Radiohead - In Rainbows
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ficha técnica
Nota: 4.5 / 5
Ano: 2007
Selo: -------
Estilos: rock, indie, alternativo, eletrônico, art rock
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Radiohead - In Rainbows
Você pagou quanto quis para ouvir o álbum mais humano da banda de Thom Yorke
16.10.07 17:45
A Internet proporcionou uma das maiores revoluções culturais dos último tempos: a democratização do acesso à música via compactação digital de arquivos MP3. Do Napster ao E-Mule, da troca de arquivos no Messenger ao streaming de Real Player, foi possível que um roqueiro nerd conhecesse de graça bandas do interior da Iugoslávia, e que um clubber animado baixasse um set de drum'n'bass que tocou antes de ontem no clube Womb de Tóquio. Se para alguns, a maioria provavelmente, isso proporcionou um avanço secular no poder individual, para outros, principalmente a poderosa indústria fonográfica, tratou-se de crime, apropriação do trabalho alheio, direitos autorais e tudo mais. Levou anos desde o início da web para que uma banda relevante do pop-rock mundial tratasse essa questão de frente com uma postura mais do que polêmica, ou vá lá, marketeira. É o caso do grupo inglês Radiohead e seu sétimo álbum, In Rainbows, lançado no último dia 10 sem selo ou gravadora, através de downloads onde o "cliente" poderia escolher quanto pagar.

Por mais que há anos o Radiohead, os Beatles da nossa época, foi parar além da convencional e repetitiva engrenagem do rock britânico, não vamos criar um mito colossal. Lançamentos e promoção via net não são novidade. Em 2001 o Wilco disponibilizou todo o Yankee Hotel Foxtrot em seu site após romper com a Reprise Records, mas lançou o álbum fisicamente no ano seguinte em outra gravadora. Faixas e singles há anos são disponibilizadas em sites como pré-divulgação e nos últimos tempos artistas generosos disponibilizam downloads em seu MySpace. E cá entre nós, sabemos que o fetiche atual da sociedade brasileira, o filme Tropa de Elite, fez sucesso primeiro pelo vazamento incontrolável de cópias antes do lançamento: de novo, pirataria para alguns, lance de marketing para outros. O que o Radiohead faz de importante é quebrar o paradigma de ser necessário de fato gravadora e selo para lançar e distribuir um disco inteio.

Ok, foi necessário a principal banda do rock atual terminar um contrato de seis álbuns com a EMI para tanto, lembrando que o Radiohead desde o começo da década, quando a música eletrônica ainda era um bicho estranho nessa indústria, já tinha atuado por essas bandas com o combo experimental de Kid A e Amnesiac. Não é apenas uma jogada publicitária, é preciso conhecer para saber ousar, e o Radiohead poderia estar confortavelmente sentado em toneladas de libras esterlinas de um contrato de mais quatro, cinco, dezessete álbuns com todas as regalias e cláusulas possíveis de um selo. Mas não, eles fizeram algo simples que qualquer outro artista dessa safra internética poderia ter feito. Porque Lily Allen, a filhinha predileta do MySpace não lançou seu álbum totalmente online, sendo que foi da web que ela surgiu? É muito mais confortável para um músico mamar nas gordas tetas da indústria do que apostar assim.

Um exemplo do alcance dessa iniciativa: assim que disponibilizei minha cópia de In Rainbows no Soulseek, um jovem do Equador perguntou o que eu tinha achado do novo álbum. Não era um fã deles, mas sim alguém que desconhecia o trabalho da banda e ficou curioso depois do "it's up to you" de In Rainbows. O retorno midiático que o Radiohead ganha é válido e sacia a vontade de inovação que alguns fãs da banda sempre têm, não tão presente assim no álbum, ainda mais que algumas de suas faixas existem desde o fim dos anos 90.

NOS CÉUS
Thom cantando "Videotape" em 2006
A principal diferença do Radiohead em arco-íris é que a banda está mais mundana. Menos IDM, menos existencialista (sem deixar de ser niilista), menos desconstruída, deformada. Quase feliz. Enfim, mais perto de todos nós, não mais uma criaturna experimental, monstros soturnos do tipo "pulei no rio, anjos de olhos negros nadavam comigo" (letra de "Pyramid Song"). E os elementos do jazz são cada vez mais fortes ao mesmo tempo que In Rainbows traz de volta o rock como pressuposto básico. Esse CD, melhor, esse álbum digital seria o caminho natural do Radiohead após o estrondo OK Computer (1997), mas é certo ter surgido após Hail To The Thief (2003), momento de transição entre o experimentalismo e a fase jam session da banda.

"15 Step" é uma saraivada descompassada na bateria de Phil Selway em contraste com Jonny Greenwood calmo e climático na guitarra. Crianças brincando ao fundo entre órgãos, baterias e rajadas eletrônicas. Para quem pensava em guitarras, "Bodysnatchers" é riff dançante, origem inegável no grunge dos idos de Pablo Honey (1993). Rock explosivo com fantasmas em teclados de Mr. Greenwood, bom para gritar "I'm trapped in this body and can't get out / estou preso nesse corpo e não consigo sair".

