Coachella - Segunda dia
Pedro D, do Bonde
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Coachella 2008 - Dia 02 (26/abr)
27.04.08 11:30
Coachella 2008 - Dia 02 (26/abr)
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Coachella - Segunda dia
Núcleo do festival assistiu a estréia do novo Bonde do Rolê e shows de Prince e MGMT
27.04.08 12:10
Não teve para ninguém no segundo dia de shows do Coachella Valley Music and Arts Festival 2008: Kraftwerk, Portishead e Prince representaram numa seqüência avassaladora no palco principal a dimensão desse festival californiano. Primeiro o Kraftwerk, que fez em compactos 50 minutos o seu clássico show audiovisual que explicita bem seus dogmas - o quarteto de Dusseldorf, ao vivo, representa nada menos que a origem de tudo que conhecemos na eletrônica.

Kraftwerk
Kraftwerk
Do sintético mundo de tags "Man Machine" (robot - entertainment - human being - machine e afins) ao ego sutil de seus passos robóticos ("We teach you how to dance"), está tudo ali nos calmos blips dos tiozões alemães: em "Autobahn" tem a essência minimal tão fundida hoje, e Radioactivity mistura em breaks e espamos hipnóticos a raíz do que, por exemplo, o dubstep, outra sonoridade também bem comentada hoje. E falando de radioatividade, o show no Coachella foi solene e emblemático por ser exatamente 22 anos depois do acidente de Chernoby (26/abr/86), fato lembrado no telão durante o encerramento da música.

Com uma alentadora brisa quente de começo de noite, o Coachella Stage se preparava para receber o Portishead com excitação quase unânime, se não fosse pelos concorridos shows de Sasha & John Digweed e M.I.A. lá na tenda Sahara. Alías, a rapper britânica causou tumulto ao chamar geral para dançar no palco: houve empurra-empurra e a grade da fila do gargarejo cedeu, causando tumulto e até alguns feridos entre os fotógrafos do fosso. De qualquer maneira, foi no palco o melhor momento do festival até agora: Beth Gibbons e sua trupe que expressam a beleza através da melancolia de sua música. O show foi ideal, misturou música dos três álbuns, com destaque para a versão acústica de "Wandering Stars" e a magnânima "Glory Box", esticada no final em uma jam industrial e bizarra de tão grandiosa, mostrando que a nova fase experimental e barulheira do recente Third no fundo não é novidade alguma - no fundo a banda sempre foi subestimada pelo estigma trip hop da cadência e dos scratchs de suas músicas iniciais.

Portishead
Portishead
Ao vivo, Beth canta interpretando o que suas letras expressam, suas expressões faciais e a parada estratégica de costas ao público enquanto não cantam são a alma do Portishead ao vivo. "Roads" foi um momento quase suicida, com Beth raspando os lábios no microfone e o telão do palco em estética de filme antigo foi um espetáculo à parte, junto com as intervenções curiosas de Geoff Barrow: um alicate nas distorções de "Sour Times" e cornetas desafinadas em "Threads", novo single do último álbum. Vale o registro do peso de "Machine Gun" ao vivo - se você não gosta da "nova fase" do Portishead, permita-se ao menos entender a mistura quase letal da drum machine industrial onipresente com o canto angustiado, quase diabólico.

Beth Gibbons repetiu tímida algumas vezes "preciso dizer algo", mas nada falava. Ao final do show, ela desceu no fosso e cumprimentou fãs na frente do palco, visivelmente emocionada. Foi um momento e tanto, Portishead ao vivo é um must see para a vida. Hello, Tim Festival???


PRINCE, O FANFARRÃO
Mas em termos de espetáculo, a noite foi dele, Prince, ovacionadíssimo por um público ansioso a ver o tal show que custou US$ 4,8 milhões. Quase meia hora de atraso, uns dez músicos no palco e ele chega, nanico num salto de plástico, distorcendo suas guitarras e convidado o Coachella a participar de uma festa, pedido refeito a toda hora - "agora vocês estão no lugar mais legal do planeta!". De fato, o clima é contagiante apesar da breguice latente - quem não gosta ou não entende a importância daquela fanfarra funk, ao menos estava com um sorriso no rosto, já que o carisma deste showman é indefectível.

Prince no telão
Prince no telão
Ao contrário da maioria de nós, brazucas, que sabe de Prince por 4 ou 5 hits pontuais ("Kiss" e "When Doves Cry", por exemplo), o público americano recebe no gogó qualquer intervenção vocal do cantor, das famosas "I Feel For You" (cantada em medley com "1999"), até as cantaroladas dos simpáticos negões dançarinos que o acompanhavam. Ponto alto na presença feminina do palco - as backing vocals, a exímia e jovem baterista, fora a frontwoman Sheila E., parceira de longa data. Sheila é multi-percussionista, cantora e dançarina, tudo ao mesmo tempo, e é por causa dela o único momento que o popstar se esconde, atrás da caixa com sua guitarra para que ela brilhe por completo.

