Um saudoso mix de electro-pop daquele que deveria ser o eterno produtor da Madonna
08.05.08 13:55
Ah, então a etiqueta de hoje exige que o DJ badalado saiba misturar com maestria techno, minimal e Duran Duran no mesmo set? Num passado não muito distante em que o electrocla$h -com humor e muita diversão - pasteurizava as pistas, um produtor já pingava Devo sobre "House Nation": Jacques Lu Cont, ele, fantasia galicista do inglês Stuart Price, aquele do Les Rythmes Digitales. O LRD é o responsável pelo assombroso Darkdancer, marco da eletrônica na década passada, que completa dez anos em 2009 e será certo para um futuro tesouros.
Jacques Lu Cont é Stuart Price com cabelo vermelho ou com olho tortinho...
Jacques Lu Cont foi a produtiva alcunha de DJ de Stuart, que ainda é bem lembrado como o produtor da Madonna em Confessions.., o ótimo álbum lançado pela cantora antes dessa exagero Timbaland de hoje. DJ que chegou a tocar no Brasil na extinta U-Turn (SP), Lu Cont foi autor em 2003 do nono episódio da série FabricLive. Não ouvi todos os mixes lançado nos últimos anos, mas para uma época em que electro era o must sobre os repetitivos techno, house e afins, esse Fabric é uma aula pioneira do que se busca hoje com afinco: com concisão e técnica infalível, contar num set uma história variada em elementos e gêneros bem distintos.
COSTURA = MIXAGEM = NARRATIVA E técnica infalível é um desafio ainda maior com tanta mistureba: as "viradas" (expressão boa na fala, mas horrível na escrita) de Lu Cont nesse CD são perfeitas por não serem ruídos ou simples sinalizadores de transição, mas sim por serem parte da costura musical que, assim como as faixas, também contam algo na narrativa musical que é um set.
Vamos às evidências que comprovem esse monte de elogios, logo nas três primeiras faixas: um pop pré-minimal do francês Mirwais (também outro mentor de Madonna em Ray of Light e American Life), com vocal rocker afetado de Craig Werden casando lindamente com a disco old-school de um tal projeto Risan (1982), que abre alas para a contemporânea "Wordy Rappinghood", do Tom Tom Club. Ouça.
Jacques Lu Cont - Risan - Eastern Palace (mp3) MIX: Mirwais &.Craig Wedren - Miss You (Thin White Duke Mix) >> Risan - Eastern Palace >> Tom Tom Club - Wordy Rappinghood
Na primeira mixagem a transição é brusca, mas de galope coerente. E na segunda virada há uma sublime transição linear de duas faixas similares, aquilo que na teoria parece prático, mas na prática é outra história. Junto com esse combo disco-tech-pop vem o Chicken Lips da época em que disco punk era a disco do momento, seguido por "Abracadabra", hit Alpha FM do Steve Miller Band que você conhece.
ESTÉTICA PODCAST É o tipo de mistura concisa que hoje em dia é mais fácil achar em podcast "pensado" do que na maioria dos sets. Na verdade, podcast e set é quase a mesma coisa, dependendo da sua intenção. A tracklist mostra bem as vias percorridas pelo CD: pop dance olsdkool >> trance e prog >> electro-pop da (2003) >> rock. Isso tudo rasgado por miscelâneas como a oitentista "Sweet Dreams" e Gus Gus remixado num progressivo-bombator de Skol Beats, com direito a corneta ufanista e tudo mais, ouve aí.
Jacques Lu Cont - Eurythmics - Sweet Dreams (mp3) MIX: Eurythmics - Sweet Dreams (Are Made Of This) >> Zoot Woman - It's Automatic (Cosmos Acid Remix) >> Gus Gus - David (Medicine 8 Remix)
Vale o registro de outros momentos bem pista open-air: a deliciosa farofada trance, bem temperada, do Crazy Pênis ("Give it Up") e um remix pré-electro house para "Remind Me", do Röyksopp. E o grupo francês Hypnolove vem fundido com o Les Rythmes Digitales em si.
O DELTA ROCK No epílogo desse FabricLive. 09, um balde de guitarras distintas, legitimando além da eletrônica as boas nuances da versatilidade de Jacques Lu Cont. Esse desfecho começa com a transição synth de Devo e sua "Snowball", bola de neve de bumbos e distorções que no CD são as maiores semelhanças com o electroclash da época. O houseiro Junior Sanchez brincou de Datarock em 2003 com sua "I Wanna Rock", interlúdio para o shoegazer quase gótico de Pixies e o encerramento com um rock progressivaço e sutilmente alegre de Brian Eno, "Here Comes The Warm Jets" (1973), dos primórdios da carreira do produtor.
Ocupado hoje com a produção para The Killers e Keane, Stuart Price descobriu lá quando era tecladista de Madonna a rentabilidade de investir no pop-rock. Uma ambição que, se deixa clubbers saudosos, mostra ao menos que a noção de eletrônica é bem encaminhada no mainstream por esses produtores Mas tudo bem, cada um no seu quadrado, e hoje, ao pensar em outros bons nomes nas fusões de diferente tipos de música dançante, lembro de Agoria, que fez um excelente At The Controls há cerca de seis meses. Boa dica para quem não quer saber de nostalgia.
Jade Augusto Gola (jadegola @ rraurl.com) it's like the 60s, with no hope
"...esse Fabric é uma aula pioneira do que se busca hoje com afinco: com concisão e técnica infalível, contar num set uma história variada em elementos e gêneros bem distintos." E ponto!
Só doeu ler que "Gouge Away", dos Pixies, é "shoegazer quase gótico", e que a belíssima "Here Comes The Warm Jets", do mestre Brian Eno, é um "rock progressivaço"...
E ponto!