Em outubro do ano passado, o crítico de música da revista
New Yorker, Sasha Frere-Jones, publicou em sua coluna um
artigo polêmico no qual defendia que a banda Arcade Fire é o maior exemplo do embranquecimento do rock. Para Frere-Jones, desde Pavement, os grupos do chamado "rock independente" vêm descuidando da parte rítmica, o que ele identifica como abandono das raízes negras e considera problemático. Se ele tem razão ou mesmo se faz sentido dividir a música em negra e branca (ah, esses americanos...) não vem ao caso discutir. Mas o fato é que, depois de ouvir
Vampire Weekend, álbum de estréia da banda homônima, o crítico terá poucos motivos para reclamar da falta de negritude do rock atual. A banda, formada por músicos nova-iorquinos, faz a conexão com o lado negro da música não por meio de estilos nascidos nos EUA (soul, funk, rap, blues ou mesmo o rock'n'roll de Chuck Berry), e sim via Jamaica e África.
Da terra de Bob Marley, eles trazem o reggae e o ska, ritmos genialmente explorados pelo The Clash no fim dos anos 70 e nos 80 e já velhos conhecidos de roqueiros "branquelos" de todo o mundo. A grande novidade do Vampire Weekend vem da África, e, principalmente, do recorte feito pelo grupo. Em vez de mergulhar no universo tradicional e folclórico, a banda preferiu fazer uso de um aspecto ainda menos conhecido do continente: a música pop.
KWASSA GUITARSEm "Cape Cod Kwassa Kwassa", por exemplo, o ouvinte entra em contato com o kwassa kwassa, ritmo de dança criado no Congo e muito popular no fim dos anos 80 (valeu, Wikipedia!). E a abordagem feita também merece atenção. Nada de coros de guerreiros massai, cânticos pigmeus ou qualquer coisa do tipo (que serve, muitas vezes, mais como uma fachada exótica do que como uma verdadeira fusão cultural): com exceção de um ou outro instrumento de percussão diferente, o som da banda é formado basicamente por guitarra, baixo, bateria, órgão e voz. É o rock independente americano dando sua interpretação da indústria cultural africana, que, por sua vez, já é uma adaptação da cultura de massas exportada pelos EUA à realidade local. Antropofagia pura (o próprio nome "Vampire Weekend" remete à idéia de humanos "devorando" humanos).
Mas as coisas ainda se complicam um pouco mais... Já na terceira faixa ("A-punk", um ska delicioso) começam a aparecer flautas, mas é em "M79" que se revela uma outra influência da banda: a música barroca européia. Tanto que ela começa com cordas e um órgão emulando som de cravo. A banda entra em seguida, e então os elementos roqueiros, afro/jamaicanos e barrocos passam a dialogar em uma geléia geral que primeiro soa estranha, depois curiosa, depois incoerente, depois genial e, por fim, deixa apenas um ponto de interrogação pairando sobre a cabeça do ouvinte. O que é bom sinal, aliás, já que de previsibilidade o mundo pop já está cheio.
Os arroubos vivaldianos reaparecem mais sutis em "Walcott" (faixa que, se não fosse pelo arranjo de cordas, poderia caber em um disco do Franz Ferdinand ao lado de "Campus" e "I stand correct") e "The kids don't stand a chance", canção lenta com cara de despedida e que não por acaso fecha o álbum. Mas em uma audição mais atenta é possível perceber que quase todas as músicas têm toques eruditos, nem que seja apenas um cello discreto.
WORLD MUSIC A LA GENESIS?Vampire Weekend é um disco difícil de ser avaliado. Ele com certeza traz frescor e novidade ao cenário roqueiro atual, mas não chega a ser revolucionário. Empolga pela viagem por universos sonoros tão díspares quanto a África pop e a Europa barroca, mas não soa realmente coeso, forte, pronto (até porque esse é o primeiro álbum dos caras, então vamos com calma...). A própria banda meio que assume sua fragilidade nos versos "Isto parece tão anti-natural/ Peter Gabriel também", de "Cape Cod Kwassa Kwassa".
Mas se a afirmação um tanto irônica dos próprios defeitos faz sentido, a comparação com Peter Gabriel (que alguns críticos vêm fazendo, inclusive) não. O som do Vampire Weekend é pop, jovem, dançante, passando longe dos experimentalismos (ou chatice, dependendo do ponto de vista...) dos álbuns world music do ex-Genesis.
Os nova-iorquinos estão no rumo certo e é só uma questão de (pouco) tempo para que o ponto de interrogação surgido na cabeça do ouvinte seja definitivamente convertido em ponto de exclamação admirado. Enquanto isso, vai ser divertido ver indies blasé requebrando os quadris ao som de ritmos africanos em clubinhos esfumaçados. Sasha Frere-Jones deve estar contente.
P.S.: a introdução de "Bryn" é parecidíssima com baião. Será que eles andam ouvindo Luiz Gonzaga ou é apenas acaso?