O francês Anthony Gonzalez, homem por trás do projeto M83, é um daqueles músicos que sabem como se reinventar. Desde seu álbum de estréia, homônimo, quando ainda compunha ao lado de Nicolas Fromageau, Anthony passou por momentos de prolífica mutação. Ele ficou famoso explorando os limites da timbragem lo-fi, foi apontado como uma extensão mais etérea do shoegazing britânico e, mais recentemente, largou mão de qualquer materialidade sonora para começar a série
Digital Shades, dedicada exclusivamente ao ambient.
Passados sete anos desde seu debut, o M83 retorna com mais uma guinada. Em relação a seus quatro trabalhos anteriores,
Saturdays = Youth se difere em quase tudo - temática, método de composição e sonoridade. Apesar de Anthony ter revisado as fórmulas mais uma vez, a aproximação etérea e até mesmo singela que o francês tem da música eletrônica continua a mesma, desenganando qualquer receio de que esse disco soasse como um fruto alienígena em sua discografia.
TRIBUTO ADOLESCENTEUma rápida exploração pelo álbum revela onde Anthony queria chegar com esse novo trabalho. Da arte de capa, passando pelo título até chegar à música em si, tudo soa como um poema carregado de nostalgia; um aceno do M83 ao seu passado, assim como ao de muitos de seus fãs.
Em entrevista recente à publicação digital
Remix Magazine, Gonzalez confirma que "o álbum é um tributo à minha adolescência, que foi o período mais lindo da minha

vida. Aprendi muito nesses tempos e me diverti muito descobrindo coisas como drogas, músicas novas e novos filmes. Foi um período de experimentação na minha vida. Era como se eu estivesse descobrindo algo novo e incrível a cada dia. Podemos dizer que é um tributo aos nossos anos de adolescentes".
Ocasionalmente, esses anos aos quais Anthony se refere estão situados justamente na década de 80. E essa escolha conceitual de
Satuday = Youth reflete diretamente na sonoridade de todo o álbum, que resgata o lado melódico do synth-pop daquela década e o rock surgido após o período de hegemonia do sintetizador. Ao contrário de reavivar apenas o aspecto mais comercial oitentista, o M83 optou por fazer uma homenagem sincera, sem reciclagens estereotipadas nem afetação.
ALÉM DO SYNTH-POPHá espaço para belos dedilhados de piano e para guitarras abafadas, além dos vocais aveludados da cantora norte-americana Morgan Kibby. O gogó da moça garante um dos melhores momentos do disco, "Up!", rodeado por synths gotejantes e teclados em crescendo. A melodia é de apertar o coração, e apesar de quase não fazer lembrar dos trabalhos anteriores do francês, não deixa nenhuma sensação de que antes era melhor.
Para rebobinar a fita, Anthony contou também com o
know-how do produtor Ken Thomas - veterano que trabalhou com artistas como Cocteau Twins e Dave Gahan, do Depeche Mode. Como se não bastasse, o álbum tem ainda a mão do inglês Ewan Pearson, responsável por alguns dos mais celebrados discos de artistas como Rapture e Tracey Thorn.
O primeiro single do álbum, "Couleurs", é outro momento de arroubo etéreo-pop-oitentista. Guitarras surgem repentinamente com um único acorde, submergem sob um mar de teclados atmosféricos e reaparecem em outra altura da escala. Já a mórbida "Graveyard Girl" tem o pé bem firme sobre o rock da virada para os anos 90, quando os anos dourados de Anthony já se precipitavam em direção à maturidade.
Apesar de seu lançamento coincidir com uma batelada de outros álbuns que também pagam tributo aos 80,
Saturdays = Youth tem seus diferenciais. A iniciativa pode não ser novidade, mas por resgatar um período histórico - e não uma sonoridade específica como a do synth-pop -, o novo álbum de Anthony ganha pela variedade. Há rock, ambient em "Midnight Souls Still Remain" e pop. Tudo condensado em abordagem etérea e sonhadora, que com o passar do tempo tem se tornado uma das únicas maneiras de definir a música produzida pelo M83 ao longo de sua carreira.