Se você gosta da sonoridade eletrônica que Giorgio Moroder espalhou mundo afora nos anos 70, difícil não cair de quatro por
Night Drive, disco do quarteto americano Chromatics (não confundir com outro Chromatics do MySpace, uma dupla de breaks).
Mas não há só a pegada setentista. Sobre acordes dramáticos de teclado e riffs pegajosos de guitarra, a voz de Ruth Radalet nos leva aos anos 80 de Debbie Harry, Kim Wilde e Nena. Além de ser o carão charmoso do grupo, Ruth tem esse timbre de voz bonito, triste e chique ao mesmo tempo - características que Donna Summer dominava em suas faixas mais fossa.
O que mais impressiona no disco são os climões. As músicas viajam por atmosferas que variam dentro de uma mesma paleta de cores: a da música eletrônica
low-tech. É como se o grupo pegasse a máxima do punk e montasse as músicas usando o bê-a-bá da eletrônica (sintetizadores, notas repetitivas, seqüências rítmicas cíclicas). Por cima disso tudo, destaque especial para as guitarras e vocais.
Entre os quatro integrantes, o mais provável mentor intelectual de tudo isso é Johnny Jewel, que se divide entre o Chromatics e outro projeto do selo Italians Do It Better, o Glass Candy, que
em breve toca no Brasil.
Ruth Radalet aka Myrian Rios

CHROMATICS ≠ GLASS CANDYQuando saiu, no final de 2007,
Night Drive foi logo metido na gaveta da "nova disco", junto com o Glass Candy. Mas não foi muito justo. Porque enquanto o Glass Candy, assim como outros projetos do selo IDIB, pesam a mão no lado pista de dança dos anos 70, o Chromatics prefere usar apenas nuances daquela década. É mais sutil na sua busca pelo acento disco. Exemplo desta falta de compromisso em fazer dançar é que o álbum é quase todo lento.
Em "Night Drive", por exemplo, a banda está bem mais próxima do Blondie do início dos anos 80 do que qualquer outra coisa - sem contar que o visual de Ruth ajuda muito nesta atmosfera oitentista, com suas roupas à la Olivia Newton John e o jeitão de
Myrian Rios.
Outra que não deixa muito espaço para o rótulo de nova disco é a onírica "The Killing Spree". Com loop hipnótico de teclados e nenhuma batida, descamba para uma experimentação minimalista bonita e despretensiosa. Já "Healer" lembra o rock dos tempos da disco music, na linha de La Bionda, enquanto "Mask" empresta orientação oriental a um electropop que lembra Depeche Mode nos tempos de
Speak & Spell.
Também desacelerada, "Tomorrow is So Far Away" poderia entrar na seção de lentas de qualquer disco produzido por Giorgio Moroder - lembra aquelas músicas mais chorosas da trilha do
Flashdance.
COERÊNCIAUm dos melhores momentos do disco é a cover de "Running Up That Hill", de Kate Bush. Mexer num clássico com vara curta, ainda mais em um que não tem gordurinhas pra arrancar, é um perigo. Mas, na versão do Chromatics, tão minimalista quanto a de Kate, um ou outro sotaque eletrônico só fizeram bem à música.
Night Drive é um disco coerente, que entrega o que insinua desde a primeira faixa, "The Telephone Call", uma vinheta em que se ouve uma conversa entre uma garota e seu namorado, por telefone, depois de uma noite de trabalho na boate. É a deixa perfeita para o som que vem a seguir, quase música de chill-out. O disco vale cada minuto gasto, ainda mais se for degustado numa madrugada sem maiores pretensões.
Adoro eles, o som é muito mais ''dificil'' que o glass candy! ^^