A voz de Beth Gibbons e o trip hop em clima de cabaré no disco de estréia do grupo inglês
Botar Portishead para tocar hoje é como abrir um parênteses na realidade. Sem lançar músicas inéditas desde 1997 — e com um disco novo previsto para abril —, a banda britânica será sempre lembrada pelo seu aclamado disco de estréia,
Dummy, de 1994. O álbum, lançado modestamente na época, apresenta onze climáticas canções capazes de reunir influências tão díspares como jazz, trilhas de filmes, música francesa dos anos sessenta, todas permeadas por loops, scratches e uma levada tributária à black music de momentos menos festivos. Tudo para, no fim das contas, transportar o ouvinte para um enevoado ambiente de
new cabaret — não à toa, o som arregimentou uma legião de fãs entre todos aqueles que curtem uma boa fossa.
Ocorre que dor-de-cotovelo sempre vai bem acompanhada por uma aura de classe e glamour. E isso, a vocalista Beth Gibbons tem de sobra. Dona de um timbre que se sobressai mais pela originalidade do que pela técnica, sua voz é capaz de conduzir o ouvinte aos meandros dilacerados da dor de amor e do arrependimento — temas recorrentes no álbum, mas não só. Com um tom intimista, e os arranjos do multi-instrumentista Geoff Barrow, a banda — formada ainda pelo contrabaixista Adrian Utley e o engenheiro de som Dave McDonald — faz um som rico em diferentes texturas, muitas vezes dosadas por uma pitada de distorções, característica essa mais sentida no disco seguinte, lançado em 1997, e batizado simplesmente de
Portishead.
CLONESA repercussão do disco, aliada à postura reclusa e low profile da banda — avesssa a entrevistas e ao culto indistinto à personalidade — foi tamanha que, toda nova banda, com ou sem mulher nos vocais, a surgir com um som levemente semelhante, já era alçada à categoria de "o novo Portishead". Assim, temos um corolário de exemplos, com mais ou menos personalidade, que sempre eram descritos como "uma coisa assim meio Portishead". É o caso, por exemplo, de Ruby, Thou, Alpha, Sneaker Pimps, Morcheeba, Moloko... O que só atesta o compromisso da banda empenhada em honrar a sua justa reputação e primazia na busca por um universo musical singular e representativo.
DUMMY, O DISCO. TRIP-HOP, O ESTILO.
Quando se conheceram numa fila de desempregados, Gibbons e Barrow possivelmente não imaginavam lançar um dos discos mais aclamados dos anos 90. Um dos ápices da produção britânica do período, o álbum contribuiu junto com Massive Attack e Tricky para definir um estilo, logo reconhecido como Trip-Hop. Em julho de 1995, nove meses após o lançamento,
Dummy conquistou o Mercury Prize — mais importante distinção da indústria musical inglesa — na categoria álbum do ano, batendo nomes como Oasis, Blur, Suede e Pulp. O fato de ter sido eleito o melhor do ano também por publicações de perfis tão diferentes como Melody Maker, Mixmag e The Face, evidencia a capacidade do Portishead de sensibilizar diferentes públicos sem comprometer sua expressão criativa.
Em um momento pré-popularização da Internet, o acesso à boa informação musical ainda se dava muito por revistas gringas, lojas de discos e via MTV. Hit das madrugadas do canal televisivo, o
o clipe de "Glory Box" foi, na época, um cartão de boas vindas ao universo da banda para muita gente. Com uma levada de baixo sampleada de Isaac Hayes — posteriormente empregado também pelos Racionais MC's, no álbum
Sobrevivendo no Inferno — e tocada repetidamente ao longo da canção, a música tem guitarras afiadas e lamuriosa interpretação de Beth Gibbons, além de uma surpreendente intervenção percursiva no final, um corte seco que aprofunda seu andamento hipnótico e lento.
O disco começa com suntuosos acordes de teremim — mesmo instrumento usado por artistas díspares como Pato Fu e Daniel Wang. Acompanhada por uma bateria levada como uma marcha, Beth Gibbons fala de recusa e arrependimento já na lúgubre abertura, "Mysterons". A canção termina com gelados sintetizadores. De cara, fica dado o recado: é de dor e de paixão que vai se tratar aqui.
A faixa seguinte, "Sour Times", foi o primeiro single e tem toques de tango eletrônico, em uma frase de contrabaixo repetida continuamente. Com uma cadência mais rápida que a música anterior, a curiosidade fica por conta do inusitado sample extraído da trilha de
Missão Impossível.
SAMPLES EM DUMMY
Isaac Hayes
Weather Report
Missão Impossível
War
Johnny Ray
"Strangers", próximo capítulo do disco, traz Beth Gibbons em dois registros diferentes — uma introdução mais seca, seguida por um longo trecho em que a voz surge mais direta e encorpada. Aqui a banda sampleia o grupo do jazzista Wayne Shorter, o Weather Report, e o resultado é uma das músicas mais divertidas do disco. Suingada, entrecortada por uma base pesada e incisiva, sem nunca recorrer a obviedades e lugares-comuns para fazer dançar, esta canção bem poderia estar numa compilação de acid jazz do período. Embora não faria feio em nenhuma pista bacanuda até hoje.
Pequenas dancinhas em "Wandering Star", também com vocais lamuriosos, batida seca e sample — dessa vez do War, banda de Eric Burdon, o mesmo do Animals, lendário frontman dos 60's — e uma cortante ironia. Os versos iniciais da música começam com um doce convite: (Please could you stay awhile to share my grief / Por favor, você poderia ficar por perto para dividirmos minha tristeza?), para mais adiante tratar da dor de junkies e quetais.
MELANCOLIA
Em "It's a Fire', outro ponto alto, uma bateria dobrada compõe um dos momentos mais doces do disco. Beth Gibbons canta a dor da danação, de uma impossível transcendência em uma melodia que faz breve alusão aos ritmos difundidos por girlie groups dos anos 60 — aqui em roupagem mais lenta, cool, com uma seção de cordas no começo e no meio da música — sim, a repetição é um procedimento usual no Portishead, mas nada cansativo.
"Numb", a faixa seguinte, fez sucesso na época com uma programação eletrônica que mescla múltiplos sons — sintetizadores e scratches que mais parecem pedaços de voz. Tem ainda a bateria de jazz lo-fi e uma musicalidade que se rende à opacidade nos sons. E o que dizer de trechos como "And this loneliness/ It just won't leave me alone" (Esta solidão/Que não me deixa em paz)?
Então o disco mergulha na mais intensa melancolia de faixas como "Roads" e sua proeminente seção de cordas, levada pelo grupo Strings Unlimited; "Pedestal", que é irmã de "Strangers" e "Wandering Stars" por seu apelo jazzy; e "Biscuit", das mais pesadas e arrastadas do disco, tem sample de Johnny Ray, músico dos anos 50 que, dizem, era surdo. Nada demais, não fosse o fato de Beth Gibbons cantar na letra "I can't make myself heard no matter how hard I scream... (Não consigo me fazer ouvida, não importa o quanto eu grite]. E, por fim, o arremate, o gran finale, com a já saudada "Glory Box" e suas derramadas e (de)crescentes guitarras.
Amo Portishead!