Bolívia eles organizaram sessões de cinema pra criançada. Pegaram DVDs de alguma locadora da área e projetaram os filmes em sua própria tela.

Esse estilo de vida pode parecer inusitado para os brasileiros, mas é coisa muito comum na Europa a moçada ficar vivendo na estrada, indo pros festivais em vários países. Sabe aquele papo de "sociedade alternativa" do velho Raul? Pois é, essa galera vive isso na prática. "Na Europa", conta Chris, "é a maneira mais econômica de viver. Um caminhão como o meu custa 5 mil dólares na Inglaterra. Agora não preciso pagar contas nem aluguel." E as desvantagens? "Você sente falta de um banheiro bom. Isso melhorou um pouco pra mim depois que instalei um chuveiro no meu caminhão que encontrei num squat em Londres."
Massimo Nardi, um dos italianos, completa: "Essa vida não é pra todo mundo, você tem que ter uma paixão por viver assim. Conheço gente que tentou e não conseguiu. Às vezes pode ser muito difícil estar com o mesmo grupo dia sim, dia não. É como uma família, tem que aprender a conviver."
Uma pergunta inevitável: como se bancam? Chris Hill dá seu exemplo: "Eu e minha namorada passamos três meses ralando na Europa para juntar dinheiro. O que a gente ganhou dá para ficar os outros nove viajando pela América do Sul."
E nunca passaram perigos nessas viagens? "Nunca, sempre somos bem recebidos. Mesmo na favela [do Jardim Leme] foi tudo muito tranqüilo. Na verdade, a única situação esquisita foi quando a polícia nos parou perto do Lov.e. Chegaram apontando revólver na nossa cara porque achavam que éramos da favela ali perto. Quando viram que éramos gringos, nos deixaram ir."
Nesse sábado (10/11) rola um aperitivo do que vai ser a fita no fim de ano na Bahia. Eles fazem uma balada em São Paulo, Southside Mission, num casarão antigo na Mooca (Rua da Móoca, 815). Lá vai rolar uma união entre os DJs e os VJs dos caras mais alguns nomes conhecidos aqui de São Paulo: os DJs Camilo Rocha e Caio Mácea e o VJ Alexis. Além disso, vai ter um pessoal de circo "freak" fazendo doideiras tipo suspensão por piercings. Uma artista do grupo também reciclou peças de carro que tinha num ferro velho ali perto pra fazer umas esculturas.
Já a balada do fim-do-ano vai começar no dia 31 de dezembro e ir até o dia 2 de janeiro. Vai ser num espaço que fica a uns 15 km do centro da capital baiana. Entre os DJs brasileiros do line-up estão Mara Bruiser e Santz, de Salvador. O VJ Alexis também fará projeções. A parte circense também vai estar bem servida com o Circo Picolino promovendo várias atividades, incluindo maluquices como acrobacias e suspensão também. Ano que vem a idéia do grupo é fazer uma festa no Rio de Janeiro, perto do Carnaval.