E a guitarra de Prince, o Tim Maia americano, é um caso à parte. Foram longos (e cansativos) os solos, da soul music festeira até o mela-cueca infinito, que foi acompanhado de toda a encenação pintosa do cara, que sentia a música e a tratava como a mulher amada na cama. Esses momentos de black music para sexo pélvico foi trilha sonora para enlaces amorosos que geraram muitos dos jovens ali no público. Gostoso perceber a importância que Prince dá à music non stop, por mais ególatra que ele seja, o que ele quer é festa, e não pausas para aplausos - "I'm feeling funky, and you?", repetiu várias vezes - funk é um estado de espírito.

Mas aí chegaram as versões esquisitas para "Creep" (Radiohead - sério!!!!) e "Come Together" (Beatles) e foi hora de ir embora, ou encarar um trance infinitamente melódico com o Above & Beyond lá na tenda distante.

LOGO CEDO...
...teve no mesmo palco principal a ótima apresentação dos americanos do VHS or Beta, uma mistura de rock, deep house e The Cure, que ficou relativamente conhecida lá por 2005 com seu debut Night on Fire. Ouvindo é de se imaginar ingleses do interior - o clima New Order é deliciosamente explícito, mas quem comanda a festa é o guitarrista e vocalista Craig Pfunder, japinha magrelo de cara emo. Ótimos os momentos instrumentais, como "Nightwaves", atmosfera baleárica criado por riffs distorcidos, bateria bem marcada e bases soltas lá de trás, mas imperceptíveis pela presença rocker de uma banda com duas guitarras, baixo e tudo mais.

THEY FUCKED THEIR AMERICAN CUNTS
Tem uma regra local que diz que para gostar dos Teenagers você tem que dividir sua idade pela metade e então acrescentar no máximo sete anos. Velhices à parte, o show é gracinha, diria a Hebe. A banda é toda bonitinha e, não tendo grande repertório, investiu na sintonia com a calorosa platéia. Valeu chamar um monte de garotas para cantar o hit "Homecoming", único momento realmente especial do show - mesmo "Fuck Nicole" (a outra música boa do disco de estréia do grupo) perdeu um pouco ao vivo.

HYPE CHECK
Hora de conferir certos hypes esperados, e o MGMT lotou a tenda Mojave para repetir a "Síndrome do iPod", explícita pelo Cut Copy no dia anterior: as boas surpresas de jovens bandas não são necessariamente shows fantásticos. Esses nova-iorquinos são como uma bela banda de garagem - corretos, mas há de se comer muito feijão ainda. Isso de maneira alguma é uma crítica, apenas uma constatação factual corroborada com a repetida recepção morna do público - talvez brasileiro seja muito mais animado para show mesmo...

Enfim, "Electric Feel" foi ponto alto com seu clima funk e o final com "Kids" só não foi épico porque, enfim, não era pra ser. Mais curioso foi ver a bagunça big band do Man Man, jovens rapazes que conseguem acertar a sincronia de cantos folk, teclados quase destruídos de tão caoticamente tocados, trompetes e baterias pequenas, daquelas quase infantis. Ao contrário do MGMT, vale pela apresentação.

120 Days
120 Days
Na tenda menor, os noruegueses do 120 Days atrasaram bastante para a montagem de duas imensas séries de sintetizadores, que mostraram após certo nervosismo dos jovens um pós-punk melódico e com as duas pernas no krautrock. O vocalista Jonas Dahl é bonito e tem toda a pinta de rockstar problemático, sua pose blasé mas ansiosa por retorno do público era curiosa, e novamente a sincronia fez o mote de um show - não parece ser fácil se dividir entre teclados, knobs de sintetizador, vocal e atitude exagerada. Dos hits do primeiro álbum, praticamente nada, mais que um show o 120 Days é um live eletrônico a se ouvir em 2 horas e meia (fica a dica, Sónarsound São Paulo...) e nessa fase 2008 deu para sentir um perfume sonoro de Lindstrom, conterrâneo que produzirá o novo disco dos caras.

O NOVO BONDE
Logo após os noruegueses foi a vez do compacto show dos brasileiros do Bonde do Rolê, que estrearam sua nova formação na gringa. Fato que Marina faz falta, mesmo com a firmeza do vocal de Ana Bernardino e hmm, a presença mascote de Laura Taylor, que não fez muito a não ser pular e gritar "êêÊÊêÊ". Antes o esfrega-esfrega de Pedro e Marina era parte bacana da performance, agora essa interação soa um pouco tímida com as novas meninas, mesmo que Pedro não abrisse mão de se referir ao Bonde como se fosse uma família antiga. De modo que eles têm público cativo, americanos a tentar cantar "James Bond" em inglês, algo bem engraçado ali na fila do gargarejo.

