O tempo contra: banda foge do estigma trip hop, mas disco tem narrativa monocórdica
Para quem acompanha os desdobramentos da boa música produzida hoje, é quase obrigatório ouvir
Third, o disco novo do Portishead. Depois de um hiato de onze anos (!) sem material inédito, a volta sugere relevância e a banda continua eficiente - até demais - em comunicar, com precisão, seu desolamento e tristeza. O que há de errado, então?
Ressaltar o que depõe contra o resultado final de um trabalho realizado por um grupo com muitos méritos não é tarefa simples. Está lá a interpretação, desta vez mais dilacerada do que nunca, de Beth Gibbons, além de soluções criativas, como na substituição de scratches, uma característica do som da banda - mas que facilmente poderia redundar no lugar-comum usual para definir o que é trip-hop - por tambores e drum machine. Encorpado, o som surge em batidas e andamentos secos. A guitarra oxidada, até então outra de suas marcas expressivas, aqui ganha um novo registro, límpido - embora, no entanto, contribua ainda mais para uma calculada sensação de dissonância e distorção harmônica.
O PRESSÁGIO
Um vídeo institucional do CVV (Centro de Valorização da Vida) adquiriu ares de mórbida futurologia. Em 1999 a modelo Fernanda Vogel estrelou o comercial que, ao som da melancólica "Glory Box" do Portishead, simulava um suicídio em alto-mar. Dois anos depois Fernanda foi vítima de um acidente de helicóptero com seu namorado, o empresário João Paulo Diniz, no litoral paulista. Após a queda no oceano, a modelo não resistiu e faleceu. Seu corpo foi encontrado na região de Maresias, e o clipe CVV/Glory Box ficou marcado por uma triste superstição.
Em sua linguagem atual a banda recupera um tanto do progressivo, do industrial e dá sua interpretação para o grime - gênero de batidas incisivas, pesadas e dançantes, com influências assimiladas da música jamaicana. É realmente notável o empenho em avançar os sentidos do que normalmente seria tomado como trip-hop, mas que facilmente resultava em um anódino acompanhamento do que quer que fosse, de um filme do Bernardo Bertolucci - e não dos melhores, por sinal -, a um
comercial do CVV, ou "música para relaxar."
Isso dito, resta atentar para uma aridez monolítica que permeia o disco. Se por certo há surpresas como "Deep Water" - a mais curta, com aproximadamente um minuto e meio, uma pérola folk incrustrada bem no meio, como a dividir o disco em duas metades, sendo que a segunda promove um mergulho ainda mais profundo num tom entristecido e aflitivo, em momentos como "Small" ou "Threads" -, no todo, o som surge muito plano, com poucas matizes e variações de timbre de uma canção para outra. Certa uniformidade sonora impregna o resultado final e, pior ainda, evidencia perigosamente as deficiências da voz de Beth Gibbons - forçada a carregar sozinha o piano em um conjunto de canções de esparsas melodias.
INFLEXÍVELEm recente
entrevista ao Pitchfork Media, Geoff Barrows diz que sente-se como um macaquinho adestrado quando novamente toca
Glory Box, um antigo hit da banda. Por outro lado, é curioso como a tristeza do Portishead 2008 tende a soar um tanto ensaiada. A sensação que fica é a de que para acentuar a dor - tão bem expressa na interpretação de Gibbons -, foi necessário diminuir a abrangência dos arranjos que, embora bem produzidos, por hora estão também muito mais áridos. Em outro momento da matéria, o entrevistador compara a postura da banda à desolação do Ian Curtis - vocalista do Joy Division que suicidou-se em 1980 -, apontando, no caso de Beth Gibbons, para um deslocado humor juvenil em detrimento da sua idade, algo posto em evidência por um canto demasiadamente dramático. Resta a Adrian Utley responder o que todos pressupomos: "Beth Gibbons é adulta e sabe o que faz."
Beth Gibbons, em frangalhos

No mesmo texto, é dito ainda pelo repórter que "Machine Gun", um primeiro single, é certamente uma canção inflexível. Assim pode-se afirmar sobre o disco quase que integralmente, e a escolha da citada música como cartão de visitas foi muito justa, portanto. Os elementos assumidos - a guitarra mais acelerada que de costume para a banda, além de seu tom cortante, os tambores, os teclados espectrais, a voz em frangalhos de Beth Gibbons, os acordes de piano, as repetições de andamento - soam monocórdicos, e tornam a experiência de audição de
Third um tanto monótona, mesmo no caso de ouvintes mais afeitos a experimentações sonoras. Ao confundir minimalismo com pleonasmo, reiteração com redundância, transborda quase a sensação de se estar ouvindo sempre a mesma canção. Não à toa que "We Carry On", possivel próximo single, seja um ponto alto do disco. Sua vitalidade é certamente um afortunado contraponto ao conjunto todo.
Média final de Third (GOSTEI + NÃO GOSTEI): 3.3