Sono, muito sono. É o que proporciona a fase "humana" e "acústica" da dupla Goldfrapp
Essa vida glamourosa, de jogação e hedonismo consumista cansa. Não só para você, jovem clubber (ainda mais para os não tão jovens), até para os artistas. E não falo só de drogas, noites mal dormidas e drinks
non-stop. Vivenciar a vida eletrônica como rotina tem seus momentos de estafa, que levam a verdadeiros
turning-points na vida.
É o que deve ter acontecido com Alison Goldfrapp. Depois de três consistentes álbuns que puseram a loira inglesa de distintos vocais e seu parceiro Will Gregory na linha do tempo do electro 2000s, chegou a hora de um descanso com
Seventh Tree, álbum parido de, dizem eles, difíceis sessões musicais no inverno de Bath, cidade histórica no interior da Inglaterra.
VIOLAS E OITAVAS: POPAdeus então às camadas e mais camadas de lampejos sintéticos, guitarras rasgadas e os característicos vocais de Alison canalizados em inserções extras de vocoders e outros efeitos rebolativos, marca registrada. Agora, é só cantoria quase acústica, pop mesmo. "Clows" abre o CD com suaves dedilhadas de violão - sim, violão na Goldrapp! -, que harmonizam sussurros que, se não fossem abafados, rasgariam o sininho do gogó quase numa
sexta oitava, de tão agudo. http://www.youtube.com/watch?v=_uU6aYNXnUk
Mágica e fantasia

A seguinte, "Little Bird", começa num lá-lá-lá de palavra cantada, loops de tecladinho Orbital lá no fundo a criar uma amplitude articial para essa dramaticidade natureba, presente em todo o disco (
She's like a little bird / She flies from a to b / To see what she can see / She's far away from me - esse tipo de coisa).
É uma estética pop, misto de Kate Bush e Air perfumado com introspecção de Radiohead instrumental. O ponto alto disso se dá em "Happiness", a melhor faixa do disco, que traz os sempre bem trabalhados backing-vocals , refrões fáceis e crescente pop que, ao contrário da linearidade folk do CD inteiro, aqui enfim chega a algum lugar:
How did you get to find / Love, real love. É epopéico e de polidez britânica, sem excessos, mas que
ao menos alcança um apogeu rítmico.
Seventh Tree é folk na concepção camponesa da coisa mesmo, não o folk como fator étnico tão utilizado atualmente pelo indie rock. É assexuado, ao contrário dos últimos dois discos (
Black Cherry de 2003, e Supernature, de 2006), e mágico, etéreo, esse tipo de idéia que se levada como mote de um CD inteiro, só pode mesmo desbancar no tédio extremo: "Eat Yourself" lembra Beatles e, se você não estiver relaxando e provido de um bom fone, passa batido. Do electroclash a Norah Jones
in love, assim, de repente, dói.
NÃO É UM NOVO "FELT MOUNTAIN"O "novo" Goldfrapp é assimilável, ainda mais com a horda de fãs sedentos pela loira e sua música, fato que ajuda a criar uma exagerada boa-vontade com o disco, e muita gente o faz com a falsa percepção que é uma versão tranqüila, "downtempo" de
Felt Mountain (2000), o primeiro e mais ousado trabalho deles.
Não, não tem nada a ver. A bizarrice circense e a nababesca experimentação eletrônica desse primeiro trabalho, um acinte aos padrões do electroclash vigente da época, é inexistente. Tem-se em
Seventh Tree alguns sopros desse saudoso passado: os violinos inesperados que surgem em "Cologne Cerrone Houdini" e a psicodelia discreta de "Monster Love" são exemplos insuficientes para uma banda que já está na maturidade de um quarto disco.
A simplicidade da nova estética faz com que tudo soe um pouco previsível. A eterna capacidade do Goldfrapp de criar um mosaico com seus incansáveis elementos deu lugar a um conta-gotas de barulhos interessantes, que consolam baladinhas insossas, como a "Road To Somewhere", um breakbeat desacelerado em base pop tradicional que só tem a oferecer os dun-da-ra-ru-rá que Alison solta às vezes, marcando as paradinhas. A maioria das músicas do ultra-produzido
Supernature e do electro-master
Black Cherry (ouça "Black Cherry") - mesmo as baladas - transbordavam essas boas características. Resta de consolo os bons remixes feitos por Gui Boratto e Hercules & Love Affair para o single "A&E".
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Goldfrapp - A&E (Hercules & Love Affair rmx) (mp3)
Goldfrapp - A&E (Hercules & Love Affair Remix)Flash Content
Goldfrapp - A&E (Gui Boratto Rmx) (mp3)
Goldfrapp - A&E (Gui Boratto Remix)PICOLÉ DE CHUCHU"Caravan Girl" é animada e poderia ser single junto com "Happiness". Tem boa bateria que atua como coadjuvante num piano setentista e inofensivo, Blondie sob efeito de morfina. Mas, gostaria de saber, Will Gregory teve a capacidade de abafar em segundo plano a maioria dos bons elementos das faixas!
Já "A&E", primeira música de
Seventh Tree lançada no mercado, reúne todas as características citadas acima: levada eletro-acústica que até se esforça, mas é nula, de tão insossa. Os pontos positivos são meros detalhes, como a levada rítmica do refrão e a explosão de baterias que fazem ponto para o epílogo em acordes de violão. E o
clipe ainda traz Alison de pijama, no campo, fugindo de monstros vestidos de folha, numa floresta outonal! Mas insosso, impossível, só chá de água morna.
Nao chega aos pes do Felt Mountain!