PISTA CHEIA
Erol Alkan
Erol Alkan
Na gigante tenda Sahara (a Movement do Coachella), ninguém queria saber de showzinho - ao contrário de SebastiAn na sexta, Kavinski realmente fez um live maximalista, com toda aquela atmosfera automobilística que lhe cabe. Mas foi Boyz Noise e Erol Alkan que lotaram com suas misturas de techno, booties e electros salpicados por inserções rockers. Um simplesmente detonou com um música insana que repetia "This is Michael Jackson, This is Michael Jackson.." e remix de Feist - hit certo -, e outro mandou ver no techno sério com direito a Arctic Monkeys remixado.

Na seqüência desses sets teve um dos shows mais disputados do dia, o Hot Chip, todo de branco para mostrar a força eletrônica de seus synth-pop que de oitentista não tem nada, mérito conquistado numa curta carreira de três discos e hits sérios como "Colors", "Ready To The Floor" e "Over and Over", que não veio gratuita, mas sim seguida de alguns minutos de chuvas sintéticas quase virando techno.

MOMENTO BANDA
Cheio de convidados especiais, o super-produtor Mark Ronson tinha a missão de fazer o show com complicadíssima competição no horário - Kraftwerk, MIA e Portishead. Quem tirou um tempinho para ver pelo menos uma parte da apresentação sabe que valeu a pena, principalmente pela fantástica banda (com membros dos Dap Kings de Sharon Jones no naipe de metais e cordas dando o clima Phil Spector do álbum "Versions"). Entre os chamados ao palco, Sam Sparro (que substuiu o vocalista Daniel Merrywather na versão de "Stop Me"), Jamie Reynaolds do Klaxons e Rick Wilson do Kaiser Chiefs fazendo "Oh My God", e Kenna em "Just". Fantástico o encerramento com Tim Burgess, do Charlatans (e toda a platéia) cantando "The Only One I Know".

SCARY!
E quando você acha que já viu de tudo aparece uma banda de trance-nu-metal no mundo. Chama Enter Shikari e é algo assustador. Provavelmente um dos momentos mais, digamos, intensos do festival, goste você ou não da mistura de rock pesado com mosh pits e teclado psicoldélico no fundo. Junto com o show do Pendulum de ontem, ficou marcado como momento farofa-hard-core do Coachella 2008. Nunca mais!

Espremido entre Prince e Portishead, o jovem inglês Calvin Harris é gente grande como produtor - seu pop houseiro foi o melhor momento da pequenta tenda Gobi de todo o sábado, palmeiras ao fundo na noite quente e hits como "Girls", "Vegas" e "Neon Rocks" cantados à exaustão pelo público e tocados naturalmente, Calvin comandando uma mesa de efeitos e cantando a frente da banda (guitarra, baixo e bateria). É music non stop também, tinha tudo para ser enlatado pop-dance inglês, mas Calvin Harris segue a linha de Groove Armada e Basement Jaxx e faz dance music brilhante com a única finalidade que o rótulo lhe cabe: dançar.

Foi um belo sábado, provavelmente o melhor dia do festival que reserva para o domingo misturas estranhas como Roger Waters, Justice, Duffy, Dimitri from Paris e Kid Sister. Até lá!

Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
it's like the 60s, with no hope
Gaía Passarelli
Gaía Passarelli
comentários
Aline
Aline(02.05.08)
0AprovadoQueima
eu me arrepiei muito no show do portishead! ABSURDO!
kaks
kaks(30.04.08)
1AprovadoQueima
Portishead p tim festival já! E morte ao trip-hop? Nunca!
Dennis
Dennis(29.04.08)
0AprovadoQueima
musica!! jah eh genero suficiente pra quem gosta de ouvir..
Catarina Liarth
Catarina Liarth(29.04.08)
0AprovadoQueima
Bem, meu caros, e o sexo (gênero) dos anjos alguém, sabe!?

=]

;*** Bjks.
Dennis
Dennis(29.04.08)
0AprovadoQueima
quanto ao kraftwerk inspirar o daft punk, ok! mas o justice segue uma linha mais metallica:

vide:
Justice 2007
http://www.youtube.com/watch?v=G3Wvz8iEW_s

Metallica 1986
http://www.youtube.com/watch?v=M-ua0iVhN9w

c olharem direito no video do metallica irao ver q a inspiracao transcende a esfera da composicao musical...
 
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