O nome do livro não é dos mais surpreendentes.
1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer, catatau de 960 páginas, entra na esteira de publicações que elegem os melhores filmes para assistir e lugares para conhecer antes de bater as botas. Apesar do nome inspirar certa desconfiança, a proposta é honesta: reunir 90 críticos e jornalistas musicais para peneirar os lançamentos essenciais da música nos últimos 50 anos. O livro foi lançado no Brasil pela Sextante, em tradução para o português de
Portugal, e tem edição geral de Robert Dimery.
O tratamento gráfico é vistoso, bem caprichado. A capa é ilustrada com uma foto de Sid Vicious - ex-baixista dos Sex Pistols - em um de seus arroubos de estrelismo, e as páginas internas são recheadas por imagens de discos e de artistas fazendo pose. A divisão do livro é feita por décadas, e cada início de capítulo traz pequenas pílulas de contextualização história, informando alguns dos principais acontecimentos daqueles anos. Assim como toda lista de melhores filmes sempre trará
Cidadão Kane no topo, espere muitas obviedades, como uma overdose de Beatles, Radiohead e a presença de brasileiros como Caetano Veloso e Mutantes. Mas num geral, a coletânea é coerente e equilibrada, lembrando o trabalho de gente como o
Einstürzende Neubaten e Missy Elliot, por exemplo.
HISTORIOGRAFIA SINTÉTICAEntre os artistas da música eletrônica, o leitor encontrará discos de bandas como Underworld - que aparece com
Second Toughest in the Infants, da clássica "Born Slippy" - e Prodigy - com seu
Fat Of The Land de "Smack My Bitch Up" e "Breathe". Entre os ícones sintéticos dos anos 90 tem ainda Chemical Brothers com
Dig Your Own Hole,
Exit Planet Dust e The Orb, para citar alguns.
Dos pioneiros, Kraftwerk emplacou três álbuns na coletânea. Sobre
Autobahn, por exemplo, o crítico Stephen Dalton (que já trabalhou em publicações como
Times,
Uncut e
NME) diz o seguinte: "(...) com a colaboração dos percussionistas Wolfgang Flür e Karl Bartos, Hüter e Schneider cristalizaram o som
prístino e a imagem dos quatro elementos que definiram o som dos Kraftwerk. O álbum contém peças sublimes e um ambiente pop
electrónico moderno (praticamente aqui inventado) (...)".
Dos brasileiros, os anos 70 têm, em uma única página, Djavan, Elis Regina, Tom Jobim, Vinícius de Morais e Toquinho. A década inclui ainda os clássicos
Clube da Esquina, de Milton Nascimento, e
Construção, de Chico Buarque. Como a seleção é abrangente, tem espaço nos anos mais recentes para lançamentos como
Destroy Rock & Roll (a resenha começa com a seguinte frase: "Toda a gente gosta de Mylo") e
Arular, da anglo-singalesa M.I.A. O funil é largo e permitiu que passasse até Coldplay com o insoso
A Rush of Blood to the Head entre as pérolas dos anos 2000.
PROSA ENROLADAApesar de trazer informações interessantes sobre bandas e artistas variados, o maior problema de
1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer é mesmo a tradução, que proporciona bizarras incompatibilidades lingüísticas. A prolixidade de nossos colonizadores torna a leitura desagradável em certos momentos, fazendo do livro mais uma enciclopédia para consulta que uma companhia de cabeceira. De qualquer forma, é melhor se apressar caso queira aceitar a tarefa proposta pelo título do livro, pois a vida não é tão longa quanto a história da música pop.
Trecho da resenha de Second Toughest in the Infants, do Underworld:
"Dubnobasswithmyheadman foi o primeiro e, por essa razão, eclipsou o álbum excelente que viria depois, em 1996, Second..., que se colocou em nono lugar nas tabelas britânicas. Second... não é nada mais, nada menos do que um claro interface de ritmos de dança e rock progressivo, representando um dos trabalhos mais maduros e surpreendentes dos anos 90.
Aos seis minutos, quando a faixa de abertura "Juanita" dá lugar a "Kiteless", começa a surgir a magia de Underworld. Para ser transportado até o âmago da questão, o ouvinte é levado até ao drum'n'nbass de "Bannstyle", do qual desabrocha "Sappys Curry", um tema de guitarras acústicas e compassos sinistros. Desde "Rowla" até "Stagger", no tema final, Hyde assume a postura de narrador, agarra em fragmentos de conversas e repete-os de forma aleatória e repetitiva."
Eu ganhei de presente, mas vale a pena comprar.