Interessante também é a característica metalingüística de algumas músicas, como em "Jigsaw Falling Into Place", que vai no mesmo pulso de "Bodysnatchers" com Thom Yorke, homem que ama, cantando "Before you run away from me, before you're lost between the notes, the beat goes round and round". Thom segura mais a onda na lamúria de seu gogó, elemento que atingiu seu ápice no álbum solo The Eraser, e provou um fato inegável: Thom Yorke só atinge a perfeição com a banda. A balada "House of Cards" nunca seria a mesma sem as guitarras de Jonny e os efeitos celestiais dos sintetizadores de seu irmão Colin Greenwood. "I don't want to be your friend, I just want to be your lover / (eu não quero ser seu amigo, só quero ser seu amante).

Se anos atrás a distorção eletrônica tirou a aproximação com o ouvintede uma banda que não queria ser exposta, é o rock climático e paradisíaco de tão espacial que mostra o amor brotando dos corações desses rapazes de Oxfordshire. Mas se você busca um pouco de lamúria pessimista, faça como eles dizem em "Nude": não tenha grande idéias, porque elas não vão acontecer. E se é assim que tem que ser, que seja uma constatação embalada por essa balada, uma das mais bonitas já criada pela banda, mérito para a percussão de Jonny e a triunfal bateria de Phil Selway, que assume a levada protagonista da canção no lugar do baixo e da guitarra.

GOTAS DE JAZZ
A concepção jazzística da banda é real, pelo blog Dead Air Space deu para perceber como o jazz acompanhou muitas das sessões de In Rainbows, e esse efeito jam session dá principalmente na óbvia multi-instrumentalidade. "Reckoner" tem como base um tamborim no canal esquerdo e o prato atiçado da bateria no canal direito. A espacialidade na mixagem também pode está na linda "All I Need", a faixa mais bonita do álbum, uma balada tensa com guitarras metálicas reverberando diferente em cada ouvido. O xilofone, sempre tão presente, volta em harmonia com o piano num compasso marcado pelos breaks da bateria. Lembra Air, que por coincidência também tem uma canção com esse nome.

"Weird Fishes/Arpeggi" tem notas em arpejo, técnica derivada da sonoridade das harpas onde os acordes de uma nota são tocadas repetitivamente, numa levada mais acelerada. Em "Faust Arp", violinos e alma pop de um Radiohead de anos atrás, da época em que o Coldplay surgia como um promissor irmão mais ovo, mas acabou se desvirtuando para a pretensão rock star. Dessa composição pop melosa acabou por surgir Keane e Snow Patrol, outras xaropices britânicas.

TERCEIRA VIA
Esse álbum de apenas dez faixas soaria incompleto se não fosse pelo encerramento com "Videotape", balada em piano-voz-baixo que desemboca numa bateria em reverso que parece uma bateria de macaquinho de brinquedo fundida, estruturada como numa faixa de Matthew Herbert.

E ainda há mais por vir, em dezembro começa a ser vendido por 40 libras um box com - agora sim - o álbum em CD e outro disco com oito novas faixas, além de dois vinis (foto) e livros com o as famosas artworks. Outro ponto que nos leva de volta à questão "jogada de marketing" é que o Radiohead planeja, de alguma maneira, lançar In Rainbows da maneira convencional em CD - o que proporcionaria melhor qualidade já que o download é compressado em 160kbps, qualidade não tão boa assim. Para a banda, essa vontade vem do "orgulho desse disco, que merece ir para o mercado mais abrangente".

O site gigwise.com publicou um artigo revelando que 1,2 milhão de downloads foram realizados e um terço das pessoas não pagaram nada, com o restante pagando em média de uma a quatro libras por cópia. Num elogioso editorial do New York Times, o jornal associou a iniciativa do Radiohead às gorjetas, um elemento da economia que ainda é um mistério para estudiosos. No contexto atual, essa gorjeta para o Radiohead nasce como uma terceira via entre o CD e o download ilegal, onde as pessoas, por mais que um terço não pague, nivelam por cima os músicos ao pagá-los o que eles merecem por cada trabalho. E a boa conclusão é que isso surgiu com In Rainbows, álbum que pode não ser o melhor do Radiohead, mas é ainda muito mais interessante do que o melhor que a média dos músicos atuais conseguem produzir, principalmente no rock'n'roll. Vai pagar quanto?
MP3
Flash Content
Radiohead - Bodysnatchers (mp3)

Flash Content
Radiohead - Weird Fishes/Arpeggi (mp3)

Flash Content
Radiohead - All I Need (mp3)

Flash Content
Radiohead - Videotape (mp3)


Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
it's like the 60s, with no hope
comentários
Felipe  DC
Felipe DC(17.10.07)
0AprovadoQueima
Eles estão virando Covers de si mesmos.